Recebido em: 21/03/2025

Aprovado em: 06/06/2025

Publicado em: 18/07/2025

 

DISCURSO E AGIR PROFESSORAL:

Uma Análise Foucaultiana da Objetivação do Sujeito Professor

 

PROFESSORIAL DISCOURSE AND ACTION:

A Foucauldian Analysis of theObjectification of the Teaching Subject

 

INSTRUISTA DISKUSO KAJ AGO:

Foucault-a Analizo de la Objektivigo de la Instruista Subjekto

 

 

Thaise Maria Armelin Elias[3]

 

Marcelo Alberto Elias[4]

 

Resumo

O ofício de ser professor, sobretudo no Brasil, envolve diferentes camadas, que sobrepostas constituem um profissional. Imerso em um cenário competitivo, assim como todas as outras profissões, esses sujeitos enfrentam desafios para inserção no mercado, valorização e ascensão financeira. No entanto, diferentemente da maioria das profissões, a profissão docente envolve por excelência a formação de novos sujeitos, e aqui encontra-se talvez o grande nó da relação com a sociedade.  Alimentada por diferentes discursos acerca dos “professores”, é comum encontrarmos uma naturalização da figura do professor como um transgressor, um rebelde, ou seja, um alguém a ser combatido, enfrentado e silenciado. Nessa esteira, as relações de poder-saber emergem e tensionam a figura do professor, regulando e legitimando seus lugares quase que exclusivamente de transmissores de conteúdo e desqualificando a qualquer custo a possibilidade de um pensamento crítico na instituição escolar. Entre as diferentes formas dessa manutenção do controle sobre os professores, está a construção de uma subjetividade que seja vista pela sociedade como perigosa. Assim, a partir da perspectiva teórica-metodológica foucaultiana atravessada pelos conceitos de agir professoral, analisaremos a emergência do discurso do então presidente da câmara de vereadores de Pombal – PA, uma vez que ele afirma que o professor “não faz nada”. O material de análise é composto por sequências enunciativas materializadas no site Jornal da Paraíba, em que o presidente elegeu o professor enquanto objeto discursivo. Logo, daremos ênfase na construção do sujeito por meio do discurso e nas relações de poder que o envolvem.

Palavras-chave: Arqueologia. Michel Foucault. Poder. Professor.

 

Abstract

The profession of being a teacher, especially in Brazil, involves different layers, which, when superimposed, constitute a professional. Immersed in a competitive scenario, like all other professions, these individuals face challenges in entering the market, gaining recognition and financial advancement. However, unlike most professions, the teaching profession involves, par excellence, the formation of new individuals, and this is perhaps the major problem in the relationship with society. Fueled by different discourses about “teachers”, it is common to find a naturalization of the figure of the teacher as a transgressor, a rebel, that is, someone to be fought, confronted and silenced. In this context, power-knowledge relations emerge and put pressure on the figure of the teacher, regulating and legitimizing their roles almost exclusively as transmitters of content and disqualifying at all costs the possibility of critical thinking in the school institution. Among the different ways in which this control over teachers is maintained is the construction of a subjectivity that is seen by society as dangerous. Thus, from the Foucaultian theoretical-methodological perspective permeated by the concepts of teacher action, we analyze the emergence of the discourse of the then president of the Pombal City Council – PA, since he states that the teacher “does nothing”. The material for analysis is composed of enunciative sequences materialized on the Jornal da Paraíba website, in which the president elected the teacher as a discursive object. Therefore, we emphasize the construction of the subject through discourse and the power relations that involve it.

Keywords: Archaeology. Michel Foucault. Power. Teacher.

 

