Recebido em: 06/03/2025

Aprovado em: 02/04/2025

Publicado em: 18/07/2025

 

A NATUREZA PEDAGÓGICA DAS RELAÇÕES HEGEMÔNICAS EM GRAMSCI

 

THE PEDAGOGICAL NATURE OF HEGEMONIC RELATIONSHIPS IN GRAMSCI

 

LA PEDAGOGIA NATURO DE HEGEMONIAJ RILATOJ EN GRAMSCI

 

Stieven Nascimento[26]

 

Resumo

O presente texto propõe uma análise da natureza pedagógica das relações hegemônicas, com base nas ideias de Antônio Gramsci, em especial a partir da contribuição de Carlos Nelson Coutinho, principal difusor do pensamento gramsciano no Brasil. Destaca-se a obra “Educação e Hegemonia no Pensamento de Gramsci”, que explora a relação entre educação, política e hegemonia. Gramsci, intelectual italiano que se destacou no cenário político do início do século XX, desenvolveu uma teoria na qual a dominação não ocorre apenas pela força, mas também por meio do consenso cultural, em que as classes subalternas assimilam os valores da classe dominante. Sua teorização sobre educação e o conceito de intelectual revela um caráter profundamente pedagógico e político, atribuindo à sociedade civil e à sociedade política um papel central na construção da hegemonia. Para Gramsci, a busca por um consenso coletivo e a conscientização das massas são fundamentais para a formação de uma nova hegemonia. Nesse processo, o intelectual desempenha um papel crucial, atuando como mediador entre teoria e prática, e contribuindo para a transformação social. Assim, a natureza pedagógica do conceito de hegemonia se revela como um elemento essencial para compreender a dinâmica das relações de poder na sociedade.

Palavras-chave: Educação. Natureza. Intelectual. Hegemonia.

Abstract

This text proposes an analysis of the pedagogical nature of hegemonic relations, based on the ideas of Antonio Gramsci, particularly through the contributions of Carlos Nelson Coutinho, the foremost disseminator of Gramscian thought in Brazil. The work “Education and Hegemony in Gramsci’s Thought” is highlighted, as it explores the relationship between education, politics, and hegemony. Gramsci, an Italian intellectual who rose to prominence in the political landscape of the early 20th century, developed a theory in which domination occurs not only through force but also through cultural consensus, whereby subaltern classes assimilate the values of the dominant class. His theorization on education and the concept of the intellectual reveals a deeply pedagogical and political character, attributing a central role to civil society and political society in the construction of hegemony. For Gramsci, the pursuit of collective consensus and the conscientization of the masses are fundamental to the formation of a new hegemony. In this process, the intellectual plays a crucial role, acting as a mediator between theory and practice and contributing to social transformation. Thus, the pedagogical nature of the concept of hegemony emerges as an essential element for understanding the dynamics of power relations in society.

Keywords: Education. Nature. Intellectual. Hegemony.

 

Resumo

Ĉi tiu teksto proponas analizon de la pedagogia naturo de hegemoniecaj rilatoj, bazitan sur la ideoj de Antonio Gramsci, precipe per la kontribuoj de Carlos Nelson Coutinho, la ĉefa disvastiganto de gramsciana pensado en Brazilo. Emfazatas la verko “Edukado kaj Hegemonio en la Pensado de Gramsci”, kiu esploras la rilaton inter edukado, politiko kaj hegemonio. Gramsci, itala intelektulo kiu elstaris en la politika scenaro de la frua 20-a jarcento, disvolvis teorion en kiu regado okazas ne nur perforte, sed ankaŭ per kultura konsento, per kio subalternaj klasoj asimilas la valorojn de la reganta klaso. Lia teorio pri edukado kaj la koncepto de la intelektulo malkaŝas profunde pedagogian kaj politikan karakteron, atribuante centran rolon al civita socio kaj politika socio en la konstruado de hegemonio. Laŭ Gramsci, la serĉado de kolektiva konsento kaj la konsciigado de la amasoj estas fundamentaj por la formado de nova hegemonio. En ĉi tiu procezo, la intelektulo ludas esencan rolon, agante kiel mediacianto inter teorio kaj praktiko kaj kontribuante al socia transformo. Tiel, la pedagogia naturo de la koncepto de hegemonio montriĝas kiel esenca elemento por kompreni la dinamikon de potencrilatoj en socio.

Ŝlosilvortoj: Edukado. Naturo. Intelektulo. Hegemonio.

