Recebido
em: 23/08/2024
Aprovado
em: 05/06/2025
Publicado
em: 18/07/2025
ENTRE A VIDA E A MORTE:
Biopolítica, necropolítica e o perfil epidemiológico
do HIV/AIDS no Brasil após o desmonte da CNAIDS (2019–2022)
BETWEEN LIFE AND
DEATH: Biopolitics, Necropolitics,
and the Epidemiological
Profile of HIV/AIDS in Brazil
After the Dismantling of CNAIDS (2019–2022)
INTER VIVO KAJ MORTO: Biopolitiko,
nekropolitiko kaj la
epidemiologia profilo de HIV/aidoso
en Brazilo post la malmuntado
de CNAIDS (2019–2022)
Adriano Menino de Macêdo Júnior[44]
Shirlane
Priscilla Barbosa De Melo Azedo Raposo[45]
Miriam de
Andrade Brandão[46]
Eulâmpio Dantas Segundo[47]
Este estudo analisou a frequência
de casos confirmados de HIV/AIDS no Brasil entre 2019 e 2022, destacando o
impacto do desmantelamento da Comissão Nacional de AIDS. Na sequência,
utilizando o método ex-post-facto, a pesquisa
examinou a relação entre a descontinuidade da CNAIDS e o aumento dos casos de
HIV/AIDS, aplicando a Média Móvel Exponencialmente Ajustada (EMA) para suavizar
flutuações nos dados e identificar tendências. Dessa maneira, as teorias da
biopolítica de Foucault (1999) e da necropolítica de Mbembe (2018) foram utilizadas para contextualizar como
mudanças nas políticas públicas afetaram a saúde da população e aumentaram a
vulnerabilidade de grupos específicos. Acrescenta-se
que os dados recortados foram coletados e categorizados por faixa etária, sexo,
etnia e categoria de exposição. Dessa maneira, a EMA destacou flutuações e uma
recuperação parcial dos casos nos anos seguintes. Por conseguinte, os
resultados mostraram que a população parda foi a mais afetada, com um aumento
significativo de casos em todas as categorias de exposição. Ademais, entre os
homens, a EMA variou de 26.802 em 2019 para 25.432 em 2022, e entre as
mulheres, de 11.481 em 2019 para 10.398 em 2022, indicando uma recuperação
desigual no acesso aos cuidados de saúde. Concluiu-se que a descontinuidade das
políticas de controle e prevenção do HIV/AIDS durante o governo de Bolsonaro
teve impactos significativos nos dados epidemiológicos, com a análise
qualitativa ressaltando os perigos da necropolítica e
a importância das políticas públicas de saúde.
Palavras-chaves: CNAIDS. Necropolítica.
Biopolítica. Saúde Pública.
Abstract
This study analyzed the frequency
of confirmed cases of HIV/AIDS in Brazil between 2019 and 2022, highlighting the impact of the
dismantling of the National AIDS Commission. Subsequently, using the ex-post-facto
method, the research examined the relationship between the discontinuity
of CNAIDS and the increase in HIV/AIDS cases, applying the Exponentially
Adjusted Moving Average (EMA) to smooth fluctuations in the data and identify
trends. In this way, Foucault's (1999) theories of biopolitics
and Mbembe's (2018) necropolitics were used to contextualize how changes in public policies affected the health of
the population and increased the
vulnerability of specific groups. It is added that
the cut data was collected and
categorized by age group, sex, ethnicity and exposure category.
In this way, the EMA highlighted fluctuations and a partial recovery of cases in the following years. Therefore, the results showed that the brown
population was the most affected,
with a significant increase in cases in all exposure categories. Furthermore, among men, the EMA varied
from 26,802 in 2019 to
25,432 in 2022, and among women, from 11,481 in 2019 to 10,398 in 2022, indicating an uneven recovery
in access to healthcare. It was concluded that the discontinuity of HIV/AIDS control and prevention policies during Bolsonaro's government had significant impacts on epidemiological data, with the qualitative
analysis highlighting the dangers of
necropolitics and the importance of public health
policies.
Keywords:
CNAIDS. Necropolitics. Biopolitics. Public health.
Resumo
Ĉi tiu studo analizis
la oftecon de konfirmitaj kazoj de HIV/aidoso en Brazilo inter 2019 kaj 2022, elstarigante la efikon de la malmuntado de la Nacia Komisiono pri Aidoso. Poste, uzante la postfaktan metodon, la esploro ekzamenis la rilaton inter la malkontinueco de CNAIDS kaj la pliiĝo de HIV/aidos kazoj, aplikante
la Eksponente Adaptitan Movantan Mezumon (EMA) por glatigi fluktuojn en la datumoj kaj identigi
tendencojn. Tielmaniere, la teorioj pri biopolitiko
de Foucault (1999) kaj la teorioj
pri nekropolitiko de Mbembe (2018) estis uzitaj por kontekstualigi kiel ŝanĝoj en publikaj politikoj influis la sanon de la loĝantaro kaj pliigis la vundeblecon de specifaj grupoj. Aldonindas, ke la kolektitaj datumoj estis kolektitaj
kaj kategoriigitaj laŭ aĝogrupo, sekso,
etneco kaj eksponiĝokategorio. Tiel, la EMA elstarigis fluktuojn kaj partan resaniĝon
de kazoj en la sekvaj jaroj. Tial, la rezultoj montris, ke la bruna populacio
estis la plej trafita, kun signifa
pliiĝo de kazoj en ĉiuj eksponaj kategorioj. Krome, inter viroj, la EMA variis de 26 802 en 2019 ĝis 25
432 en 2022, kaj inter virinoj, de 11 481 en 2019 ĝis 10
398 en 2022, indikante neegalan
resaniĝon en aliro al sanservo. Oni konkludis, ke la malkontinueco de politikoj pri kontrolo kaj
preventado de HIV/aidoso
dum la registaro de Bolsonaro havis
signifajn efikojn sur epidemiologiajn datumojn, kaj la kvalita analizo elstarigis la danĝerojn de nekropolitiko kaj la gravecon de publiksanaj politikoj.
Ŝlosilvortoj: CNAIDS. Nekropolitiko. Biopolitiko. Publika sano.
INTRODUÇÃO
De
acordo com a Lei 8.080/90,
que promulga o Sistema Único de Saúde (SUS), a saúde é vista como um direito
fundamental do ser humano, e é dever do Estado garantir as condições para a sua
efetivação, através de políticas econômicas e sociais com ênfase em reduzir
riscos de doenças e agravos e estabelecer o acesso universal e igualitário às
ações e aos serviços para a promoção, proteção e recuperação da saúde. Acresce
que, em adição às evidências aduzidas, o dever do Estado não exclui a
responsabilidade das pessoas, da família, das empresas e da sociedade. Desse
modo, a saúde tem como determinantes e condicionantes a alimentação, a moradia,
o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a
atividade física, o transporte, o lazer, o acesso aos bens e serviços
essenciais, dentre outros. Portanto, a Lei 8.080/90 define que o conjunto de
ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas da
administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público,
constitui o SUS. Ainda assim, a iniciativa privada pode participar do SUS em
caráter complementar (Brasil, 1990).
Do mesmo modo, o que é
definido como único na Constituição é um conjunto de elementos doutrinários e
de organização do SUS: Doutrinários: Integralidade das ações, universalização
do acesso, equidade; Organizativos: Regionalização e hierarquização,
participação popular, descentralização com direção única em cada esfera de
governo e resolubilidade (Brasil, 1990). Diante disso, o SUS, conforme
estabelecido pela Lei 8.080/90, é fundamental para a garantia do direito à
saúde como um dever do Estado. Ele visa proporcionar condições para a promoção,
proteção e recuperação da saúde de forma universal e igualitária, considerando
diversos determinantes sociais, como alimentação, moradia, saneamento básico,
trabalho, entre outros. Paralelamente, observa-se adicionalmente que, a
Comissão Nacional de Aids (CNAIDS) desempenha um papel importante dentro do
SUS, atuando como uma instância consultiva para assessorar o Ministério da
Saúde na formulação de políticas específicas para o controle e prevenção do
HIV/AIDS. Além disso, a CNAIDS está integrada ao conjunto de ações e serviços
de saúde prestados pelo SUS, complementando as estratégias de saúde pública
para enfrentar essa importante questão de saúde. No entanto, dentre os pilares
princípios que regem o SUS, a saber, a
Universalidade, Integralidade e Equidade, não impediu que a Saúde
Pública brasileira fosse desmontada durante o mandato presidencial de Jair
Messias Bolsonaro (doravante, JMB).
Diante do exposto,
deslocamo-nos para a seguinte problemática: Como o desmonte da CNAIDS afetou o
quantitativo de novos casos de HIV/AIDS, durante o mandato do ex-presidente JMB
(2019-2022)?
A partir dessa questão
norteadora, esse artigo se justifica pela necessidade de compreender o impacto
da descontinuidade do CNAIDS durante o governo do ex-presidente JMB na dinâmica
da epidemia de HIV/AIDS no Brasil. A análise do perfil epidemiológico, em
conjunto com a desinstalação da CNAIDS, permitirá uma avaliação crítica da
importância das políticas de saúde para o país e sua relação com possíveis
vieses necropolíticos. Essa pesquisa contribuirá para
o debate acadêmico sobre saúde pública e políticas de HIV/AIDS no contexto
político atual do país.
Portanto,
o objetivo deste estudo é realizar um mapeamento do perfil epidemiológico do
HIV/AIDS no Brasil, utilizando dados estatísticos do DataSUS,
durante o mandato do presidente JMB, um período marcado por significativas
mudanças na política de saúde pública do país. Especificamente, pretende-se
analisar como as medidas adotadas durante esse período impactaram
variáveis-chave, incluindo sexo, faixa etária, categoria de exposição e raça,
por meio da utilização da Média Móvel Exponencial (EMA) quantitativas. Além
disso, buscar-se-á relacionar essas variáveis com o processo de desinstalação
da CNAIDS. Adicionalmente, este estudo buscará enquadrar essas análises micro
no contexto das tensões e agendas políticas macro, visando identificar
possíveis inscrições necropolíticas, conforme
conceituado por Mbembe (2018), e explorar a dinâmica
do conceito “Fazer Viver ou Deixar Morrer”, de Foucault (1999, p. 285), na
gestão de JMB.
METODOLOGIA
O presente estudo
utilizou o método Ex-post-facto para investigar a
relação entre o desmonte da CNAIDS e o aumento dos casos de HIV/AIDS no Brasil
durante o período de 2019 a 2022. O método Ex-post-facto
é adequado para estudos onde a variável independente já ocorreu e o pesquisador
não pode manipular ou controlar essa variável diretamente. Neste contexto, o
desmonte da CNAIDS representa a causa (variável independente) e o aumento dos
casos de HIV/AIDS constitui o efeito (variável dependente).