Resumo
La ofico esti instruisto, precipe en Brazilo, implikas diversajn tavolojn, kiuj supermetitaj konsistigas profesiulon. Enmersiĝinta en konkurenciva scenaro, same kiel ĉiuj aliaj profesioj, tiuj subjektoj alfrontas defiojn por eniro en la merkaton, valorigo kaj financa pliiĝo. Tamen, male al la plejparto de profesioj, la instruista profesio ĉefe implikas la formadon de novaj subjektoj, kaj ĉi tie eble troviĝas la granda nodo de la rilato kun la socio. Nutrita de diversaj diskursoj pri la "instruistoj", estas komuna trovi naturigon de la figuro de la instruisto kiel transgresanto, ribelanto, aŭ en aliaj vortoj, iu, kiu devas esti kontraŭbatalita, alfrontita kaj silentigita. En tiu kunteksto, la rilatoj de povo-scio aperas kaj tensias la figuron de la instruisto, reguligante kaj legitimante siajn lokojn preskaŭ ekskluzive kiel transdonantoj de enhavo kaj malaltigante je ajna kosto la eblecon de kritika pensado en la lerneja institucio. Inter la diversaj formoj de tiu konservado de kontrolo super la instruistoj, estas la konstruado de subjektiveco, kiu estas vidita de la socio kiel danĝera. Tiel, el la teorietika-metodologia perspektivo foucaultiana, transirita de la konceptoj de instruista agado, ni analizos la aperon de la diskurso de la tiam prezidento de la konsilio de la urbestro de Pombal – PA, ĉar li asertas, ke la instruisto "nenion faras". La materialo de analizo konsistas el enunciativaj sekvencoj materialigitaj en la retejo Jornal da Paraíba, kie la prezidanto elektis la profesoron kiel diskurson objekton. Tial, ni emfazos la konstruadon de la subjekto per la diskurso kaj la povorilatoj kiuj ĝin ĉirkaŭas.

Ŝlosilvortoj: Arkeologio. Michel Foucault. Povo. Profesoro.

 

 

INTRODUÇÃO

            Recentemente, diferentes meios de comunicação se ocuparam em dar destaque ao que chamaram de apagão docente, ou seja, existem estudos indicando uma tendência de diminuição do interesse de adolescentes e jovens em seguir a profissão. Tal fato já havia sido publicado por Esquinsani (2018); Bego e Ferrari (2018); Sobrinho e Esquinsani (2024). Contudo, chama a atenção os aspectos sócio-históricos que atravessam essa desvalorização do ofício de ser professor, entre eles se destacam a moral, o capital e o emocional.

            Dias (2018), seguindo a perspectiva de Michel Foucault, afirma que a produção de subjetividade dos professores atravessa as noções de formação, vida e resistência. Nesse sentido, é preciso pensar o espaço formativo de professores para além da sala de aula, ou seja, na sociedade. E nesse lugar onde a vida acontece, professores constituem subjetividades.

 

Produção de subjetividade e dessubjetivação, como propõe Foucault, entram como uma variante de um caminho possível à ânsia de um sujeito e um mundo dados previamente que se dão a conhecer. A profusão desta noção exige que se percorram suas experiências para compreender seus distintos modos de funcionar. Por isto é importante dizer, de início, que produção de subjetividade não é um termo a mais para designar o mesmo que sujeito, eu, consciência, identidade, personalidade, termos muito usuais no cotidiano pedagógico que insistem em manter o sujeito em seu lugar dado e determinado previamente (Dias, 2018, p. 417).

           

Assim, ao olharmos para o desinteresse dos estudantes frente a profissão docente, é preciso interseccionar essa realidade com as diferentes subjetivações acerca do ofício docente. Dito de outra forma, é preciso escavar para poder ter uma visão mais aprofundada do que se passa. Assim nossas reflexões serão instrumentalizadas a partir da caixa de ferramentas disponibilizadas por Foucault (2014) para se analisar discurso e transitarão na interface discurso - escola – professor – sociedade.

 

ESCOLA, CONTROLE E OFÍCIO DO PROFESSOR

            A instituição escolar, ou popularmente conhecida como escola, é apresentada nos dias de hoje por muitos educadores chamados de “ativistas” como um espaço potencial de reflexão, autonomia, descoberta e de construção de cidadãos críticos. Porém, esse olhar sobre a escola não é único, sobre ela estão outros olhares, em especial o olhar do estado que, a partir dela, pode exercer seu poder político.

            A partir dessa relação escola e poder político, podemos nos aproximar desse espaço em especial e refletir sobre a disciplina. Para Foucault (1991), a disciplina fabrica corpos submissos e dóceis, é claro que esse objetivo estava centrado na função da escola que historicamente visava à formação de trabalhadores. Assim, é possível compreender essa necessidade de uma formação tão centrada na disciplina, na regulação dos corpos e no controle do tempo.