 

INTRODUÇÃO

Antônio Gramsci (1891-1937), nasceu em 22 de janeiro de 1891, em Ales, na Sardenha, Itália. Era filho de Francesco Gramsci e Giuseppina Marcias, oriundo de uma família humilde enfrentou dificuldades financeiras na juventude. Apesar disso, conseguiu estudar na Universidade de Turim, onde se envolveu com o socialismo e o ativismo político. Durante seus estudos, Gramsci tornou-se próximo do Partido Socialista Italiano (PSI) e se destacou como um líder juvenil. Ele foi editor do jornal do PSI, "L'Ordine Nuovo", onde promoveu a ideia de uma revolução social com base em uma ampla mobilização de trabalhadores e camponeses. Em 1921, Gramsci participou da fundação do Partido Comunista Italiano (PCI). Ele defendia a necessidade de uma abordagem específica para a realidade italiana.

Em 1926, após o estabelecimento do regime fascista de Benito Mussolini, Gramsci foi preso. Durante sua detenção, ele escreveu uma série de cartas e notas, conhecida como "Cartas do Cárcere", onde desenvolveu suas ideias sobre educação, cultura, política e outros elementos, acerca do papel dos intelectuais na sociedade.

O cérebro de Gramsci não deixou de funcionar no cárcere; ao contrário, pouco depois de seu aprisionamento, começou a projetar uma série de estudos que se tornaram naquilo que hoje é considerada a análise mais importante e jamais realizada sobre “hegemonia”, isto é, o nexo entre a política e a educação. (Monasta, 2010. p, 16)

 

Sua contribuição à filosofia mais conhecida é a teoria da hegemonia, ampliando a ideia marxista de dominação de classe[27] através do conceito de hegemonia. A hegemonia envolve a aceitação da cultura e dos valores da classe dominante pelas classes subalternas. Essa ideia foi uma inovação significante, pois reconhece que a dominação não é apenas exercida de maneira coercitiva, mas também através de consenso e aceitação.

A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de “hegemonias” políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da polí­tica, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada for­ça hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam (Gramsci, 1999. p, 103)

 

 Desta ideia central de hegemonia e dominação, influem a consciência. A consciência de si mesmo e do mundo não é algo estático, mas resulta de um processo dinâmico de conflitos políticos, éticos e ideológicos. Gramsci argumenta que as classes dominantes mantêm o controle não apenas pela força, mas também pela manipulação de ideologias e valores culturais. Essa análise aponta para a necessidade de construir uma nova hegemonia, capaz de promover uma mudança social que envolva a classe trabalhadora.

Um dos pilares para a mudança, é a defesa gramsciana a concepção de educação voltada para a emancipação da classe trabalhadora, em oposição ao modelo liberal que segmentava a escola conforme a origem social dos alunos. Sua proposta de escola unitária tinha como a ideia geral se contrapõe à divisão tradicional entre ensino propedêutico, voltado às elites, e ensino técnico direcionado à classe trabalhadora. Se inicia pela forma de pensar, o italiano foi profundamente influenciado por Marx, especialmente pela ideia de luta de classes e pela crítica ao capitalismo. No entanto, ele reinterpretou o marxismo, afastando-se de determinismos econômicos[28] e enfatizando o papel da cultura, da ideologia e da subjetividade na manutenção deste poder.

 

A inovação fundamental introduzida pela filosofia da práxis na ciência da política e da história é a demonstração de que não existe uma natureza humana abstrata, fixa e imutável (...). Portanto a ciência política deve ser concebida, em seu conteúdo concreto (e também em sua formulação lógica), como um organismo em desenvolvimento";" ou seja, do mesmo modo como Marx concebeu a economia política. (Coutinho, 1989. p. 54)

 

Gramsci aborda um problema central na filosofia e na teoria política: a filosofia da práxis, que consiste em uma releitura do marxismo. Dessa releitura, destaca-se a ideia de que o ser humano é um produto histórico e social, cuja 'natureza' é moldada pelas condições materiais e pelas relações de poder[29] (Coutinho, 1989). Das relações de poder há a manutenção da unidade ideológica em um bloco social coeso por uma determinada concepção de mundo.

 

Mas, nesse ponto, coloca-se o problema fundamental de toda concepção do mundo, de toda filosofia que se transformou em um movimento cultural, em uma “religião”, em uma “fé”, ou seja, que produziu uma atividade prática e uma vontade nas quais ela esteja contida como “premissa” teórica implícita (uma “ideologia”, pode-se dizer, desde que se dê ao termo “ideologia” o significado mais alto de uma concepção do mundo, que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas) — isto é, o problema de conservar a unidade ideológica em todo o bloco social que está cimentado e unificado justamente por aquela determinada ideologia (Gramsci, 1999. p, 98-99).