Por conseguinte, o
método Ex-post-facto permite a análise de eventos que
não podem ser manipulados experimentalmente devido a razões éticas ou práticas.
Este estudo se encaixa perfeitamente nesse método, pois examina as
consequências de uma decisão política já implementada (desmonte da CNAIDS) e
suas repercussões na saúde pública (aumento dos casos de HIV/AIDS). O objetivo
é compreender a relação de causa e efeito entre essas variáveis e identificar
os impactos dessa decisão sobre a incidência da doença.
Além do mais, convém
ressaltar a importância de que a análise ex-post-facto
envolve a coleta e análise de dados após a ocorrência do evento. No caso deste
estudo, foram coletados dados sobre a frequência de casos confirmados de
HIV/AIDS ao longo dos anos de 2019 a 2022, categorizados por faixa etária,
sexo, etnia e categoria de exposição. Através desses dados, buscou-se
identificar padrões e tendências que pudessem ser atribuídos às mudanças nas
políticas públicas decorrentes do desmonte da CNAIDS.
Quadro 1 – Método de cálculo EMA com suavização moderada.
|
Para calcular a
EMA, usaremos a fórmula: 𝐸𝑀𝐴𝑡 = 𝛼 × 𝑉𝑎𝑙𝑜𝑟𝑡 + (1−𝛼) × 𝐸𝑀𝐴𝑡 – 1. Na qual: EMAt é a média móvel
exponencial no momento 𝑡. 𝑉𝑎𝑙𝑜𝑟𝑡 é o valor atual. EMAt−1 é
a média móvel exponencial anterior. α é
o fator de suavização, que determina o peso dado ao valor atual em relação à
média anterior. Para os cálculos deste estudo, iremos usar 𝛼 = 0.5 para uma suavização moderada. |
Fonte:
Elaborado pelos autores.
Em suma, a integração
dos dados nos permite uma compreensão de que a utilização do método Ex-post-facto e da EMA proporcionou uma análise robusta das
consequências do desmonte da CNAIDS. Este estudo não apenas destacou o aumento
dos casos de HIV/AIDS, mas também evidenciou como decisões políticas podem
impactar diretamente a saúde pública. O método utilizado permitiu identificar
padrões e tendências que revelam a importância de políticas de saúde pública
bem estruturadas e a necessidade de um compromisso contínuo com a prevenção e
tratamento do HIV/AIDS.
RESULTADOS
A
tabela 1, logo abaixo, mapeia e detalha a frequência de casos confirmados de
HIV/AIDS ao longo dos anos de 2019 a 2022, período do mandato presidencial de
JMB, no Brasil, conforme as categorias de análises da faixa etária e sexo. Ao
explorar esses dados, ressalta-se considerar o contexto do desmantelamento da
CNAIDS, um órgão fundamental no planejamento e implementação de políticas de
saúde voltadas para o controle dessas doenças, que foi descontinuado durante o
mandato presidencial de JMB. Sobre a CNAIDS, a obra intitulada A Comissão
Nacional de Aids: a presença do passado na construção do futuro (2003, p.
6), argumenta:
Criada em 1986, a
Comissão Nacional de Aids – CNAIDS - teve importante papel na formatação das
ações governamentais na luta contra a aids. Atuou, em diferentes momentos desse
longo percurso, no assessoramento técnico aos gestores do Programa Nacional de
DST e Aids e na pressão política a outros órgãos governamentais a favor de
certas medidas (como na questão da distribuição gratuita de medicamentos) ou
contra outras (como a testagem compulsória de estrangeiros) que, em seu
conjunto, definiram as características do Programa Nacional. Com várias
reformulações de suas competências e composição e duas revisões de seu
regimento interno, sobreviveu às intempéries das mudanças de governo que incluíram
quatro presidentes, onze Ministros da Saúde e quatro Coordenadores do Programa
Nacional.
Sob o mesmo prisma,
pode-se igualmente inferir que a importância da comissão CNAIDS para a saúde
pública brasileira. Por conseguinte, os dados da tabela 1 corroboram o fato de
que mudanças nas políticas públicas afetaram a incidência de HIV/AIDS em
diferentes grupos populacionais brasileiros. Os números apresentados
identificam padrões, tendências e disparidades que podem ser atribuídos às
transformações nas estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento
resultantes do desmonte do CNAIDS.
Tabela
1 – Casos confirmados de HIV/AIDS por faixa
etária e sexo em meio ao desmantelamento do CNAIDS.
|
Ano |
Frequência de
casos confirmados conforme faixa etária e sexo |
|||||||||||
|
Faixa etária/ Sexo |
< 5 anos |
5-12 |
13-19 |
20-24 |
25-29 |
30-34 |
35-39 |
40-49 |
50-59 |
60 < |
Total |
|
|
2019 |
Total |
276 |
127 |
845 |
4.055 |
5.781 |
5.651 |
5.516 |
8.528 |
5.000 |
2.509 |
38.288 |
|
Masculino |
128 |
59 |
564 |
3.246 |
4.522 |
4.166 |
3.831 |
5.519 |
3.212 |
1.555 |
26.802 |
|
|
Feminino |
148 |
68 |
281 |
808 |
1.258 |
1.484 |
1.685 |
3.008 |
1.788 |
953 |
11.481 |
|
|
Ignorado/Branco |
0 |
0 |
0 |
1 |
1 |
1 |
0 |
1 |
0 |
1 |
5 |
|
|
2020 |
Total |
183 |
54 |
647 |
3.081 |
4.760 |
4.592 |
4.280 |
6.771 |
4.148 |
2.046 |
30.562 |
|
Masculino |
76 |
29 |
436 |
2.486 |
3.779 |
3.458 |
3.001 |
4.477 |
2.672 |
1.265 |
21.679 |
|
|
Feminino |
107 |
25 |
211 |
595 |
980 |
1.132 |
1.279 |
2.293 |
1.475 |
781 |
8.878 |
|
|
Ignorado/Branco |
0 |
0 |
0 |
0 |
1 |
2 |
0 |
1 |
1 |
0 |
5 |
|
|
2021 |
Total |
183 |
84 |
789 |
3.630 |
5.749 |
5.151 |
4.896 |
7.979 |
4.518 |
2.444 |
35.424 |
|
Masculino |
105 |
34 |
559 |
2.894 |
4.586 |
3.950 |
3.447 |
5.208 |
2.913 |
1.547 |
25.244 |
|
|
Feminino |
76 |
50 |
230 |
734 |
1.160 |
1.200 |
1.449 |
2.768 |
1.605 |
897 |
10.169 |
|
|
Ignorado/Branco |
2 |
0 |
0 |
2 |
3 |
1 |
0 |
3 |
0 |
2 |
13 |
|
|
2022 |
Total |
235 |
87 |
680 |
3.545 |
5.759 |
5.373 |
5.044 |
8.391 |
4.982 |
2.656 |
36.753 |
|
Masculino |
127 |
50 |
461 |
2.852 |
4.657 |
4.064 |
3.637 |
5.521 |
3.131 |
1.623 |
26.123 |
|
|
Feminino |
106 |
37 |
218 |
692 |
1.101 |
1.308 |
1.407 |
2.870 |
1.850 |
1.033 |
10.623 |
|
|
Ignorado/Branco |
2 |
0 |
1 |
1 |
1 |
1 |
0 |
0 |
1 |
0 |
7 |
|
Fonte:
Elaborado pelos autores, adaptado do DataSUS (2024).
Quadro 2 – Variação
das EMAs de Casos de HIV/AIDS conforme sexo, durante
2019 – 2022.
|
EMA dos Casos
Masculinos |
EMA dos Casos Femininos: |
|
EMA2019
= 26.802 EMA2020
= 0.5 x 21.679 + 0.5 x 26.802 = 24.2405 EMA2021
= 0.5 x 25.244 + 0.5 x 24.2405 = 24.74225 EMA2022
= 0.5 x 26.123 + 0.5 x 24.74225 = 25.432625 |
EMA2019
= 11.481 EMA2020
= 0.5 x 8.878 + 0.5 x 11.481 = 10.1795 EMA2021
= 0.5 x 10.169 + 0.5 x 10.1795 = 10.17425 EMA2022
= 0.5 x 10.623 + 0.5 x 10.17425 = 10.398625 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Acrescenta-se que, em
consonância com o exposto na tabela 1 e quadro 1, durante o período de 2019 a
2022, observamos uma significativa variação nos casos confirmados de HIV/AIDS
por faixa etária e sexo. A tabela e quadro fornecidos revelam que, ao longo dos
anos, houve uma diminuição inicial nos casos em 2020, possivelmente relacionada
à descontinuidade de políticas de saúde pública eficazes devido ao
desmantelamento da CNAIDS. Esse fenômeno pode ser explicado pelo impacto direto
das políticas de desmonte no acesso e na qualidade dos serviços de prevenção,
diagnóstico e tratamento do HIV/AIDS. A essa referida precarização de políticas
públicas, Mbembe (2018, p. 10) destaca sua
preocupação:
Minha preocupação
é com aquelas formas de soberania cujo projeto central não é a luta pela
autonomia, mas “a instrumentalização generalizada da existência humana e a
destruição material de corpos humanos e populações”. Tais formas da soberania
estão longe de ser um pedaço de insanidade prodigiosa ou uma expressão de
alguma ruptura entre os impulsos e interesses do corpo e da mente.
Conforme o
supramencionado, Mbembe (2018) discute a precarização
da vida como uma característica da nova condição colonial, onde a
instrumentalização dos seres humanos maximiza o poder econômico e a violência
política. No contexto brasileiro, o desmantelamento da CNAIDS exemplifica essa
precarização, afetando negativamente o acesso aos serviços de saúde e
contribuindo para a vulnerabilidade de populações específicas.
Sucedendo as análises,
a EMA foi utilizada para avaliar as variações ao longo do período, destacando
flutuações e uma recuperação parcial dos casos nos anos seguintes. Entre os
homens, a EMA variou de 26.802 em 2019 para 25.432625 em 2022, enquanto entre
as mulheres, variou de 11.481 em 2019 para 10.398625 em 2022. Essa variação
pode indicar uma recuperação mais lenta e desigual no acesso aos cuidados de
saúde para diferentes grupos, evidenciando as consequências adversas das
políticas adotadas no período analisado.