            Essa instituição vai ficando para trás, ao menos historicamente, porém seus construtos disciplinares permanecem até os dias de hoje muito vivos no espaço educacional em uma sociedade dita pós-moderna. Não precisamos de muito esforço, basta ir a uma escola e veremos uniformes, aulas reguladas por horários, regras bem estabelecidas nos contratos pedagógicos entre outros tantos construtos.

            Ancorados, nos escritos de Foucault (1991), poderíamos sugerir que a escola está atravessada por essa enunciação de um “lugar de ordem”, assim para manter ou estabelecer a ordem é necessária a disciplina. Disciplina essa que: promove controle dos espaços, vigilância contínua, organização do tempo e produção do saber e seu registro. Nessa direção, a sociedade do controle surge como uma vigilância geral distribuída pelos corpos e cérebros a partir de diferentes formas: estatísticas, câmeras, programas de reeducação alimentar, instrumentos de monitoração do bem-estar entre outros (Deleuze, 1992).

            É nesse lugar que professores e professoras exercem o seu ofício. Seguindo as ideias de Foucault (1991), esses sujeitos introduzidos dentro dessa instituição deveriam colaborar com a manutenção da ordem. No entanto, muitos passam a desobedecer a essa discursividade, tornando-se, assim, um mal a ser combatido, enfrentado e silenciado.

            Larrosa (2024, p. 26), afirma que o “ofício é inseparável do lugar onde é exercido”, assim, pensar a profissão docente em um cenário historicamente constituído para a ordem, implica uma compreensão profunda da lógica da desobediência. Ou seja, promover aberturas para o pensar criticamente é desobedecer e gerar rupturas em uma estrutura institucionalizada para o estado. Nesse aspecto, o movimento intelectual de professores é visto como perigoso e deve ser desqualificado.

            Contudo, mesmo em um contexto de enfrentamento, luta e resistência, a profissão docente segue em exercício muitas vezes metódico e até mesmo burocrático, ou seja, preparando, lendo, conversando, ouvindo, estudando e organizando (Larrosa, 2024).

                       

O AGIR PROFESSORAL

 

Alinhado aos pensamentos de Larrosa (2024), Gomes (2023), afirma que “o trabalho do/a professor/a é um tipo de agir que se configura de forma multifacetada, complexa, dinâmica, tendo em vista as diversas atividades e tarefas desenvolvidas/realizadas por ele/a” (Gomes, 2023, p.1). É evidente que tal trabalho envolve muito mais do que simplesmente criar condições para que o aluno aprenda, em sala de aula, o conteúdo relacionado a sua disciplina. Isto é, o agir professoral mobiliza uma série de atividades outras como planejamentos, reuniões, elaboração de projetos, correções de avalições e trabalhos, leituras e estudos. Atividades estas que não são vistas e reconhecidas por uma grande parcela da sociedade, uma vez que enxergam apenas o trabalho do professor desenvolvido em sala de aula.

Além disso, o professor, para realizar o seu trabalho, mobiliza diferentes saberes os quais constituem seu repertório didático que pode ser entendido como “um conjunto de recursos diversificados – modelos, saberes, situações – sobre o qual um professor se apoia” (Cicurel, 2020, p. 150).   Sendo assim, é imprescindível enxergar o agir professoral para além da sala de aula, visto que está enredado por relações sociais, pelo contexto histórico e por um sistema educacional que demanda o envolvimento físico, cognitivo, linguageiro e afetivo do professor (Gomes, 2023).

Nesse contexto, o agir professoral, conforme aponta-nos Gomes (2023), pode ser visto como ilimitado, configurando-se a partir de quatro dimensões pela perspectiva da teoria Interacionista Sociodiscursiva. O trabalho prescrito é a primeira delas, dado que o trabalho do professor é direcionado por órgãos governamentais. A segunda é o trabalho real o qual é realmente desenvolvido em sala de aula, partindo de um agir professoral e de um repertório didático. A terceira dimensão é aquela que permite relacionar o planejamento e a prática do professor, isto é, o trabalho representado. E, por último, o trabalho interpretativo que permite a análise do docente por um outro professor.

Destarte, o ser professor hoje é um ser plural, múltiplo, muitas vezes integral, pois o trabalho desse profissional não começa e nem termina na sala de aula, mas depreende estudo, preparo, novas metodologias, estratégias, um olhar sobre si, a fim de construir, desconstruir, reconstruir, uma vez que está diante de diferentes turmas que comportam diferentes alunos, com contextos variados e que aprendem de formas e em tempos díspares.