 

Gramsci enfatiza que, quando uma filosofia se converte em um movimento cultural, uma 'religião' ou uma 'fé', ela passa a orientar não apenas o pensamento, mas também a prática social. Essa influência se estende a diversas esferas, como a arte, o direito, a economia e outras manifestações da vida coletiva e individual, com especial ênfase na educação. De modo a ideologia não é apenas um conjunto de ideias abstratas, mas uma força material que molda a realidade social, desta realidade é preciso moldar um novo tipo de intelectual, “É este o intelectual que, participando ativamente da vida prática, tem condições para elevar a técnica-trabalho à técnica-ciência, eliminando a causa das lutas de classe”. (Coutinho, 1999. p, 72) O intelectual no contexto da relação entre teoria e prática, e da superação das lutas de classe.

Na escrita de “Os Intelectuais e a Organização da Cultura” Gramsci (1982) infere que a educação tinha um papel crucial na formação da consciência política e social das classes populares, a pretensão de Gramsci é que sua finalidade seja contra hegemônica. Ele via a educação como um meio de batalha ideológica, onde a conscientização e a formação crítica poderiam desafiar a hegemonia cultural imposta pelas classes dominantes. Dessa forma, o objetivo deste artigo é apresentar a conceituação de Antonio Gramsci, a educação sendo um conceito central e multifacetado, profundamente ligado às suas ideias sobre hegemonia, luta de classes e transformação social. A educação em Gramsci não se limita ao ensino formal, mas abrange todos os processos de formação intelectual e moral.

 

A natureza pedagógica das relações hegemônicas confirma-se ainda, teoricamente, pelo próprio significado de hegemonia desenvolvido por Gramsci, que é direção (intelectual e moral) e dominação exercida por uma classe social sobre todas as outras por intermédio da sociedade civil e da sociedade política. Também na prática, esta natureza pedagógica torna-se evidente pelas ações necessárias à implantação e conservação da hegemonia (Coutinho, 1999. p, 72).

 

Por isso, a natureza pedagógica das relações hegemônicas em Gramsci, revelam a continuidade de uma educação hegemônica, mas também as fissuras para uma educação contra hegemônicas[30] em que subvertem o sentido da dominação cultural e ideológica, logo, o tipo de intelectual, mostram as nuances políticas e pedagógicas e sobre as atribuições para o tipo de educação.O papel que a “educação” desempenha tanto na “hegemonia”, como na contra hegemonia, visa as relações sociais, que incluem o homem, cujo objetivo é modificar ou manter uma estrutura social” (Coutinho, 1989. p, 43). O conceito de hegemonia, por sua vez, implica na construção de um consenso entre as massas, o que demanda uma educação que não apenas transfira conhecimento, mas que também promova uma cultura de crítica e participação ativa na sociedade, o alcance de uma sociedade unitária e um ensino unitário, as lutas por transformações pedagógicas e sociais deveriam ocorrer simultaneamente.

As transformações pedagógicas, partem do entendimento gramsciano de como a sociedade civil e política no seu funcionamento se fundaram e se perpetuam, em estrutura e superestrutura. 

 

A sociedade civil é portadora, desde o nível molecular mais simples aos complexos e sofisticados arranjos sociais, da hegemonia. A comunicação entre os sujeitos, a reflexão, a persuasão, o convencimento, a luta de ideias, a educação, a cultura, a ideologia, os sindicatos, as associações, as ONG's (Organizações Não-Governamentais), as religiões, as escolas etc., são meios e continentes de hegemonia. As instituições da sociedade civil comportam um conjunto de instrumentos e símbolos capazes de interferir na direção da sociedade nacional (Nosella; Azevedo, 2012. p, 31).

 

            A transformação social e pedagógica exige não apenas a conquista do Estado, mas também a construção de uma nova hegemonia na sociedade civil, o envolvimento da formação de intelectuais orgânicos, a educação crítica e a mobilização das classes subalternas.

 

 

O INTELECTUAL, EDUCAÇÃO, SOCIEDADE CIVIL E POLÍTICA          

Na escrita de “Os Intelectuais e a Organização da Cultura”[31] de Gramsci, os intelectuais têm um papel fundamental na definição de formação e sociedade civil e política, pois estão inseridos nas mediações entre classes sociais e o estado[32], e estão na definição do que é a estrutura e superestrutura, por Gramsci constituem o papel de cada intelectual, e por efeito mostra a base de uma hegemonia, como

Poder-se-ia medir a "organicidade" dos diversos estratos intelectuais, sua mais ou menos estreita conexão com um grupo social fundamental, fixando uma gradação das funções e das superestruturas de baixo para cima (da base estrutural para cima). Por enquanto, pode-se fixar dois grandes "planos" superestruturais: o que pode ser chamado de "sociedade civil" (isto é; o conjunto de organismos chamados comumente de "privados") e o da "sociedade política ou Estado", que correspondem à função de "hegemonia" que o grupo dominante exerce em toda a. sociedade e àquela de domínio direto" ou de comando, que se expressa no Estado e no governo "jurídico" (Gramsci, 1982. p, 10).