Em complemento, é
crucial afirmar, paralelamente, que essa análise quantitativa reflete o impacto
das mudanças políticas na saúde pública brasileira, destacando como a redução
dos casos de HIV/AIDS em 2020, seguida por uma oscilação nos anos subsequentes,
pode ser vista como uma manifestação do poder biopolítico
descrito por Foucault, em sua obra cognominada Em defesa da sociedade
(1999). Em sua análise sobre biopolítica, Foucault (1999, p. 291) descreve como
os mecanismos de poder passaram a se concentrar na gestão da vida, no qual o
Estado exerce controle sobre a natalidade, mortalidade e morbidade das
populações. Ele explica que:
doenças mais ou
menos difíceis de extirpar, e que não são mais como fatores permanentes das
como as epidemias, a título de causas de morte mais frequente, mas como fatores
permanentes – e é assim que as tratam – de subtração das forças, diminuição do
tempo de trabalho, baixa de energias, custos econômicos, tanto por causa da
produção não realizada quanto dos tratamentos que podem custar. Em suma, a
doença como fenômeno de população: não mais como a morte que se abate
brutalmente sobre a vida – e a epidemia – mas como a morte permanente, que se
introduz sorrateiramente na vida, a corrói perpetuamente, a diminui e a
enfraquece (Foucault, 1999, p. 291).
Como previamente
abordado por Foucault (1999), torna-se claro que essa visão se alinha com os
dados observados, indicando que a gestão inadequada da saúde pública durante o
governo de JMB, ao desmantelar estruturas essenciais como a CNAIDS, exemplifica
como o biopoder pode negligenciar certas populações,
resultando em “morte permanente, que se introduz sorrateiramente na vida, a corrói
perpetuamente, a diminui e a enfraquece” (Foucault, 1999).
Dessa forma, o desmonte
da CNAIDS e suas consequências epidemiológicas ilustram a teoria de Foucault
(1999), demonstrando como políticas públicas podem influenciar diretamente a
morbidade e mortalidade das populações. A gestão da saúde pública sob a gestão
de “Fazer morrer” de JMB, marcada pela descontinuidade de programas essenciais,
evidencia uma forma de necropolítica, no qual o poder
decide quem deve viver e quem pode ser deixado para morrer. Esta abordagem
política, conforme conceituado por Achille Mbembe (2018), complementa a análise foucaultiana
ao destacar como o Estado pode exercer o poder de vida e morte de forma
seletiva e discriminatória. A redução e posterior oscilação dos casos de HIV/AIDS
são reflexos diretos dessa política de desmonte e abandono, que resultou em um
enfraquecimento das estratégias de controle da epidemia e na precarização do
acesso aos serviços de saúde. Mbembe (2018) aborda
sua tecnologia necropolítica da seguinte forma:
Tratarei agora da
soberania, expressa predominantemente como o direito de matar. [...] Em tais
instâncias, o poder (e não necessariamente o poder estatal) continuamente se
refere e apela à exceção, à emergência e a uma noção ficcional do inimigo. [...] Na formulação de Foucault, o biopoder parece funcionar mediante a divisão entre as
pessoas que devem viver e as que devem morrer. [...] Esse controle pressupõe a
distribuição da espécie humana em grupos, a subdivisão da população em
subgrupos e o estabelecimento de uma cesura biológica entre uns e outros. [...]
Segundo Foucault, essa é a condição para a aceitabilidade do fazer morrer.
[...] O Estado nazi foi o mais completo exemplo de um Estado exercendo o
direito de matar. [...] Por uma extrapolação biológica do tema do inimigo
político, organizando a guerra contra os seus adversários e, ao mesmo tempo,
expondo seus próprios cidadãos à guerra, o Estado nazi é visto como aquele que
abriu caminho para uma tremenda consolidação do direito de matar. [...] A raça
é, mais uma vez, crucial para esse encadeamento [concatenação entre o biopoder, o estado de exceção e o estado de sítio]. [...] (Mbembe, 2018, p. 7-24).
Seguindo o raciocínio
de Mbembe (2018), nota-se que a análise dos dados
epidemiológicos de HIV/AIDS no Brasil, durante o desmonte da CNAIDS, corrobora
a teoria de Foucault sobre biopolítica, evidenciando como o poder estatal
influencia a saúde da população ao decidir sobre o acesso e a qualidade dos
serviços oferecidos. A descontinuidade das políticas de controle e prevenção do
HIV/AIDS durante o governo de JMB teve impactos significativos nos dados
epidemiológicos da doença, conforme revelado pelos dados quantitativos. A
análise qualitativa, respaldada pela teoria de Foucault, oferece uma compreensão
crítica dos mecanismos de biopoder em jogo,
destacando a importância das políticas de saúde pública e os perigos da necropolítica. Em última análise, essa pesquisa contribui
para o debate acadêmico sobre saúde pública e políticas de HIV/AIDS no contexto
político atual do Brasil, reforçando a necessidade de um compromisso contínuo e
eficaz na gestão da saúde pública para garantir a equidade e a proteção da vida
de todas as populações.
Outrossim, Mbembe (2018, p. 5) destaca que “a expressão máxima da soberania
reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e
quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da
soberania, seus atributos fundamentais.” Diante do exposto, Mbembe
destaca que a expressão máxima da soberania reside no poder de ditar quem pode
viver e quem deve morrer. Essas afirmativas são centrais para compreender as
políticas de saúde pública durante o governo de JMB, onde o desmantelamento da
CNAIDS resultou em uma gestão que priorizou determinadas populações em
detrimento de outras, influenciando diretamente as taxas de mortalidade e
morbidade.
Entretanto, devemos
manter uma postura crítica em relação aos dados apresentados, e conforme os
postulados de Foucault (1999), as práticas políticas por parte de JMB em seu
mandato deveriam ser na adoção da tecnologia de poder da “biopolítica” e “biopoder”, o que não foram se olharmos pela perspectiva do
filósofo Mbembe (2018). Nesse sentido, Foucault
(1999, p. 290) defende:
De que se trata
nessa nova tecnologia do poder, nessa biopolítica, nesse biopoder
que está se instalando? Eu lhes dizia em duas palavras agora há pouco: trata-se
de um conjunto de processos como a proporção dos nascimentos e dos óbitos, a
taxa de reprodução, a fecundidade de uma população, etc. São esses processos de
natalidade, de mortalidade, de longevidade que, justamente na segunda metade do
século XVIII, juntamente com uma porção de problemas econômicos e políticos (os
quais não retorno agora), constituíram, acho eu, os primeiros objetos de saber
e os primeiros alvos de controle dessa biopolítica. É nesse momento, em todo
caso, que se lança mão da medição estatística desses fenômenos com as primeiras
demografias. É a observação dos procedimentos, mais ou menos espontâneos, mais ou
menos combinados, que eram efetivamente postos em execução na população no
tocante a natalidade; em suma, se vocês preferirem, o mapeamento dos fenômenos
de controle dos nascimentos tais como eram praticados no século XVIII. Isso foi
também o esboço de uma política de natalidade ou, em todo caso, de esquemas de
intervenção nesses fenômenos globais da natalidade. Nessa biopolítica, não se
trata simplesmente do problema da fecundidade. Trata-se também do problema da
morbidade, não mais simplesmente, como justamente fora o caso até então, no
nível daquelas famosas epidemias cujo perigo havia atormentado tanto os poderes
políticos desde as profundezas da Idade Média (aquelas famosas epidemias que
eram dramas temporários da morte multiplicada, da morte tornada iminente para
todos).
Conforme supracitado,
Foucault (1999) discute a emergência da biopolítica, que envolve o controle e a
gestão da vida em nível populacional, abrangendo processos como natalidade,
mortalidade e longevidade. Destaca como esses aspectos se tornaram objetos de
saber e controle político a partir do século XVIII, com o uso da medição
estatística e a implementação de esquemas de intervenção. Paralelamente a isso,
por meio dos resultados quantitativos aqui ilustrados, pode-se observar que a descontinuidade
do CNAIDS durante o governo do ex-presidente JMB pode ser interpretada como um
distanciamento das práticas de “biopoder” e
“biopolítica”. Isso sugere uma falta de interesse em políticas de saúde pública
que abordam dinâmicas populacionais e questões de saúde coletiva, como a
incidência de HIV/AIDS, que podem ser influenciadas por intervenções
governamentais e práticas de controle de saúde. Foucault (1999, p. 291)
assevera o dever da tecnologia de poder: Biopolítica e Biopoder:
São esses fenômenos
que se começa a levar em conta no final do século XVIII e que trazem a
introdução de uma medicina que vai ter, agora, a função maior da higiene
publica, com organismos de coordenação dos tratamentos médicos, de
centralização da informação, de normalização do saber, e que adquire também o
aspecto de campanha de aprendizado da higiene e de medicalização da população.
Portanto, problemas da reprodução, da natalidade, problema da morbidade também.
Foucault (1999) discute
a emergência da medicina como uma ferramenta de higiene pública e controle
populacional no final do século XVIII, envolvendo a coordenação de tratamentos
médicos, centralização da informação e normalização do saber. Isso inclui
campanhas de aprendizado sobre higiene e medicalização da população, abordando
questões de reprodução, natalidade e morbidade. Além disso, as tecnológicas
biopolítica e biopoder, fundamentam os pilares que
estão incorporados no CNAIDS e que foi descontinuado por JMB.
A descontinuidade do
CNAIDS durante o governo de JMB pode ter influenciado a dinâmica dos casos de
HIV/AIDS de diversas maneiras. Isso porque, o CNAIDS é uma instância colegiada
consultiva com o propósito de assessorar o Ministério da Saúde na formulação da
política de prevenção e controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS.
Seu papel abrange também a articulação política entre os setores do Governo
(Federal, Estadual, Municipal) e a Sociedade Civil, com o objetivo de
sensibilizá-los para a luta contra esses problemas de saúde pública (Brasil, 2003).
Essa análise integrada
permite compreender melhor como as políticas governamentais afetam a saúde
pública e a qualidade de vida da população. Através dos dados e da teoria foucaultiana, podemos observar que a negligência e o
desmonte de estruturas essenciais como a CNAIDS têm consequências diretas na
propagação do HIV/AIDS, exacerbando desigualdades e comprometendo a saúde
coletiva. Portanto, é imperativo que se reconheça a importância das políticas
de saúde pública robustas e inclusivas para enfrentar eficazmente epidemias
como o HIV/AIDS, garantindo que todos os indivíduos tenham acesso aos cuidados
necessários para viver com dignidade e saúde.