Assim, com base nessa complexidade do agir professoral, pretende-se, à luz dos Estudos Discursivos Foucaultianos, fazer uma análise do discurso do presidente da câmara dos vereadores de Pombal – PA, Marcos Bandeira, dado que o filósofo Michel Foucault, um dos maiores intelectuais do século XX, nos forneceu um arcabouço teórico-metodológico pertinente para se analisar discurso, buscando sempre questionar o porquê de certo enunciado e de nenhum outro em seu lugar. Em outras palavras, Foucault (2014), ao tomar o discurso como objeto de suas análises, propôs o método arqueológico, ou seja, baseado no trabalho de um arqueólogo, convidou-nos a olhar além das evidências, a fim de encontrar os nós que envolvem o discurso. Nas palavras do próprio filósofo

 

Eu me dei como objeto uma análise do discurso, fora de qualquer ponto de vista. Meu programa se fundamenta nos métodos da linguística. A noção de estrutura não tem nenhum sentido para mim. O que me interessa, no problema do discurso, é o fato de que alguém disse alguma coisa em um dado momento. Isto é o que eu chamo de acontecimento. Para mim, trata-se de considerar o discurso como uma série de acontecimentos, de estabelecer e descrever as relações que esses acontecimentos – que podemos chamar de acontecimentos discursivos – mantêm com outros acontecimentos que pertencem ao sistema econômico, ou ao campo político, ou às instituições. (...) O fato de eu considerar o discurso como uma série de acontecimentos nos situa automaticamente na dimensão da história (...) Se faço isso é com o objetivo de saber o que somos hoje. Somos inextricavelmente ligados aos acontecimentos discursivos. Em um certo sentido, não somos nada além do que aquilo que foi dito, há séculos, meses, semanas (Foucault, 2006, p. 255).

 

Nessa linha de análise, importa a relação indissociável entre língua, sujeito e história, notadamente, o fato de que, na trama dessa relação, enredam-se saberes e efeitos de poder que são (re)produtores de discursos. Dito de outra forma, é uma análise que nos convida “à construção de objetos discursivos numa tríplice tensão entre a sistematicidade da linguagem, da historicidade e da produção de subjetividades” (Gregolin, 2016, p. 120).

 

PROFESSOR NÃO FAZ NADA? UM OLHAR ARQUEOLÓGICO

Face às questões do agir professoral e foucaultianas esboçadas acima, interessa-nos a emergência do discurso do presidente da Câmara de vereadores de Pombal – PA, Marcos Bandeira, veiculado na internet, no dia 14/09/2023, em que ele ironizou e diminuiu o trabalho dos professores, comparando-o com as horas de trabalho dos enfermeiros, enquanto ele ganha R$ 11 mil para trabalhar duas vezes por semana.

Dessa forma, apresentamos a seguir uma sequência enunciativa (SE) retirada do site Jornal da Paraíba a qual cabe um olhar arqueológico, isto é, um olhar que se volta para a irrupção, para a dispersão e para a singularidade desse acontecimento. Um olhar que não busca interpretar o discurso, mas sim “fazer uma história dos objetos discursivos que não os enterre na profundidade comum de um solo originário, mas que se desenvolva o nexo das regularidades que regem sua dispersão (Foucault, 2014, p. 58), mesmo sabendo da impossibilidade de esgotar seus sentidos.

 

SE 1: “Olha, na educação é 40 horas. Isso aí eu falo porque sou professor. Aí sabe quanto trabalha? 30. Vinte e cinco. Mais... Vinte e cinco. Mais cinco de planejamento, mais cinco de correção de prova. Resumindo, nada. Só trabalha vinte e cinco” (Marcos Bandeira).

 

Diante dessa sequência, Foucault (2014), convida-nos a problematizá-la, a olhar para esse enunciado como sendo não oculto, pois foi pronunciado por alguém e, ao mesmo tempo, não visível, uma vez que, por ser tão claro, acaba escondendo relações de saber, poder e verdade.