 

Cada relação ou cada grupos sociais tem correlação com a maneira de produção econômica, mas sobretudo mante-se a hegemonia cultural a profundidade e relevância da estrutura social criada prossegue a lógica capitalista, o que resta ao proletariado está na argumentação de que para desafiar a hegemonia burguesa e construir uma nova ordem social, a classe trabalhadora também precisa criar seus próprios intelectuais orgânicos. Nos Cadernos do cárcere, estão as observações sobre uma formação de consciência crítica aos que desempenham uma a função de intelectual, podem influir ao caráter desta consciência, a uma atividade crítica.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente — já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma determinada concepção do mundo — , passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na “atividade intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade? (Gramsci, 1999. p, 93).

 

A reflexão sobre a importância de assumir uma postura ativa e crítica diante da vida e do mundo, em vez de se contentar com ideias e valores herdados ou imposto, essa é uma das tarefas fundamentais da filosofia, questionar, refletir e buscar uma compreensão mais profunda e autêntica da realidade, mas para aqueles são intelectuais e influem na conscientização de outras pessoas, é o caso dos educadores uma atividade critica a realidade, influem no caráter educativo da consciência

Para Gramsci (1982) caracteriza dois tipos gerais de intelectuais, definidos por intelectuais tradicionais e orgânico. Mas sobretudo, os que desempenhas as funções de intelectuais podem interver na formação da consciência e da cultura, independentemente de seu contexto, podem ser considerados intelectuais. Segundo o italiano; “Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. (Gramsci, 1982. p, 06) A capacidade intelectual é universal, mas sua função social é determinada pelas relações de poder e pelas estruturas da sociedade.

Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas especialmente em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante (Gramsci, 1982. p, 08).

 

Os intelectuais tradicionais, na concepção de Gramsci (1982), referem-se a aqueles que frequentemente estão ligados a instituições já estabelecidas, como universidades, igrejas ou organizações culturais, e que exercem um papel definido na manutenção da ordem social e cultural existente. Esses intelectuais são vistos como defensores do status quo, pois sua formação e atuação estão geralmente alinhadas com os interesses das classes dominantes, mas a assimilação dos intelectuais tradicionais é mais eficaz quando o grupo em questão também elabora seus próprios intelectuais orgânicos. Esses são os intelectuais que emergem diretamente da classe ou grupo social e estão organicamente ligados a seus interesses e valores. “Na sociedade capitalista, a solução dos problemas diretivos e consensuais é tentada através de agentes e instituições pedagógicas como a escola e os intelectuais, igualmente importantes, porque mascaram as contradições e reforçam a hegemonia da classe dominante” (Coutinho, 1989. p, 60). Citando caso, a burguesia do XIII e XVIII, ao ascender ao poder durante a transição do feudalismo para o capitalismo, não apenas assimilou intelectuais tradicionais, como clérigos e filósofos, mas também criou seus próprios intelectuais orgânicos, economistas, cientistas, políticos e educadores para consolidar sua hegemonia.

De modo, há uma dualidade entre os intelectuais que refletem a concepção de dominador e dominado. Logo, os intelectuais tradicionais frequentemente reforçam estruturas de poder existentes e reproduzem hierarquias sociais, os intelectuais orgânicos são vistos como potenciais agentes de mudança que podem ajudar a superar as desigualdades sistêmicas.[33] Segundo Coutinho (1982. p, 61) O intelectual não se constitui em classe propriamente dita, mas em grupos vinculados às diferentes classes. Daí porque "orgânico” significa vinculação não somente à classe dominante, reacionária, mas também à classe dominada, ao proletariado. Os intelectuais não constituem uma classe social por si só. Em vez disso, eles são grupos vinculados a classes sociais específicas, ou seja, os intelectuais não têm interesses próprios separados das classes às quais estão ligados, e sua função e orientação ideológica dependem da classe que representam ou servem.

Gramsci define o intelectual por sua função e não por um aparato de intelectualidade, ou por características de Classe, sendo, portanto, mais importante para ele a função do intelectual do que ser intelectual, ou seja, a categoria intelectualidade (Coutinho, 1989. p, 63).