Deslocando-se para a
próxima análise, conforme apontado no quadro 3, as EMAs
dos casos de HIV/AIDS conforme faixa etária ao longo dos anos de 2019, 2020,
2021 e 2022, observou-se tendências significativas de novos casos registrados
para a Infecção Sexualmente Transmissível (IST) supramencionada. Inicialmente,
destaca-se um aumento nos casos em várias faixas etárias nos primeiros anos
analisados (2019 e 2020), seguido por variações e quedas nos anos posteriores
(2021 e 2022). Utilizando as EMAs como medida,
observamos como a variação dos casos ao longo do tempo pode ser associada às
mudanças nas políticas públicas e à gestão governamental do período.
Quadro 3
– EMAs de casos de HIV/AIDS por faixa etária (2019-2022).
|
EMAs consoante cada
faixa etária |
|
|
2019 |
2020 |
|
EMA <5=0.5×276+0.5×0=138 EMA 5−12=0.5×127+0.5×0=63.5 EMA 13−19=0.5×845+0.5×0=422.5 EMA20−24=0.5×4055+0.5×0=2027.5 EMA25−29=0.5×5781+0.5×0=2890.5 EMA30−34=0.5×5651+0.5×0=2825.5 EMA 35−39=0.5×5516+0.5×0=2758 EMA 40−49=0.5×8528+0.5×0=4264 EMA 50−59=0.5×5000+0.5×0=2500 EMA 60<=0.5×2509+0.5×0=1254.5 |
EMA<5=0.5×183+0.5×138=160.5 EMA5−12=0.5×54+0.5×63.5=58.75 EMA13−19=0.5×647+0.5×422.5=534.75 EMA20−24=0.5×3081+0.5×2027.5=2554.25 EMA25−29=0.5×4760+0.5×2890.5=3825.25 EMA30−34=0.5×4592+0.5×2825.5=3708.75 EMA35−39=0.5×4280+0.5×2758=3519 EMA40−49=0.5×6771+0.5×4264=5517.5 EMA50−59=0.5×4148+0.5×2500=3324 EMA60<=0.5×2046+0.5×1254.5=1650.25 |
|
2021 |
2022 |
|
EMA<5=0.5×183+0.5×192.5=187.75 EMA 5−12=0.5×84+0.5×183.25=133.125 EMA13−19=0.5×789+0.5×359.5=574.25 EMA20−24=0.5×3630+0.5×1951.5=2790.75 EMA25−29=0.5×5749+0.5×2774.75=4261.875 EMA30−34=0.5×5151+0.5×2762.875=3956.9375 EMA35−39=0.5×4896+0.5×2617.9375=3756.96875 EMA40−49=0.5×7979+0.5×3706.96875=5842.984375 EMA50−59=0.5×4518+0.5×2872.984375=3695.4921875 EMA60<=0.5×2444+0.5×1933.4921875=2188.74609375 |
EMA<5=0.5×235+0.5×117.5=152.625 EMA5−12=0.5×87+0.5×43.5=65.25 EMA13−19=0.5×680+0.5×340=510 EMA20−24=0.5×3.545+0.5×1772.5=1160.7625 EMA25−29=0.5×5.759+0.5×2879.5=2167.629 EMA30−34=0.5×5.373+0.5×2686.5=2005.936 EMA35−39=0.5×5.044+0.5×2522=1882.022 EMA40−49=0.5×8.391+0.5×4195.5=3093.945 EMA50−59=0.5×4.982+1−0.5×2491=1871.491 EMA≥60=0.5×2.656+0.5×1328=993.328 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Inicialmente, em 2019,
as EMAs para as diferentes faixas etárias mostravam
valores que refletem uma certa estabilidade nos casos. Por exemplo, a faixa
etária de 20 a 24 anos apresentou uma EMA de 2027,5, enquanto a faixa de 25 a
29 anos teve uma EMA de 2890,5. No entanto, com o desmantelamento da CNAIDS e a
descontinuidade de políticas específicas de prevenção e tratamento, observamos
um impacto significativo em 2020. As EMAs para a
maioria das faixas etárias aumentaram substancialmente, com a faixa de 25 a 29
anos subindo para 3825,25 e a faixa de 40 a 49 anos chegando a 5517,5.
Esta variação aponta
para uma correlação entre a gestão inadequada da saúde pública e o aumento dos
casos de HIV/AIDS. Em 2021, apesar de um leve aumento na EMA para algumas
faixas etárias, como a de 40 a 49 anos, que passou para 5842,98, outras faixas
etárias como a de 20 a 24 anos, mostraram uma leve queda para 2790,75. No
entanto, em 2022, a situação mostrou um agravamento generalizado. A faixa
etária de 40 a 49 anos, por exemplo, teve uma EMA de 3093,945, refletindo a
continuidade dos impactos negativos do desmonte da CNAIDS.
Essa dinâmica pode ser
entendida sob a ótica foucaultiana, quando Foucault
(1999) discute como a biopolítica envolve a gestão da vida e da saúde das
populações pelo Estado. Foucault (1999) argumenta que a biopolítica envolve a
gestão da vida e da saúde das populações pelo Estado, onde a mortalidade e a
morbidade são monitoradas e controladas através de mecanismos de poder. Ele
observa que
[...] não é
exatamente com a sociedade que se lida nessa nova tecnologia de poder (ou,
enfim, com o corpo social tal como o definem os juristas); não e tampouco com o
indivíduo-corpo. É um novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças,
se não infinito pelo menos necessariamente numerável. É a noção de “população”.
A biopolítica lida com a população, e a população como problema político, como
problema a um só tempo científico e político, como problema biológico e como
problema de poder, acho que aparece nesse momento.
Em consonância com o
que foi previamente discutido, Foucault (1999) afirma como a gestão de saúde
pública se torna uma questão de controle e poder sobre a população. Foucault
(1999) também discute como a biopolítica se manifesta na gestão de fenômenos de
população, destacando a importância de “estabelecer mecanismos reguladores que,
nessa população global com seu campo aleatório, vão poder fixar um equilíbrio,
manter uma média, estabelecer uma espécie de homeostase” (Foucault, 1999, p.
293). A ausência de tais mecanismos reguladores no contexto do desmonte da
CNAIDS resultou em um desequilíbrio na gestão da epidemia de HIV/AIDS,
evidenciado pelo aumento nas EMAs das faixas etárias
mais afetadas.
Portanto, a análise dos
dados estatísticos sobre HIV/AIDS no Brasil, associada à teoria da biopolítica
de Foucault, revela como a falta de políticas públicas eficazes contribui para
um aumento contínuo e silencioso dos casos, enfraquecendo a saúde da população
de maneira persistente. O desmonte da CNAIDS exemplifica a falha em utilizar a
biopolítica para “fazer viver”, resultando em uma situação na qual a doença se
torna um fenômeno populacional que “se introduz sorrateiramente na vida, a
corrói perpetuamente, a diminui e a enfraquece” (Foucault, 1999). Essa dinâmica
ressalta a importância crucial de políticas de saúde pública bem estruturadas
para manter a homeostase e a saúde coletiva da população.
Essa análise reforça a
importância de políticas públicas eficazes e contínuas no combate ao HIV/AIDS,
ressaltando a necessidade de investimento em prevenção, tratamento e
conscientização em todas as faixas etárias. Além disso, evidencia a urgência de
se reverter o desmonte das políticas de saúde pública, garantindo o acesso
universal e igualitário aos serviços de saúde, em consonância com os princípios
do SUS no Brasil. Dessa forma, se pensarmos na tecnologia de poder, postulada
por Foucault (1999, p. 293), a biopolítica, em outras palavras, “fazer viver ou
deixar morrer”, o desmonte do CNAIDS revela um contraste entre o que deveria
ser uma gestão pela vida e não foi:
Essa tecnologia de
poder, essa biopolítica, vai implantar mecanismos que têm certo número de
funções muito diferentes das funções que eram as dos mecanismos disciplinares.
Nos mecanismos implantados pela biopolítica, vai se tratar sobretudo, e claro,
de previsões, de estimativas estatísticas, de medições globais; vai se tratar,
igualmente, não de modificar tal fenômeno em especial, não tanto tal individuo,
na medida em que é individuo, mas, essencialmente, de intervir no nível daquilo
que são as determinações desses fenômenos gerais, desses fenômenos no que eles
têm de global. Vai ser preciso modificar, baixar a morbidade; vai ser preciso
encompridar a vida; vai ser preciso estimular a natalidade. E trata-se
sobretudo de estabelecer mecanismos reguladores que, nessa população global com
seu campo aleat6rio, vão poder fixar um equilíbrio, manter uma media, estabelecer uma espécie de homeostase, assegurar
compensações; em suma de instalar mecanismos de previdência em tomo desse
aleatório que e inerente a uma população de seres vivos, de otimizar, se vocês
preferirem, um estado de vida: mecanismos, como vocês veem, como os mecanismos
disciplinares, destinados em suma a maximizar forças e a extraí-las, mas que
passam por caminhos inteiramente diferentes.
Portanto, com base nos
postulados Foucaultianos (1999), discute-se uma nova
forma de poder, a biopolítica, que se diferencia dos mecanismos disciplinares.
Na biopolítica, o foco está em previsões, estimativas estatísticas e medições
globais, visando modificar determinações gerais dos fenômenos em vez de
indivíduos específicos. Essa tecnologia de poder busca influenciar a morbidade,
a longevidade e a natalidade, estabelecendo mecanismos reguladores para manter
um equilíbrio na população. Ao contrário dos mecanismos disciplinares, que
visam maximizar o controle sobre os indivíduos, os da biopolítica otimizam o
estado de vida da população como um todo, através de abordagens distintas. Ou
seja, enquanto Foucault discute a implementação de mecanismos para otimizar o
estado de vida da população, como a promoção da saúde e a regulação de
natalidade e morbidade, o desmonte do CNAIDS representa uma mudança na forma
como o Estado lida com questões de saúde pública, particularmente relacionadas
ao HIV/AIDS.
Transitando para a
tabela 2, ao analisar os dados de casos confirmados de HIV/AIDS por categoria
de exposição e etnia nos anos de 2019 a 2022, observa-se uma variação no total
de casos confirmados ao longo do período, com uma tendência geral de queda em
2020, seguida por um aumento em 2021 e 2022. A categoria de exposição “Parda” apresenta
consistentemente o maior número de casos confirmados em todos os anos, seguida
pela categoria “Branca”, enquanto as categorias “Preta” e “Indígena” geralmente
têm números menores de casos confirmados. Delimitando-se para as variáveis
categoria de exposição e etnia, a tabela 2 detalha a frequência de casos
confirmados de HIV/AIDS ao longo dos anos de 2019 a 2022, no Brasil.