Ora, Foucault na sua célebre obra “A ordem do discurso” (1996), afirma que o discurso está na ordem das leis, sendo organizado e controlado dentro de qualquer sociedade, ou seja, não se pode falar de qualquer coisa, em qualquer circunstância. Não se tem o direito de dizer tudo, é preciso seguir regras. Sendo assim, se esse presidente da Câmara ousou minimizar e blasfemar contra o trabalho do professor é porque ele se encontra em uma posição de poder que o levou a transgredir essa ordem do discurso. Lembrando que, para o filósofo, “o poder é algo que funciona através do discurso, porque o discurso é, ele mesmo, um elemento e um dispositivo estratégico de relações de poder” (Foucault, 2003, p. 253).

Logo, um discurso que acaba por produzir efeitos de verdade a respeito do trabalho do professor, levando uma sociedade a acreditar que realmente o professor não faz nada, uma vez que veio de alguém que se encontra em uma posição superior. Assim dizendo, pela ótica foucaultiana, é impossível pensar no sujeito desvinculado de relações de poder, pois “o poder está em toda parte” (Autor, 2020, p. 101).

Assim, deparamo-nos com um sujeito professor sendo construído por meio do discurso, ou melhor, por alguém que também se diz professor, mas que não compreendeu ainda a complexidade e a pluralidade do agir professoral, haja vista que engessou o professor somente à sala de aula. E ainda, que não visualiza o professor como um ser integral, que planeja, que estuda, que busca novas metodologias, que inventa e reinventa-se, que constrói e reconstrói, buscando fazer a diferença na vida dos alunos e na sociedade. Consequentemente, apresenta uma visão e um discurso limitado do que é ser professor, mas que ainda circula em nosso meio, pois encontra ouvintes que são coniventes com essas ideias, isto é, que pertencem a mesma formação discursiva, visto que apresentam uma regularidade de enunciados dentro de um sistema enunciativo.

Ainda, partindo da premissa foucaultiana de que um enunciado sempre atualiza outro enunciado, a sequência enunciativa acima, particularizada nesse ensaio, acontece em meio a discursos que estabelecem possibilidades indefinidas de serem repetidos, parafraseados, comentados porque “estão na origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os transformam ou falam deles [...] discursos que, indefinidamente, para além de sua formulação, são ditos, permanecem ditos e estão ainda por dizer” (Foucault, 2014, p. 22). Em outras palavras, a existência histórica do enunciado em questão enlaça-se a outros enunciados que também colocam a figura do professor em uma posição de conforto, de comodismo, de quem trabalha pouco, que tira férias duas vezes por ano e, por isso, inferior as outras profissões.

Diante disso, tem-se um sujeito como efeito da objetivação, recortado discursivamente, disciplinado, classificado ou, até separado. Assim dizendo, um sujeito objetivado por meio do discurso e, consequentemente, transformado em objeto do conhecimento por alguém que também é professor, mas que desconsidera a complexidade desse ser, revelando uma sociedade que ainda não conhece e reconhece o verdadeiro trabalho do professor, que não o valoriza, colocando-o bem abaixo das outras profissões e, que ainda, não tem a educação como prioridade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A análise da sequência enunciativa acima evidencia um sujeito enquanto efeito do discurso e construído em meio às relações de poder, uma vez que “não somos nada além do que aquilo que foi dito, há séculos, meses, semanas” (Autor, 2003, p. 255-256).

            Assim, ao questionarmos, arqueologicamente, o porquê desse enunciado, proferido por Marcos Bandeira, e de nenhum outro em seu lugar, percebemos o quanto o sujeito professor ainda é visto somente como agente em sala de aula, desvinculado de suas outras inúmeras atividades. Em outras palavras, um enunciado que faz perpetuar o estigma de que o professor não faz nada, desmerecendo seus esforços por uma sociedade em que o conhecimento é construído por meio dele, envolvendo uma rede de saberes.

            Ainda, há a necessidade de atacar o trabalho do professor, pois teme-se o poder deste, uma vez que o conhecimento, mediado por ele, abre portas e mentes, fazendo-as capazes de transformar sua realidade.

 

REFERÊNCIAS

 

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[3] Doutoranda e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (Universidade Estadual do Centro Oeste - UNICENTRO). Professora de Língua Portuguesa – SEED-PR. E-mail: thaiseaelias@gmail.com

[4] Doutor em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM/Unicamp). Mestre em Biologia das Interações Orgânicas (PGB/UEM). Professor no Instituto Federal do Paraná (IFPR), Umuarama, PR - Brasil. E-mail: marcelo.elias@ifpr.edu.br