 

O intelectual é definido pela função que desempenha na sociedade, significando que qualquer pessoa que exerça uma função organizativa, educativa ou de direção cultural pode ser considerada um intelectual, independentemente de sua posição social ou formação. Segundo Pasquale Voza, em sua interpretação presente no Dicionário Gramsciano, as categorias preexistentes são moldadas por intelectuais que construíram um caráter de hegemonia ideológica. Essas categorias foram formadas ao longo da história e são transmitidas de geração em geração, muitas vezes sem questionamento.

Para G. trata-se de intelectuais como “categoria orgânica”, da qual o próprio empresário moderno, essencialmente, faz parte, na medida em que deve ter certa capacidade técnica, que vai além do campo econômico em sentido estrito, estendendo-se também “a outros campos, pelo menos aos mais próximos da produção econômica”. Mas todo grupo social, ao emergir da história da estrutura econômica, encontra ou encontrou (pelo menos – esclarece G. – na história que se desenvolveu até então), “categorias intelectuais preexistentes”, as quais se apresentam como figuras de uma continuidade histórica ininterrupta, não posta em discussão nem pelas mais complexas mudanças sociais e políticas (Voza, 2017. p, 584).

 

A ilusão da continuidade histórica ininterrupta cria uma impressão de que elas são eternas, universais e imutáveis, mesmo quando o mundo ao redor delas mudam radicalmente. Esta crítica[34] é fundamental para evitar que ideias ultrapassadas ou opressivas continuem a moldar o pensamento e a ação humana, mesmo diante de mudanças sociais e políticas significativas.

 

Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica (Gramsci. 1999, p. 94).

 

Para avançamos ao sentido pedagógico e educativo em que o processo histórico constituiu, a crítica de Gramsci da distinção dos tipos de trabalho, é meramente ideológico. Monasta (2010) coloca a finalidade e configuração. “Pois, é necessário denunciar o caráter ideológico da dualidade entre o ensino clássico e o ensino técnico que reflete a divisão social entre o trabalho intelectual e o trabalho manual”. Para que todos os indivíduos tenham a oportunidade de desenvolver suas capacidades de forma plena e consciente, o ponto de partida para uma elaboração crítica que nos permite romper com a passividade e agir de forma autônoma e transformadora, estão no tipo de educação[35] que é abstraída. A educação tem um papel crucial na desconstrução das categorias intelectuais preexistentes. Ela deve promover uma formação crítica que permita aos indivíduos compreenderem como essas categorias foram construídas e como elas influenciam suas vidas.

A crítica à distinção tradicional entre o “trabalho manual” e o “trabalho intelectual” é um dos elementos mais importantes para a elaboração de uma nova teoria da educação. Segundo Gramsci, essa distinção é ideológica, na medida em que desvia a atenção das funções reais, no interior da vida social e produtiva, para os “aspectos técnicos” do trabalho. Em qualquer trabalho físico, até mesmo no mais degradante e mecânico, existe um mínimo de atividade intelectual (Monasta, 2010. p, 21).

 

O trabalho manual e intelectual é uma reflexão profunda sobre como as categorias sociais são construídas e utilizadas para manter desigualdades. Ao mostrar que todo trabalho envolve atividade intelectual, Gramsci desafia as hierarquias tradicionais e propõe uma visão mais integrada e democrática do trabalho e da educação. Segundo o italiano.

 

A crise terá uma solução que, racionalmente, deveria seguir esta linha: escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimemente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual (Gramsci, 1982. p, 118).

A escola única inicial de cultura geral representa tanto uma resposta à crise educacional e social de seu tempo quanto uma visão inspiradora para o futuro. Ao defender uma educação que equilibre trabalho manual e intelectual e promova uma formação humanista e crítica, Gramsci aponta para a construção de uma sociedade mais justa. Nela, todos os indivíduos teriam a oportunidade de desenvolver plenamente suas capacidades e participar ativamente da vida social e produtiva

 

A Escola unitária ou de formação humanista (entendido este termo, "humanismo", em sentido amplo e não apenas em sentido tradicional) ou de cultura geral deveria se propor a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de te-los levado a um certo grau de maturidade e capacidade, à criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa (Gramsci, 1982. p, 121).

 

A escola, assim, é vista como um espaço onde se formar cidadãos capazes de interagir de forma consciente e ativa com a sociedade, o que implica em uma educação que valoriza tanto a dimensão intelectual quanto a prática, mas também a importância da educação para o desenvolvimento integral do indivíduo[36], propondo a participação ativa na sociedade. Gramsci defende que a escola unitária ou de formação humanista deve preparar os o indivíduo não apenas para entender o mundo, mas para agir sobre ele, desenvolver-se.