Ao analisar os dados de
casos confirmados de HIV/AIDS por categoria de exposição e etnia nos anos de
2019 a 2022, observa-se uma variação no total de casos confirmados ao longo do
período, com uma tendência geral de queda em 2020, seguida por um aumento em
2021 e 2022. A categoria de exposição parda apresenta consistentemente o maior
número de casos confirmados em todos os anos, seguida pela categoria “branca,
enquanto as categorias “preta” e “indígena” geralmente têm números menores de
casos confirmados.
Em relação à
distribuição por categoria de exposição, “heterossexual” é a que apresenta
consistentemente o maior número de casos, seguida por “homossexual” e
“ignorado”. As categorias “bissexual”, “UDI” (usuários de drogas injetáveis) e
“transmissão vertical” geralmente têm números menores de casos confirmados.
Houve variações nos números de casos confirmados ao longo dos anos em todas as
categorias de exposição, com aumentos e diminuições em diferentes períodos. A
categoria “ignorado” mostra uma variação significativa, destacando a
importância de melhorar a coleta e registro de dados. Esses dados ressaltam a
necessidade contínua de monitoramento e intervenção eficaz para controlar a
disseminação do HIV/AIDS, especialmente entre grupos étnicos e categorias de
exposição com maiores números de casos confirmados. Além disso, destacam a
importância da coleta precisa de dados e da implementação de políticas de saúde
pública direcionadas para lidar com essa questão de saúde global.
Tabela 2
– Análise da frequência de casos confirmados por
categoria de exposição e etnia ao longo dos anos.
|
Ano |
Frequência de
casos confirmados conforme categoria de exposição e etnia |
|||||||
|
Etnia/ Categoria de
exposição |
Branca |
Preta |
Amarela |
Parda |
Indígena |
Ignorado |
Total |
|
|
2019 |
Total |
7.667 |
2.353 |
139 |
9.759 |
66 |
18.304 |
38.288 |
|
Homossexual |
2.230 |
495 |
32 |
2.196 |
13 |
254 |
5.220 |
|
|
Bissexual |
438 |
124 |
8 |
546 |
9 |
55 |
1.180 |
|
|
Heterossexual |
3.865 |
1.330 |
84 |
5.011 |
39 |
444 |
10.773 |
|
|
UDI |
154 |
47 |
1 |
186 |
0 |
25 |
413 |
|
|
Hemofílico |
0 |
1 |
0 |
1 |
0 |
0 |
2 |
|
|
Transfusão |
1 |
1 |
0 |
1 |
0 |
0 |
3 |
|
|
Transmissão
Vertical |
91 |
27 |
0 |
165 |
1 |
20 |
304 |
|
|
Ignorado |
888 |
328 |
14 |
1.653 |
4 |
17.506 |
20.393 |
|
|
2020 |
Total |
5.845 |
1.762 |
134 |
7.830 |
49 |
14.942 |
30.562 |
|
Homossexual |
1.751 |
421 |
43 |
1.875 |
15 |
159 |
4.264 |
|
|
Bissexual |
340 |
106 |
4 |
472 |
4 |
37 |
963 |
|
|
Heterossexual |
2.832 |
941 |
69 |
3.844 |
23 |
294 |
8.003 |
|
|
UDI |
127 |
25 |
3 |
122 |
0 |
15 |
292 |
|
|
Hemofílico |
2 |
0 |
0 |
8 |
0 |
0 |
10 |
|
|
Transfusão |
0 |
0 |
1 |
0 |
0 |
0 |
1 |
|
|
Transmissão
Vertical |
71 |
27 |
2 |
119 |
4 |
17 |
240 |
|
|
Ignorado |
722 |
242 |
12 |
1.390 |
3 |
14.420 |
16.789 |
|
|
2021 |
Total |
6.305 |
1.975 |
166 |
8.752 |
74 |
18.152 |
35.424 |
|
Homossexual |
1.989 |
517 |
33 |
2.125 |
19 |
198 |
4.881 |
|
|
Bissexual |
371 |
115 |
16 |
538 |
1 |
36 |
1.077 |
|
|
Heterossexual |
2.933 |
966 |
77 |
4.240 |
38 |
321 |
8.575 |
|
|
UDI |
97 |
43 |
5 |
163 |
0 |
25 |
333 |
|
|
Transfusão |
2 |
1 |
0 |
0 |
0 |
0 |
3 |
|
|
Transmissão
Vertical |
70 |
18 |
1 |
117 |
3 |
16 |
225 |
|
|
Ignorado |
843 |
315 |
34 |
1.569 |
13 |
17.556 |
20.330 |
|
|
2022 |
Total |
5.995 |
2.081 |
136 |
8.566 |
56 |
19.919 |
36.753 |
|
Homossexual |
1.814 |
495 |
33 |
1.985 |
16 |
175 |
4.518 |
|
|
Bissexual |
375 |
140 |
7 |
546 |
4 |
44 |
1.116 |
|
|
Heterossexual |
2.837 |
1.028 |
68 |
3.994 |
26 |
281 |
8.234 |
|
|
UDI |
111 |
46 |
1 |
169 |
2 |
11 |
340 |
|
|
Hemofílico |
1 |
0 |
0 |
3 |
0 |
1 |
5 |
|
|
Transfusão |
0 |
1 |
0 |
0 |
0 |
0 |
1 |
|
|
Acid. Material
Biológico |
1 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
1 |
|
|
Transmissão
Vertical |
64 |
24 |
1 |
143 |
2 |
13 |
247 |
|
|
Ignorado |
792 |
347 |
26 |
1.726 |
6 |
19.394 |
22.291 |
|
Fonte: Elaborado pelos autores.
Conforme destacado no
tabela 2, em 2019, a EMA para casos de exposição homossexual foi de 2.610,
aumentando para 3.437 em 2020, caindo para 4.159 em 2021 e chegando a 4.3385 em
2022. Houve uma tendência de redução na EMA ao longo dos anos, sugerindo uma
possível eficácia das estratégias de prevenção e conscientização direcionadas a
essa comunidade. No entanto, a queda não foi tão acentuada quanto em outras
categorias, indicando a necessidade contínua de intervenções específicas e
sensíveis à realidade dos homens homossexuais.
Para casos de exposição
bissexual, a EMA foi de 590 em 2019, aumentando para 776.5 em 2020, subindo
para 388.7885 em 2021 e diminuindo para 194.95225 em 2022. Houve flutuações ao
longo dos anos, com uma tendência de queda menos consistente, o que pode
refletir desafios adicionais na prevenção e detecção de infecções nessa
população, sujeita a estigma e barreiras específicas ao acesso aos serviços de
saúde. A EMA para casos de exposição heterossexual foi de 5.386.5 em 2019,
caindo para 6.694.75 em 2020, diminuindo para 7.634.375 em 2021 e chegando a
7.934.1875 em 2022. Observou-se uma redução ao longo dos anos, embora menos
pronunciada do que na exposição homossexual, sugerindo a necessidade de revisão
das estratégias de prevenção direcionadas à população heterossexual para melhor
atender às suas necessidades específicas.
No caso dos usuários de
drogas injetáveis (UDI), a EMA foi de 206.5 em 2019, aumentando para 249.25 em
2020, subindo para 291.125 em 2021 e chegando a 315.5625 em 2022. Houve
variações, mas a média permaneceu relativamente estável ao longo dos anos,
sugerindo eficácia nas intervenções de redução de danos e acesso a serviços de
saúde para esse grupo. As EMAs para casos de hemofilia
e transfusão foram consistentemente baixas ao longo dos anos, indicando
eficácia nas medidas de prevenção de transmissão sanguínea. Da mesma forma, as EMAs para exposição a ácido/material biológico e
transmissão vertical foram baixas e estáveis, sugerindo eficácia nas
estratégias de prevenção perinatal e no ambiente de trabalho.
Pensando ainda com a
lente de Mbembe (2018, p. 7), o teórico sugere que a
noção de “estado de exceção deixa de ser uma suspensão temporal do estado de
direito. De acordo com Agamben, ele adquire um
arranjo espacial permanente, que se mantém continuamente fora do estado normal
da lei.” Nesse sentido, reiterando a ideia proposta por Mbembe,
observa-se como Agamben descreve, o estado de exceção
pode se tornar um arranjo espacial permanente, operando fora do estado normal
da lei. O desmantelamento da CNAIDS durante o governo de JMB representa essa
condição, perpetuando a exclusão de grupos vulneráveis do acesso adequado à
saúde e exacerbando as desigualdades.
Quadro 4
– Comparação das EMAs por Categoria de Exposição e
Raça/Etnia.
