Recebido em: 19/03/2025

Aprovado em: 02/04/2025

Publicado em: 18/07/2025

 

RESENHA

 

SR. BOAVENTURA DE J.R.R. TOLKIEN PELA EDITORA HARPERCOLLINS BRASIL: sobre a nova tradução de Mr. Bliss por Cristina Casagrande

 

Edivaldo Simão de Freitas[48]

 

Amanda Aparecida Salomão Lopes de Souza[49]

 

REFERÊNCIAS

TOLKIEN, J.R.R.  Sr. Boaventura. Tradução: Cristina Casagrande. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020. 112 p.

https://tolkienista.com/2020/09/25/mr-bliss-ou-sr-boaventura excentricidade-nonsense-e-critica-a-modernidade/

 

Sabe-se que J.R.R. Tolkien era um formidável membro de sua família. Dedicava-se profundamente à sua mulher, aos filhos e outros parentes próximos. Sempre tinha tempo para cuidar dos seus entes queridos. O mais incrível: conseguia dedicar tempo aos amigos e atuar profissionalmente, tanto na universidade onde lecionava quanto nos grupos de pesquisa e estudos que realizava sobre literatura. Ora, só podemos conhecer a obra de Tolkien nas circunstâncias pessoais em que ele vivia, e como tal fora produzida.

E neste nosso empenho de escrita acadêmica, nos dedicaremos a esboçar uma breve resenha sobre a nova tradução de “Mr. Bliss”. Em 2020, chegou até nós uma nova edição desse conto, com uma excentricidade completa e altamente imaginativa, além de criativa. Segundo a tradutora Casagrande (2020, p. 5) “a tradução se preocupou em trazer para o português todas as brincadeiras de linguagem e os trocadilhos presentes no original”. Outro elemento interessante a ser visto nessa mais recente versão é a preocupação em valorizar o projeto gráfico e artístico das ilustrações, criadas por Tolkien, na obra.

Acerca do livro, trata-se de uma obra que narra um único e breve conto. Não há capítulos, não há divisões em partes sistemáticas, não há qualquer subtópico que o leitor, acostumado com as longas obras de Tolkien, poderá encontrar durante sua leitura. De fato, a obra “Mr. Bliss” (Sr. Boaventura[50] na tradução de Casagrande) permaneceu como um livro desconhecido até um pouco depois da morte do escritor Tolkien. Os rascunhos feitos à mão só foram publicados por volta de 1982, quase dez anos após o falecimento do seu autor. Um conto muito imaginativo em que narra uma história cômica de um homem conhecido por usar chapéus enormes.

A história é curiosamente fantasiosa ao modo dos pensamentos narrativos de seu escritor (é preciso alertamo-nos que ainda se trata de uma obra anterior ao The Hobbit). O conto descreve um dia de um sujeito (o Sr. Boaventura, que tem como bichinho de estimação um animal híbrido: girafa-coelho). Esse sujeito, supostamente alegre, compra um carro amarelo e experimenta aventuras incríveis com seus amigos vizinhos, com comerciantes, com um policial rigorosamente excêntrico, com ursos comedores de bananas e repolhos, e outras figuras comuns que moram no vilarejo de sua região, seguindo experimentando uma série de acidentes rodoviários, almoços elaborados e passagens por florestas assombradas. O final do conto termina numa espécie de acerto de contas, o atrapalhado Sr. Boaventura faz os cálculos de todo os gastos com a compra do automóvel, acidentes, e a permissão de ter que criar o girafoelho.

Adentrando na sua criatividade, que nos traz à memória os traços narrativos de The Hobbit, a obra Sr. Boaventura tem como um aspecto comum tolkieniano sua crítica à modernidade. Um personagem, morador de um vilarejo pacato, que acaba por afeiçoar-se à materialidade e adquire um carro. E a partir da posse do veículo inicia uma trama engenhosamente atrapalhada.

E como afirmamos, o livro não segue uma sequência de fatos lógicos divididos por capítulos, mas perpassa por uma excentricidade de fatos consequentes ao momento que o Sr. Boaventura sai a passear com o carro e desce loucamente uma ladeira e acaba por acidentar-se com outros personagens e apresentar uma aventura com um final um tanto fantasioso ao modo de J.R.R. Tolkien. Portanto, como já menciona Casagrande, a tradução apresenta as brincadeiras e o aspecto lúdico na narrativa, preocupando-se em trazer uma melhor e possível compatibilidade com os jogos de palavras criados pelo autor. O que nos traz à fruição de uma agradável obra para o português. No todo, é digno de credibilidade recomendar-se a nova tradução de o conto de Mr. Bliss.



[48] Doutor pelo Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará. Bolsista FUNCAP. E-mail: edfrei07@gmail.com

[49] Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá. Bolsista Capes. E-mail: amandalopesouza@gmail.com

[50] A tradutora, ao examinar algumas denotações acerca do termo ‘bliss’ e sua correspondente no português, consulta o dicionário Aulete e chega em expressões como “Felicidade completa, perfeita” ou, “A felicidade eterna, que os bem-aventurados gozam no céu”. E acrescenta em sua fala: “Além disso, ‘Boaventura’ é a aglutinação das palavras ‘boa’ e ‘ventura’, sendo este último, ‘sorte, fortuna, felicidade’, de acordo com o dicionário Aulete.” (CASAGRANDE, 2020 in: https://tolkienista.com/2020/09/25/mr-bliss-ou-sr-boaventura-excentricidade-nonsense-e-critica-a-modernidade/)