 

FUNÇÕES DA EDUCAÇÃO: INTELECTUAL, POLÍTICA E PEDAGÓGICA EM DIÁLOGO

A preparação dos indivíduos, a função do intelectual no pensamento de Gramsci, acontecem duas funções o que é estreito, a política e o que é pedagógico. O partido e a escola, tem função coletiva e estão ligados pela função educativa que ambos desempenham. Enquanto o partido atua no campo da luta política, a escola atua no campo da formação cultural e intelectual. E destas duas naturezas se influem a reforma intelectual e moral para se obter processo coletivo e histórico, que envolve a ação de diferentes instituições e atores sociais, mas ele pensou através do partido a forma de um intelectual coletiva arreataria em mecanismo da função educativa aos subalternos. “O estudo da natureza e função do partido, sendo a melhor maneira de se conhecer a função do intelectual, é também um meio de se evidenciar a natureza hegemônica das relações pedagógicas e vice-versa” (Coutinho, 1989. p, 75). A reforma intelectual e moral está intimamente ligada à formação de uma vontade coletiva, ou seja, à capacidade de um grupo ou classe social de agir de forma unida e coordenada em direção a um objetivo comum, epistemologicamente. Mas também ontologicamente a condição histórica da Itália[37] desde a inserção da Itália na economia mundial até análises regionais e locais, para a formação dos Intelectuais Italianos[38].

 

O partido é essencialmente político, e mesmo sua atividade cultural é atividade de política cultural; as "instituições" culturais devem ser não apenas de "política cultural", mas de "técnica cultural". Exemplo: num partido existem analfabetos, e a política cultural do partido é a luta contra o analfabetismo (Gramsci, 1982. p,166.).

 

A visão gramsciana da escola ressalta sua função como agente de mudança cultural, onde a educação se integra em uma luta mais ampla por liberdade e justiça social, destacando a importância de uma educação que enfrente as tradições limitantes e abra espaço para novas formas de entendimento e organização do conhecimento, a disfunção da aprendizagem está na inferência prática em que a educação integra a vida. “o primeiro momento de sua vida, educa-se a criança para que se “conforme” ao seu entorno, e a escola nada mais é que uma pequena “fração” de sua vida” (Monasta, 2010. p, 26). se a educação está intrinsecamente ligada à formação das crianças como indivíduos críticos e conscientes de sua realidade social. Ao focar na superação de concepções folclóricas e tradicionais, a escola não apenas educa, mas também molda a forma como as crianças percebem e interagem com o mundo ao seu redor “A educação é sempre uma luta contra os instintos relacionados às funções biológicas básicas, uma luta contra a natureza, para dominá-la e criar o ser humano “verdadeiro”( Monasta, 2010 p, 26).

A escola, mediante o que ensina, luta contra o folclore, contra todas as sedimentações tradicionais de concepções do mundo, a fim de difundir uma concepção mais moderna, cujos elementos primitivos e fundamentais são dados pela aprendizagem da existência de leis naturais como algo objetivo e rebelde, às quais é preciso adaptar-se para dominó-las, bem como de leis civis e estatais que são produto de uma atividade humana estabelecidas pelo homem e podem ser por ele modificadas visando a seu desenvolvimento coletivo; a lei civil e estatal organiza os homens do modo historicamente mais adequado à dominação das leis da natureza, isto é, a tornar mais fácil o seu trabalho, que é a forma própria através da qual o homem participa ativamente na vida da natureza, visando transformá-la e socializá-la cada vez mais profunda e extensamente (Gramsci, 1982. p, 130).

 

O papel da escola como uma instituição que atua na superação do folclore e das concepções tradicionais de mundo, promovendo uma visão mais moderna e científica da realidade.

As noções científicas entravam em luta com a concepção mágica do mundo e da natureza, que a criança absorve do ambiente impregnado de folclore, do mesmo modo como as noções dos direitos e deveres entram em luta com as tendências à barbárie individualista e localista, que é também um aspecto do folclore (Monasta, 2010. p, 115).

 

 Uma concepção de mundo baseada no entendimento das leis naturais e das leis civis e estatais, se o entendimento partir da noção hegemônica que está exposta, a escola seria capaz de desenvolver para o partido possíveis intelectuais coletivos, ou os partidos ligados ao stricto político colaboraram de certa forma uma função pedagógica contra hegemônica. Finalmente, o partido, por este seu aspecto pedagógico, enfrenta, em suas atividades -tal como a “escola” - os mesmos problemas surgidos em função da relação espontaneidade-coerção (Coutinho, 1989. p. 80). Para Gramsci (1999) O partido enfrenta, em suas atividades, os mesmos problemas que a escola em relação à espontaneidade e à coerção[39]. Encontrar um equilíbrio entre esses dois aspectos é essencial para a eficácia política e a transformação social. A mesma disciplina da organização consciente, à disciplina e à direção política.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da natureza pedagógica das relações hegemônicas em Antonio Gramsci revela a profunda interconexão entre educação, política e transformação social. Gramsci, ao expandir o conceito marxista de dominação de classe, introduziu a noção de hegemonia, que não se limita à coerção física, mas se estende à dominação cultural e ideológica, onde a classe dominante impõe seus valores e visões de mundo às classes subalternas através do consenso. Esse processo hegemônico é essencialmente pedagógico, pois envolve a formação de intelectuais, a disseminação de ideologias e a construção de uma cultura que sustenta o poder dominante.