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EMAs de acordo com
cada Categoria de Exposição |
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2019 |
2020 |
|
𝐸𝑀𝐴Homossexual=0.5×5.220+0.5×0=2.610 𝐸𝑀𝐴Bissexual=0.5×1.180+0.5×0=590 𝐸𝑀𝐴Heterossexual=0.5×10.773+0.5×0=5.386.5 𝐸𝑀𝐴UDI=0.5×413+0.5×0=206.5 𝐸𝑀𝐴Hemofílico=0.5×2+0.5×0=1 𝐸𝑀𝐴Transfusão=0.5×3+0.5×0=1.5 𝐸𝑀𝐴Transmissão Vertical=0.5×304+0.5×0=152 𝐸𝑀𝐴Ignorado=0.5×20.393+0.5×0=10.196.5 |
𝐸𝑀𝐴Homossexual=0.5×4.264+0.5×2.610=3.437 𝐸𝑀𝐴Bissexual=0.5×963+0.5×590=776.5 𝐸𝑀𝐴Heterossexual=0.5×8.003+0.5×5.386.5=6.694.75 𝐸𝑀𝐴UDI=0.5×292+0.5×206.5=249.25 𝐸𝑀𝐴Hemofílico=0.5×10+0.5×1=5.5 𝐸𝑀𝐴Transfusão=0.5×1+0.5×1.5=1.25 𝐸𝑀𝐴Transmissão Vertical=0.5×240+0.5×152=196 𝐸𝑀𝐴Ignorado=0.5×16.789+0.5×10.196.5=13.492.75 |
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2021 |
2022 |
|
𝐸𝑀𝐴Homossexual=0.5×4.881+0.5×3.437=4.159 𝐸𝑀𝐴Bissexual=0.5×1.077+0.5×776.5=388.7885 𝐸𝑀𝐴Heterossexual=0.5×8.575+0.5×6.694.75=7.634.375 𝐸𝑀𝐴UDI=0.5×333+0.5×249.25=291.125 𝐸𝑀𝐴Transfusão=0.5×3+0.5×1.25=2.125 𝐸𝑀𝐴Transmissão Vertical=0.5×225+0.5×196=210.5 𝐸𝑀𝐴Ignorado=0.5×20.330+0.5×13.492.75=16.911.375 |
𝐸𝑀𝐴Homossexual=0.5×4.518+0.5×4.159=4.3385 𝐸𝑀𝐴Bissexual=0.5×1.116+0.5×388.7885=194.95225 𝐸𝑀𝐴Heterossexual=0.5×8.234+0.5×7.634.375=7.934.1875 𝐸𝑀𝐴UDI=0.5×340+0.5×291.125=315.5625 𝐸𝑀𝐴Hemofílico=0.5×5+0.5×5.5=5.25 𝐸𝑀𝐴Transfusão=0.5×1+0.5×2.125=1.5625 𝐸𝑀𝐴Acid. Material Biológico=0.5×1+0.5×0=0.5 𝐸𝑀𝐴Transmissão Vertical=0.5×247+0.5×210.5=228.75 𝐸𝑀𝐴Ignorado=0.5×22.291+0.5×16.911.375=19.601.1875 |
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EMAs conforme Raça |
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2019 |
2020 |
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EMABranca=0.5×7.667+0.5×0=3.8335
EMAPreta=0.5×2.353+0.5×0=1.1765 EMAAmarela=0.5×139+0.5×0=69.5 EMAParda=0.5×9.759+0.5×0=4.8795 EMAIndígena=0.5×66+0.5×0=33 EMAIgnorado=0.5×18.304+0.5×0=9.152 |
EMABranca=0.5×5.845+0.5×3.8335=4.83925
EMAPreta=0.5×1.762+0.5×1.1765=1.46925 EMAAmarela=0.5×134+0.5×69.5=101.75 EMAParda=0.5×7.830+0.5×4.8795=6.35475 EMAIndígena=0.5×49+0.5×33=41 EMAIgnorado=0.5×14.942+0.5×9.152=12.047 |
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2021 |
2022 |
|
EMABranca=0.5×6.305+0.5×4.83925=5.572125
EMAPreta=0.5×1.975+0.5×1.46925=1.722125 EMAAmarela=0.5×166+0.5×101.75=133.875 EMAParda=0.5×8.752+0.5×6.35475=7.553375 EMAIndígena=0.5×74+0.5×41=57.5 EMAIgnorado=0.5×18.152+0.5×12.047=15.0995 |
EMABranca=0.5×5.995+0.5×5.572125=5.7835625
EMAPreta=0.5×2.081+0.5×1.722125=1.9015625 EMAAmarela=0.5×136+0.5×133.875=134.9375 EMAParda=0.5×8.566+0.5×7.553375=8.0596875 EMAIndígena=0.5×56+0.5×57.5=56.75 EMAIgnorado=0.5×19.919+0.5×15.0995=17.50975 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Ao analisar as EMAs conforme a raça/etnia ao longo dos anos de 2019 a
2022, conforme apontado no quadro 4, observou-se tendências distintas para cada
grupo racial/étnico. Para a raça branca, a EMA começou em 3.8335 em 2019,
subindo para 4.83925 em 2020, 5.572125 em 2021 e alcançando 5.7835625 em 2022.
Essa tendência crescente pode indicar um aumento na incidência de casos de
HIV/AIDS entre pessoas brancas ao longo desses anos, possivelmente refletindo
mudanças nos comportamentos de risco ou acesso desigual aos serviços de saúde.
No caso da raça preta,
a EMA iniciou em 1.1765 em 2019, aumentando para 1.46925 em 2020, 1.722125 em
2021 e 1.9015625 em 2022. Houve um padrão semelhante de aumento ao longo dos
anos, sugerindo um aumento na incidência de casos entre pessoas pretas, embora
em uma escala menor em comparação com a raça branca. Para a raça amarela, a EMA
foi de 69.5 em 2019, subindo para 101.75 em 2020, 133.875 em 2021 e 134.9375 em
2022. Essa tendência ascendente pode indicar um aumento significativo na
incidência de HIV/AIDS entre pessoas de origem asiática ao longo desses anos,
possivelmente influenciado por fatores socioeconômicos, comportamentais ou de
acesso aos serviços de saúde.
No grupo racial/étnico
pardo, a EMA foi de 4.8795 em 2019, aumentando para 6.35475 em 2020, 7.553375
em 2021 e 8.0596875 em 2022. Houve um aumento consistente ao longo dos anos,
indicando uma tendência preocupante de aumento na incidência de casos entre
pessoas pardas, que representam uma parte significativa da população
brasileira. Para a raça indígena, a EMA começou em 33 em 2019, aumentando para
41 em 2020, 57.5 em 2021 e permanecendo estável em 56.75 em 2022. Houve
variações ao longo dos anos, mas a média permaneceu relativamente estável,
sugerindo uma incidência constante de casos entre pessoas indígenas. Por fim,
na categoria “ignorado”, a EMA foi de 9.152 em 2019, aumentando para 12.047 em
2020, 15.0995 em 2021 e 17.50975 em 2022.
Consequentemente,
concluímos nessa abordagem que a
população parda apresentou o maior número de casos confirmados em todas as
categorias de exposição ao longo dos anos, o que pode indicar uma
vulnerabilidade maior desse grupo específico. Foucault (1999, p. 293) aponta
que a “biopolítica vai se dirigir, em suma, aos acontecimentos aleatórios que
ocorrem numa população considerada em sua duração”, sugerindo que o foco do
controle biopolítico é a gestão das desigualdades e
variações dentro da população ao longo do tempo. Sob a mesma ótica, Mbembe (2018, p. 14) vai destacar que, “na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da
morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault,
essa é ‘a condição para a aceitabilidade do fazer morrer’”. De acordo com o que
foi anteriormente destacado por Mbembe, entende-se
que, na economia do biopoder, o racismo regula a
distribuição da morte, possibilitando as funções assassinas do Estado. Isso se
reflete na desproporcional incidência de HIV/AIDS entre populações marginalizadas
racialmente no Brasil, evidenciando como as políticas públicas podem reforçar
desigualdades estruturais.
Outro aspecto relevante
é a categoria de casos “Ignorado”, que representa uma porção significativa dos
dados (20.393 em 2019, 16.789 em 2020, 20.330 em 2021 e 22.291 em 2022). Esse
grupo inclui casos onde a categoria de exposição não foi identificada,
refletindo lacunas no sistema de vigilância e registro de informações. Foucault
(1999, p. 293) argumenta que “nos mecanismos implantados pela biopolítica, vai
se tratar sobretudo, e claro, de previsões, de estimativas estatísticas, de
medições globais”. Foucault (1999, p. 293) ainda declara:
A partir daí –
terceira coisa, acho eu, importante -, essa tecnologia de poder, essa
biopolítica, vai implantar mecanismos que tem certo número de funções muito
diferentes das funções que eram as dos mecanismos disciplinares. Nos mecanismos
implantados pela biopolítica, vai se tratar sobretudo, e claro, de previsões,
de estimativas estatísticas, de medições globais; vai se tratar, igualmente,
não de modificar tal fenômeno em especial, não tanto tal indivíduo, na medida
em que é indivíduo, mas, essencialmente, de intervir no nível daquilo que são
as determinações desses fenômenos gerais, desses fenômenos no que eles têm de
global. Vai ser preciso modificar, baixar a morbidade; vai ser preciso
encompridar a vida; vai ser preciso estimular a natalidade. E trata-se
sobretudo de estabelecer mecanismos reguladores que, nessa população global com
seu campo aleatório, vão poder fixar um equilíbrio, manter uma media, estabelecer uma espécie de homeostase, assegurar
compensações; em suma de instalar mecanismos de previdência em torno desse
aleatório que e inerente a uma população de seres vivos, de otimizar, se vocês
preferirem, um estado de vida: mecanismos, como vocês veem, como os mecanismos
disciplinares, destinados em suma a maximizar forças e a extrai-las, mas que
passam por caminhos inteiramente diferentes. Pois aí não se trata,
diferentemente das disciplinas, de um treinamento individual realizado por um
trabalho no próprio corpo. Não se trata absolutamente de ficar ligado a um
corpo individual, como faz a disciplina. Não se trata, por conseguinte, em
absoluto, de considerar o indivíduo no nível do detalhe, mas, pelo contrário,
mediante mecanismos globais, de agir de tal maneira que se obtenham estados
globais de equilíbrio, de regularidade; em resumo, de levar em conta a vida, os
processos biológicos do homem-espécie e de assegurar sobre eles não uma
disciplina, mas uma regulamentação.
Revisando a citação de
Foucault (1999), pode-se deduzir que a importância da coleta de dados é preciso
para a eficácia do biopoder. A alta frequência de
casos ignorados indica uma necessidade de aprimoramento nos métodos de coleta e
análise de dados para garantir uma compreensão completa e eficaz da epidemia.
Além disso, a
distribuição dos casos por categoria de exposição revela padrões de
comportamento e risco específicos entre diferentes grupos. A predominância de
casos heterossexuais e homossexuais sugere que esses são os principais modos de
transmissão, refletindo a necessidade de políticas de prevenção direcionadas a
esses grupos. Foucault (1999, p. 303) observa que “a sociedade de normalização
e uma sociedade em que se cruzam, conforme uma articulação ortogonal, a norma
da disciplina e a norma da regulamentação” (Foucault, 2008), implicando que as
estratégias de saúde pública devem equilibrar intervenções disciplinares e
regulamentadoras para abordar eficazmente a transmissão do HIV.
Em resumo, a análise
dos dados sobre HIV/AIDS no Brasil, quando interpretada através da lente da
biopolítica de Foucault (1999), revela como o controle e regulação da saúde da
população são exercidos pelo Estado. A variação na incidência da doença entre
diferentes grupos étnicos e categorias de exposição destaca a complexidade da
gestão da saúde pública e a necessidade de políticas específicas e adaptadas às
realidades sociais e comportamentais dos diversos segmentos da população. A
biopolítica, como discutida por Foucault, fornece um quadro teórico para
entender essas dinâmicas e a importância do poder estatal na promoção da saúde
e bem-estar da população.
DISCUSSÃO
Após quase quatro
décadas desde o primeiro caso notificado no Brasil em 1982, a epidemia de AIDS
permanece como um desafio significativo para a saúde pública do país. Durante
esse período, governos sucessivos implementaram diversas políticas e ações
públicas para lidar com a doença (Cazeiro; Silva;
Souza, 2021). No entanto, o Brasil ainda registra aproximadamente 40% das novas
infecções por HIV na América Latina, enquanto outros países como Argentina,
Venezuela, Colômbia, Cuba, Guatemala, México e Peru juntos respondem por 41%
dos novos casos (Leite, 2020; Dartora; Ânflor; Silveira, 2017). As taxas de detecção de casos
diagnosticados de AIDS têm mostrado um declínio desde 2013, em grande parte
devido à ampliação do acesso ao teste e à redução do intervalo entre o
diagnóstico e o início do tratamento.
A epidemia de AIDS no
Brasil teve início na região Sudeste, que representou mais de 50% dos casos até
2005, com o Estado de São Paulo apresentando um contexto epidemiológico de
maior transmissão do HIV no país. Até 1986, as demais regiões tinham menos de
100 casos notificados da doença. Concomitantemente à expansão contínua da
epidemia nos epicentros geográficos tradicionais, a disseminação da epidemia
ocorreu por todas as regiões do país, inclusive interiorizando-se, conforme
observado por (Reis, 2008; Prado; Castilho, 2009). Devido às dimensões continentais
do Brasil, as diferenças regionais desempenham um papel importante no perfil da
epidemia. Vários fatores explicam essas disparidades no padrão da epidemia
entre as regiões, incluindo a evolução da epidemia, o grau de implementação das
medidas de prevenção, o nível de conhecimento da população sobre a AIDS, a
educação, além de outros fatores socioeconômicos (Dourado, 2006).
Desse modo, os estudos
de Santos et al. (2020) ressaltam que, no período de 2010 a 2019, o
Brasil registrou um total de 338.966 casos de internações por HIV. Houve um
aumento no número de internações entre 2010 e 2013 (2,84%), seguido por um
declínio gradual de 2014 a 2019 (19,17%). A disponibilização de
antirretrovirais pelo SUS tem desempenhado um papel crucial na mudança do panorama
da doença, com redução da mortalidade, estabilização da taxa de incidência,
diminuição da transmissão vertical e alteração do perfil de causas de
internação entre os portadores de HIV, o que resulta em uma melhora
significativa na qualidade de vida dessas pessoas (Nunes et al., 2015;
Pereira et al., 2019).
Entretanto, a qualidade
de vida das pessoas vivendo com HIV/AIDS não se limita apenas ao tratamento com
antirretrovirais. O convívio social livre de estresses e fatores
desencadeadores de ansiedade e transtornos de humor também desempenha um papel
fundamental na melhoria da qualidade de vida. Quando o convívio social é
prejudicado, existe um risco maior de abandono do tratamento, o que pode
resultar em prognósticos sombrios devido ao estado infeccioso. Portanto, é
crucial reconhecer a importância dos fatores sociais e psicológicos na adesão
ou abandono do tratamento antirretroviral e no processo de reabilitação social
desses indivíduos (Calvette et al., 2017).
Destaca-se assim que, a
infecção por HIV/AIDS traz consigo diversos desafios e incertezas para o
indivíduo. Além disso, as relações interpessoais, como familiares e
profissionais, tornam-se áreas sensíveis diante das mudanças impostas pela nova
realidade, gerando sentimento de culpa, tristeza e rejeição. Portanto,
preservar a qualidade de vida considerando as influências sociais é fundamental
para a saúde física e mental desses pacientes (Dias et al., 2020;
Oliveira et al., 2015), resultando na redução das comorbidades e das
internações.
O CNAIDS é fundamental
na formulação e implementação de políticas de saúde pública relacionadas ao
HIV/AIDS no Brasil, coordenando ações de controle e prevenção da doença em
nível federal, estadual e municipal, como destacado por Nunes et al.
(2015) e Pereira et al. (2019). A disponibilização de antirretrovirais
pelo SUS, conforme evidenciado por Santos et al. (2020), é um resultado
direto das diretrizes estabelecidas pela comissão, refletindo na redução da
mortalidade e transmissão vertical do HIV. Contudo, a abordagem da qualidade de
vida vai além do tratamento médico, envolvendo questões sociais e psicológicas,
aspectos que o CNAIDS também busca abordar, segundo Calvette
et al. (2017), visando melhorar o bem-estar e reduzir as comorbidades
dos pacientes com HIV/AIDS.
Com relação a variável
sexo, Santos et al. (2020) destacam que, ao considerar essa categoria de
análise, houve um predomínio de internações no sexo masculino (63,97%; p <
0,001), com uma proporção de 1,7 homens internados para cada mulher ao longo
dos 10 anos analisados. Este achado é corroborado pelo estudo de Pereira et
al. (2019), que também identificou que 62% dos pacientes internados por
HIV/AIDS na macrorregião de Ribeirão Preto - SP eram homens, resultando em uma
razão masculino/feminino de 1,63/1,0. A feminização da infecção pelo HIV/AIDS
tem sido observada, com um aumento do número de casos em mulheres e uma
consequente diminuição na razão entre os sexos, que passou de 24:1 em 1985 para
2:1 desde 1997 (Brito; Castilho; Szwarcwald et al.,
2001). A persistente predominância de mulheres na categoria de transmissão
heterossexual, evidenciada desde 1992, reflete a maior vulnerabilidade
enfrentada pelo sexo feminino. Essa vulnerabilidade é atribuída à menor
capacidade das mulheres de negociar práticas sexuais seguras, bem como à
reduzida acessibilidade aos serviços de saúde reprodutiva (Parker; Camargo Jr,
2000; Rodrigues; Abath, 2000; Rodrigues-Júnior; Castilho, 2004).
Os estudos de Santos et
al. (2020), Pereira et al. (2019), Brito, Castilho, Szwarcwald (2001), Parker, Camargo Jr. (2000), Rodrigues,
Abath (2000), e Rodrigues-Júnior, Castilho (2004) sugerem a importância do
CNAIDS para a saúde pública, uma vez que com a discussão aqui elencada sobre os
novos casos de HIV/AIDS, conforme a variável sexo, ajudam o CNAIDS a direcionar
estratégias para reduzir as disparidades de gênero na transmissão e no acesso
aos serviços de saúde. Além disso, o monitoramento das internações por HIV/AIDS
fornece informações para ajustar políticas públicas de acordo com as necessidades
identificadas, garantindo uma abordagem mais eficaz e direcionada.
No tocante a variável
faixa etária, os resultados apresentados nos estudos de Santos et al.
(2020) destacam um número significativo de internações entre homens na faixa
etária de 30 a 39 anos (31,50%) e na cor/raça branca (37,76%) e parda (32,19%),
com diferenças estatisticamente significativas entre as variáveis (p <
0,001). Por outro lado, observa-se o maior número de notificações entre jovens
de 20 a 29 anos e da raça parda. Além disso, o estudo revelou um percentual
reduzido de internações de crianças (0 a 9 anos), representando apenas 1,55% do
total de pacientes hospitalizados, com uma taxa de mortalidade de 3,47,
indicando uma diminuição da transmissão vertical (Nunes et al., 2015).
É importante notar que
o número de internações por HIV/AIDS no Brasil é predominante nas faixas
etárias de 30 a 39 anos e 40 a 49 anos, representando 31,50% e 29,16%,
respectivamente. No entanto, a taxa de mortalidade é mais expressiva entre os
grupos etários acima de 70 anos (21,82%) e entre 60 a 69 anos (16,89%). Esse
padrão se deve aos agravos naturais associados ao envelhecimento, como o
aumento das taxas de colesterol, osteoporose e elevação da pressão arterial,
além dos efeitos colaterais potenciais dos medicamentos antirretrovirais, que
podem ser menos tolerados em pacientes mais velhos, afetando órgãos como
fígado, estômago, rins e ossos, e prejudicando a qualidade de vida desses
pacientes (Nunes et al., 2015). O aumento da mortalidade observado em
faixas etárias mais avançadas é um indicador relevante da necessidade de
políticas públicas mais eficazes para a prevenção e o cuidado do HIV no país
(Guimarães et al., 2017).
Ao longo do tempo,
observa-se uma mudança no perfil de exposição ao HIV/AIDS, com impacto
significativo na categoria de análise de exposição (Santos et al., 2002; Brito;
Castilho; Szwarcwald, 2001). Inicialmente, durante os
primeiros anos da epidemia, a maioria dos casos diagnosticados de AIDS estava
entre homens que fazem sexo com outros homens - homossexuais e bissexuais,
representando 71% dos casos em 1984. No entanto, houve uma redução nessa
proporção nos anos seguintes, atribuída à mobilização social e mudança de
comportamento em direção a práticas sexuais mais seguras, mesmo que alguns
indivíduos possam se identificar como heterossexuais devido a preconceitos.
Desde os anos 2000, essa proporção oscila entre 20% e 26% dos casos
diagnosticados no país. A transmissão heterossexual emergiu como a via de
transmissão mais significativa na epidemia, contribuindo para o aumento dos
casos entre mulheres. O aumento na proporção de casos com categoria de
exposição desconhecida dificulta a avaliação do perfil de exposição (Brito;
Castilho; Szwarcwald, 2001).
As transformações no
cenário da epidemia de AIDS no Brasil refletem uma tendência de
heterossexualização, feminização, empobrecimento, envelhecimento e
ressurgimento da transmissão entre homens que têm sexo com homens. Esta
epidemia é complexa e está entrelaçada com questões socioeconômicas,
enfrentando estigma, discriminação e conservadorismo, resultando em diferentes
percepções do processo saúde-doença entre os grupos afetados. Nesse sentido,
são necessárias políticas que abordem a prevenção do HIV de forma específica
para cada grupo, com foco especial nas populações-chave em relação ao HIV. Isso
inclui estratégias descentralizadas de prevenção, testagem oportuna, início
imediato de tratamento, promoção da adesão ao tratamento, além de profilaxias pré e pós-exposição e promoção do uso contínuo de
preservativos (Leite, 2020).
A epidemia de AIDS no
Brasil teve origem entre as classes média e alta, com o vírus do HIV
introduzido por pessoas que entraram em contato com a doença nos Estados Unidos
durante viagens, antes de se disseminar entre as populações socioeconomicamente
desfavorecidas. Isso resultou em uma inversão do perfil epidemiológico dos
infectados, com uma predominância atual de pessoas pardas, refletindo o grande
número de casos entre essa raça. Essa mudança não se deve a predisposições
genéticas, mas sim a fatores sociais e econômicos, já que a população parda é
majoritária nos estratos sociais mais pobres e enfrenta dificuldades de acesso
a insumos como preservativos (Costa et al., 2017).