A educação, na perspectiva gramsciana, não se restringe ao ensino formal, mas abrange todos os processos de formação intelectual e moral, sendo um campo de batalha ideológica onde se disputa a hegemonia. Gramsci defendeu uma escola unitária, que superasse a divisão entre ensino propedêutico e técnico, promovendo uma formação integral que equilibre o trabalho manual e intelectual. Também destacou a importância do equilíbrio entre espontaneidade e coerção, tanto na educação quanto na política. A espontaneidade representa a energia e a criatividade das massas, enquanto a coerção refere-se à organização e direção consciente necessárias para canalizar essa energia em direção a objetivos transformadores. Esse equilíbrio é essencial para a eficácia política e para a construção de uma nova hegemonia que una teoria e prática.

Por fim, a contribuição de Gramsci para a teoria educacional e política reside em sua compreensão da educação como um instrumento de luta ideológica. Ele defende uma formação crítica e integral, que prepare os indivíduos não apenas para compreender o mundo, mas também para transformá-lo, mas para isso sua visão da hegemonia abre para os sentidos da formação dos intelectuais e partir disso a possibilidade de gerar na formação, cidadãos conscientes e ativos, aliada à sua teoria dos intelectuais e da hegemonia, continua a inspirar debates e práticas educacionais e políticas voltadas para a justiça social e a emancipação humana.

 

REFERÊNCIA

 

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COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

 

FERREIRA, Oliveiros da Silva. Os 45 Cavaleiros Húngaros: uma leitura dos Cadernos de Antonio Gramsci. Brasília: UnB; São Paulo: Hucitec, 1986.

 

GRAMSCI, AntonioCadernos do Cárcere. Tradução de Carlos Nelson Coutinho; co-edição de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

 

GRAMSCI, AntonioOs intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

 

LIGUORI, Guido; VOZA, Pasquale (Orgs.). Dicionário gramsciano (1926-1937). 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

 

MONASTA, AttilioAntonio Gramsci. Recife: Editora Massangana, 2010.

 

NOSELLA, Paolo; AZEVEDO, Mario. A educação em Gramsci. Revista Teoria e Prática da Educação, v. 15, n. 2, p. 25-33, 2012.

 

VOZA, Pasquale; LIGUORI, Guido (Orgs.). Dicionário gramsciano (1926-1937). 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.



[26] Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da Universidade Federal do Pará (UFPA) na Linha Educação, Cultura e Sociedade-2024. Graduado em Filosofia pela UFPA- 2023. Membro do Grupo de Pesquisa Filosofia da Educação, Epistemologia e Formação- PAIDEIA, coordenado pelo Prof. Foi Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC) vinculado aos Projetos de Pesquisa: Antropologia e Educação no Emílio, de Rousseau (II); Concepções de homem, experiência e formação em Rousseau e John Dewey- 2022 a 2023. Áreas de atuação: Filosofia da Educação, Filosofia Política e Literaturas Clássicas. E-mail: stievenmax1996@gmail.com

[27] A posição de Marx em sua produção teórica da maturidade de que o direito é uma forma de dominação de classe pode ser conciliada com suas duas concepções anteriores e, na verdade, as subsume. Mas, enquanto a crítica do direito como forma de alienação o vê como um sistema de conceitos abstratos, a crítica do direito como forma de dominação de classe, sobretudo quando é exercida por Engels, trata-o como um conjunto de mandamentos sancionados pelo Estado. Todas as três perspectivas levam à conclusão de que, na sociedade verdadeiramente humana, não alienada, do comunismo, não haverá direito como força externa coercitiva que constrange os indivíduos (Battomore, 1988. p. 180).

[28] O principal elemento dessa bagagem idealista do jovem Gramsci são dois ensaios famosos, publicados em 1899, nos quais Gentile apresenta sua interpretação do pensamento de Marx. A partir de uma leitura das Teses sobre Feuerbach, Gentile tenta mostrar opondo-se à interpretação já formulada por Croce -que o essencial do pensamento de Marx não é o determinismo econômico defendido pelos teóricos da Segunda Internacional (entre os quais Gentile inclui o próprio Engels), mas sim uma "filosofia da práxis": uma concepção segundo a qual não é a economia, mas sim a práxis humana, a vontade subjetiva, o verdadeiro motor da história (Coutinho. 1989. p, 6).

[29] A discussão contrapondo Croce sobre a história política dos intelectuais “Gramsci especifica o que entende por “filosofia”, que ele considera mais universal do que a “ideologia política”, precisamente porque na filosofia tem lugar uma catarse (Coutinho, 2011. p, 123). Ou seja, entende que a filosofia como uma atividade crítica e reflexiva que busca compreender e transformar a realidade.

[30] Gramsci queria superar, assim, o perigo do elitismo, pensando um intelectual (no caso especifico da contra-hegemonia) orgânico à classe proletária, um intelectual-trabalhador. (Coutinho, 1989. p, 72)

[31] Na introdução da versão brasileira do Cadernos do cárcere, feita por Carlos Nelson Coutinho, ele nos diz sobre a história, fragmentação e organização dos textos de Gramsci, conta que; “Já o caderno 12, iniciado e concluído em 1932, é de dimensões bem mais modestas, sendo formado apenas por duas longas notas de tipo C, uma sobre a questão dos intelectuais e outra sobre o princípio educativo, e por um pequeno apontamento (também de tipo C) que complementa o texto sobre os intelectuais” (Coutinho, 1999. p. 16).

[32] Antonio Gramsci, em uma carta â sua cunhada Tânia (1927), dá a conhecer seu projeto global de estudos, no qual um item diz respeito à "origem, correntes culturais e ao modo de pensar” dos intelectuais italianos (LC:13). Relembra, nesta mesma carta, seu interesse pelo assunto, já proposto em seu estudo denominado Alguns temas sobre a questão meridional (1926). Em outra carta à mesma cunhada (1931), refere-se a esse projeto como “muito vasto e o primeiro tentado na Itália”, declarando ampliar muito a noção de intelectual até então aceita, não se limitando ao seu uso corrente (Coutinho, 1989. apud LC:83; Q1-1; Manacorda, 1977:193).

[33] A potencialidade, dos indivíduos de serem intelectuais são apagadas pela própria condição de subalternidade educacional, então como coloca então, “É essencial destruir – diz Gramsci – o difundido preconceito de que a filosofia é algo estranho e difícil porque é uma atividade intelectual específica de uma categoria particular de especialistas ou de filósofos profissionais ou sistemáticos. Antes de tudo é preciso demonstrar que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características da “filosofia espontânea” que é própria de todo o mundo” (Monasta, 2010. p, 24).

[34] Assim, o intelectual é definido como “representante da hegemonia”, “funcionário da superestrutura", “agente do grupo dominante” e aquele que é responsável pelo consenso ideológico (poder + hegemonia) da massa em torno do grupo dirigente e articula a superestrutura à infra-estrutura. A partir desta função, a importância do intelectual para a hegemonia de uma classe é facilmente percebida (Coutinho, 1989. p, 63).

[35] Com referência à educação no sentido estrito da palavra, Gramsci considera que “no mundo moderno a educação técnica, intimamente ligada ao trabalho industrial, mesmo ao mais primitivo e menos qualificado, deve constituir a base do novo tipo de intelectual”. Isso significa, portanto, uma educação para todos e um vínculo estreito entre a escola e o trabalho, assim como entre a educação técnica e a educação humanista (Monasta, 2010, p. 22).

[36]  O conceito de "Omnilateralidade" não é explicitamente desenvolvido por Antonio Gramsci, mas pode ser relacionado à sua visão de formação integral e à crítica à divisão entre trabalho manual e intelectual.

[37] “Desde a inserção da Itália na economia mundial até análises regionais e locais” (Gramsci, 1982. p, 184).

[38] Não casualmente, nas LC o interesse por uma “história dos intelectuais italianos” é posto em conexão com o “desejo”, por um lado, de “aprofundar o conceito de Estado” e, por outro, de identificar “alguns aspectos do desenvolvimento histórico do povo italiano” (LC, 441, a Tatiana, 3 de agosto de 1931 [Cartas, II, 67]). (Voza, 2017. p, 588).

[39] O termo possui na obra carcerária uma gama articulada de aplicações, que vai da teoria da educação à teoria política propriamente dita e que, em geral, não possui valor intrinsecamente negativo, já que nos diversos âmbitos G. parece acolher a necessidade, senão mesmo a positividade, de um componente coercitivo (Voza, 2017. p, 181).