Por outro lado, o
elevado número de casos entre a população parda também pode ser atribuído à
discriminação racial enfrentada no Sistema Único de Saúde (SUS), o que
dificulta o acesso aos serviços de saúde e viola o princípio da equidade. Essa
discriminação pode se manifestar de maneira velada, levando os profissionais de
saúde a subestimar as queixas dos pacientes ou a utilizar expressões
depreciativas, o que prejudica o estabelecimento de um vínculo adequado com o
sistema de saúde e dificulta o acesso a informações cruciais para a prevenção da
AIDS (Silva, Lima, 2021).
A falta de casos
relatados entre a população amarela e indígena indica uma subnotificação
significativa de casos de AIDS. No caso dos indígenas, essa subnotificação pode
ser atribuída ao descaso em relação à saúde desses grupos, resultando em
diagnósticos tardios em estágios avançados da doença e acesso insuficiente aos
medicamentos antirretrovirais, o que contribui para o aumento das taxas de
mortalidade não notificada. Consequentemente, houve poucos casos notificados de
AIDS entre os indígenas de 2013 a 2022, destacando a fragilidade dos serviços
de saúde indígena, especialmente em regiões como o Norte, onde o diagnóstico da
doença entre esses grupos é inconsistente e pouco confiável, mesmo após
períodos de aumento de casos em anos anteriores (Graeff
et al., 2021).
No que diz respeito à
importância da atuação da CNAIDS no cenário brasileiro, três Portarias
Ministeriais são destacadas neste período, sendo publicadas em 1986 (Portaria
199), 1987 (Portaria 101) e 1988 (Portaria 437). Desde o seu estabelecimento,
as atribuições da CNAIDS são definidas como um órgão consultivo do Ministério
da Saúde, e há interessantes nuances nas redações que refletem o estágio da
epidemia e a busca por orientações por parte do Programa Nacional de Imunizações.
Na primeira portaria, a Comissão de Assessoramento em Aids mantém uma relação
simbiótica com o Programa Nacional, incumbindo-se de assessorar o Ministério em
todos os aspectos relacionados ao controle da síndrome de imunodeficiência
adquirida; acompanhar a implementação e a avaliação das ações, bem como o
progresso das pesquisas internacionais (Brasil, 2003).
Ao
CNAIDS também fica a responsabilidade de assessorar na definição de mecanismos
técnico-operacionais; na avaliação de desempenho dos componentes da ação e na
coordenação da produção de documentos técnicos e científicos. Para finalizar
esta discussão, ressaltamos que a luta contra a aids no Brasil criou bases para
um novo tipo de relação entre o estado e a sociedade, já que desde o início do
estabelecimento das ações governamentais para o enfrentamento da epidemia esta
relação estado e sociedade esteve presente. As primeiras iniciativas
governamentais que se propuseram a enfrentar a epidemia da aids nasceram como
resposta à pressão social de ativistas de São Paulo. Essa característica de
formulação e definição de estratégias de prevenção e assistência, em parceria
com a sociedade civil e a comunidade científica faz parte da história da aids
no Brasil (Brasil, 2003).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo
procurou analisar a frequência de casos confirmados de HIV/AIDS no Brasil
durante o período de 2019 a 2022, análise essa que, atrelada ao método ex-post-facto, destacou/evidenciou o impacto significativo
nos aumentos de casos da infecção com o desmantelamento da CNAIDS. Ao
contextualizar os dados obtidos através das lentes teóricas da biopolítica de
Michel Foucault (1999) e da necropolítica de Achille Mbembe (2018),
procurou-se demonstrar como as mudanças nas políticas públicas influenciaram a
saúde da população e contribuíram para a vulnerabilidade de grupos específicos.
Desde sua criação
em 1986, a CNAIDS passou por várias reformulações em suas competências,
composição e denominação (Brasil, 1986, 1987, 1988, 1992, 1994, 1996, 2000a,
2000b, 2003, 2004, 2005, 2011). De 2007 a 2019, a Comissão foi balizada por
três Portarias: a) GM/MS nº 1.119, de 08/06/2004 (Brasil, 2004); b) SVS/MS nº
43, de 28/05/2005 (Brasil, 2005); e c) SVS/MS nº 226, de 04/08/2011 (Brasil,
2011). A Portaria GM/MS nº 1.119/2004 foi fundamental por instituir e
estabelecer as regras de funcionamento da CNAIDS, definindo seu caráter
consultivo e sua finalidade de assessoramento ao Ministério da Saúde na
formulação da política de prevenção, controle e assistência às DST/HIV/aids.
Para compreender
melhor a CNAIDS no período estudado, é importante destacar os aspectos
históricos acerca da Comissão e do DHIVA, também condutor da CNAIDS. De 2007 a
2019, a CNAIDS contou com cinco coordenadores: Mariângela Batista Galvão
(2007-2010), Dirceu Bartolomeu Greco (2010-2013), Fábio Mesquita (2014-2016),
Adele Schwartz Benzaken (2016-2018) e Gerson Fernando
Mendes Pereira (2019), quando a CNAIDS foi extinta pelo Decreto Nº 9.759
(BRASIL, 2019).
As tensões e
agendas políticas durante o mandato de JMB tiveram uma influência considerável
na configuração das políticas de saúde pública. A administração JMB foi marcada
por um direcionamento ideológico que frequentemente negligenciou áreas cruciais
de saúde, resultando em um desmonte sistemático de estruturas estabelecidas
como a CNAIDS, objeto do presente estudo. Esse desmantelamento refletiu um
alinhamento com práticas necropolíticas, conforme
conceituado por Mbembe (2018), na qual a gestão
política decide quem pode viver e quem deve morrer. No contexto da saúde
pública, essa prática se manifesta na redução do acesso a serviços de
prevenção, diagnóstico e tratamento, exacerbando a mortalidade entre populações
vulneráveis.
O conceito foucaultiano de “fazer viver ou deixar morrer” (Foucault,
1999, p. 285) é fundamental para a compreensão da racionalidade de poder que
opera na gestão da vida e da morte no interior do Estado moderno. Conforme
argumenta Foucault (1999), a biopolítica emerge como uma tecnologia de poder
voltada à administração da vida das populações, atuando sobre taxas de
natalidade, mortalidade e morbidade, com o objetivo de otimizar os corpos vivos
em nome da produtividade e do controle social. No entanto, durante o mandato de
JMB, observou-se uma inversão perversa dessa lógica: a descontinuidade
deliberada de políticas públicas de saúde, como aquelas coordenadas pela
CNAIDS, operou não pela maximização da vida, mas pela sua negligência
sistemática. A ausência de mecanismos reguladores eficazes e o desmantelamento
de estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV/AIDS evidenciam,
portanto, uma política que recusa o “fazer viver” em favor da gestão da morte –
o “fazer morrer” –, conceito que Foucault (1999, p. 291) associa a uma morte
silenciosa, infiltrada na vida cotidiana, que a corrói, enfraquece e extingue
progressivamente.
Dessa forma,
reafirma-se neste trabalho a tese de que as práticas políticas do
governo JMB não apenas configuram um desvio da biopolítica, mas inscrevem-se
plenamente no campo da necropolítica, conforme
teorizado por Mbembe (2018), ao instituir uma
soberania que decide quais vidas merecem ser protegidas e quais podem ser
descartadas. Trata-se de uma gestão seletiva da morte, cuja consequência é a vulnerabilização radical de populações historicamente
marginalizadas – como os usuários que dependem da CNAIDS para garantir o acesso
a direitos fundamentais como prevenção, tratamento e dignidade. Ao desarticular
as estruturas de cuidado e assistência, o Estado assume o papel de agente da
exclusão letal, operando um biopoder degenerado em necropoder, cujos efeitos, embora sutis em sua execução,
são devastadores em sua materialidade: a persistência da epidemia como forma de
genocídio silencioso.
Conforme dito
acima, a precarização do acesso a serviços de saúde, evidenciada pela análise
dos dados, mostrou como a instrumentalização da existência humana e a
destruição material de corpos humanos, discutida por Mbembe
(2018, p. 10), se manifestaram no Brasil durante o governo de JMB. A gestão
inadequada da saúde pública refletiu uma forma de necropolítica,
onde o poder decide sobre a vida e a morte de forma seletiva, resultando em um
aumento das desigualdades e vulnerabilidades.
Os dados deste
estudo revelaram que a população parda apresentou o maior número de casos
confirmados de HIV/AIDS em todas as categorias de exposição ao longo dos anos. Mbembe (2018, p. 14) destaca que “na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição da
morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado.” A desproporcional
incidência de HIV/AIDS entre populações marginalizadas racialmente no Brasil
evidencia como as políticas públicas podem reforçar desigualdades estruturais,
contribuindo para a manutenção de um estado de exceção permanente, onde grupos
específicos são sistematicamente negligenciados.
A análise das
variações nos casos de HIV/AIDS por categoria de exposição e etnia demonstrou a
importância de intervenções específicas e sensíveis às realidades de cada
grupo. Foucault (1999, p. 293) argumenta que “nos mecanismos implantados pela
biopolítica, vai se tratar sobretudo, e claro, de previsões, de estimativas
estatísticas, de medições globais.” A alta frequência de casos ignorados indica
a necessidade de aprimoramento nos métodos de coleta e análise de dados para
garantir uma compreensão completa da epidemia.
Finalmente, este
estudo buscou enquadrar essas análises micro no contexto das tensões e agendas
políticas macro, destacando como a gestão de JMB influenciou os vieses necropolíticos e a dinâmica do biopoder.
A continuidade deste estudo se mostra essencial para compreender melhor as
dinâmicas de poder que influenciam a saúde pública no Brasil. Desse modo, é
imperativo reconhecer a importância de políticas de saúde pública robustas e
inclusivas para enfrentar eficazmente epidemias como o HIV/AIDS, garantindo que
todos os indivíduos tenham acesso aos cuidados necessários para viver com
dignidade e saúde.
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[44] Mestrando em
Letras (área de concentração em Estudos do Discurso e do
Texto) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte (PPGL/UERN); Pesquisador no Grupo de Estudo do
Discurso da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (GEDUERN). E-mail: adrianomenino2016@gmail.com
[45] Mestre em Práticas de Saúde e
Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde e Sociedade da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (PPGSES/UFRN).
[46] Mestre em Saúde da Criança e do
Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Professora
auxiliar em Medicina de Família e Comunidade na Escola Multicampi
de Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMCM/UFRN).
Membro do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas em Desastres (NUPED/UFRN).
[47] Doutorando
em Ciências da Educação na Facultad Interamericana de
Ciências Sociales na Argentina (IUNES); Professor e
coordenador do internato em Saúde Mental do Curso de Medicina do Centro
Universitário (UNIFIP); Professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Escola Multicampi de Ciências Médicas da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte (EMCM/UFRN).