Recebido em: 02/05/2025
Aprovado em: 17/06/2025
Publicado em: 18/07/2025
UMA CRÍTICA DA EDUCAÇÃO BANCÁRIA NA
FILOSOFIA
A CRITIQUE OF BANKING EDUCATION IN PHILOSOPHY
UMA
KRITIKO DE BANKEDUKO EN FILOZOFIO
Pablo Gabriel III Mendoza Rojas[40]
Edelson Ramos Lima da Silva[41]
Resumo
O presente trabalho tem como
objetivo principal estabelecer uma crítica ao modelo de ensino de filosofia
baseado na educação bancária. A problemática é a de um modelo de ensino em que
o professor se limita a narrar a história da filosofia sem se conectar com seus
alunos, apenas transmitindo informações sobre filósofos que, muitas vezes, não
possuem relação com a realidade dos estudantes. Para embasar essa crítica,
recorremos à perspectiva de Paulo Freire sobre a educação bancária, que a
define como um ensino no qual o professor atua como mero transmissor de conteúdos, enquanto o aluno é reduzido a um receptáculo
passivo. Por fim, tomaremos como referência o modelo de ensino de filosofia
proposto por Gallo, denominado “oficina de conceitos”,
apresentado em sua obra Metodologia do
ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio para pensar uma saída
ao problema do ensino de filosofia bancária. A saída, tomando como base o
projeto proposto por Gallo, seria a de formar alunos
que não sejam meros receptáculos de conceitos de filósofos, mas alunos
criadores de conceitos.
Palavras-Chave: Filosofia. Ensino. História da
Filosofia. Metodologia.
Abstract
The main objective of this
work is to
offer a critical analysis of the
teaching model for philosophy known as "banking
education." The central issue
lies in an instructional
approach where the teacher merely narrates the history
of philosophy without engaging with students, simply transmitting information about philosophers who often have little
relevance to the students’ own
reality. To support this critique, we draw upon Paulo Freire’s perspective on banking education, which he defines as a model in which the teacher
acts solely as a transmitter of content, while the student is
reduced to a passive receptacle. Finally, we turn to
the philosophy teaching model proposed by Gallo—called the "concept workshop"—as outlined
in his book Metodologia
do ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio (2012), in order to consider
an alternative to the banking model. Based on
Gallo’s proposal, the alternative would be to
form students who are not mere
receptacles of philosophical concepts, but rather creators
of concepts themselves.
Keywords: Philosophy.
Teaching. History of Philosophy.
Methodology.
Resumo
La nuna laboro havas kiel ĉefa celo
establi kritikon al la
modelo de instruado de filozofio
bazita sur la bankeduka sistemo. La problemo estas tiu de modelo de instruado en kiu la instruisto limigas sin al rakontado de la historio
de filozofio sen konekti kun siaj
studentoj, nur transdonante informojn pri filozofoj, kiuj ofte ne havas
rilaton kun la realeco de la studentoj. Por subteni ĉi tiun
kritikon, ni alvokas la perspektivon de Paulo
Freire pri la bankeduka sistemo, kiun li difinas kiel instruadon
en kiu la instruisto agas kiel simpla
transdonanto de enhavoj,
dum la studento estas reduktita
al pasiva receptaklo. Fine,
ni prenos kiel referencon la modelon de instruado de filozofio proponitan de Gallo, nomatan “oficejo de konceptoj”, prezentita en lia verko Metodologio de la instruado de filozofio: didaktiko por mezlernejo por pensi pri solvo al la problemo de bankeduka filozofio. La solvo, prenante kiel bazon
la projekton proponitan de Gallo, estus formi
studentojn kiuj ne estas simplaj receptakloj de konceptoj de filozofoj, sed studentoj kreantaj
konceptojn.
Ŝlosilvortoj: Filozofio.
Instruado. Historio de Filozofio.
Metodologio.
INTRODUÇÃO
Façamos a seguinte pergunta: como transmitir a vasta
tradição filosófica para o aluno? Dá-se início a uma discussão em que se
colocam muitas nuances e formas de se ensinar filosofia. Porém, o que realmente
se vê, na maioria dos casos, é um método bancário no ensino de filosofia;
limitando-se a uma oralidade com um pretensioso tom superior e falas aos ventos
de conteúdos da história da filosofia, conteúdos estes que devem ser apenas
decorados pelos alunos. Nessa forma de ensinar, pode-se observar um certo
distanciamento entre o professor e seus alunos, pois “nela, o educador aparece
como seu indiscutível agente, como o seu real sujeito, cuja tarefa indeclinável
é ‘encher’ os educandos dos conteúdos de sua narração” (Freire, 1987, p. 37).
Nosso objetivo neste trabalho se constitui em apresentar a crítica que Paulo
Freire faz a esse modelo de educação bancária, visando mostrar quão nocivo é um
ensino de filosofia pautado nesse modelo e, ao mesmo tempo, apresentar uma
saída embasada na proposta da “oficina de conceitos” de Silvio Gallo. O que queremos aqui é afirmar que a filosofia não é
“só mais um conjunto de informações e conteúdos que
você pode decorar e esquecer depois” (Gallo, 2016,
p.3). Buscamos um modelo de ensino de Filosofia que não se baseie na
memorização nem em um mero repasse da história da Filosofia, mas que proponha
ao aluno um mergulho nos conceitos, em vez de reduzi-lo a um agente passivo,
mero receptor de conhecimentos filosóficos.
EDUCAÇÃO BANCÁRIA EM PAULO FREIRE
Paulo Freire
busca realizar uma crítica ao modelo de ensino que ele caracteriza como
educação bancária. O que seria a educação bancária
que Freire critica? Esta pode ser definida como um modelo de educar que se
pauta na transmissão de conhecimentos do professor para o aluno, sem levar em
conta a participação ativa e crítica do educando. Nessa concepção, o aluno é
visto como um recipiente vazio que precisa ser preenchido pelo saber do
professor, que é o detentor do conhecimento. Essa forma de educação constitui,
para Freire, uma prática opressora e alienante, pois não estimula o
desenvolvimento da consciência e da autonomia dos alunos. É por isso que se
utiliza o termo “bancário”, este termo representa o ato de depositar dinheiro
em um caixa de banco; o uso é explicitamente um recurso que o autor utiliza
para efetivar o entendimento da natureza desta prática por uma camada mais vasta
de pesquisadores, professores e pessoas fora do meio acadêmico e institucional,
pois é uma boa analogia com o que Freire buscava conceituar em sua Pedagogia do Oprimido. Ainda sobre o
termo “bancário” podemos observar que ele está em perfeita concordância com o
sistema freireano e sua arquitetônica educativa,
Paulo Freire recomenda que o vocabulário no ato de ensinar se aproxime do
cotidiano daquele que aprende, assim o autor, enquanto filósofo, poderia criar
um substantivo para nomear essa prática que é condenada na Pedagogia do Oprimido, mas ele preferiu algo mais simples, algo que
até o mais modesto cidadão pudesse compreender sem a necessidade de copiosas
leituras sistemáticas. Citamos Freire:
Na visão “bancária” da educação, o “saber” é
uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se
funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos
de alienação da ignorância, segundo a qual esta se
encontra sempre no outro (Freire, 1987, p. 38).
A
realidade é vista pelo método bancário como estática, imutável e desvinculada
do contexto histórico e social dos estudantes. O método bancário assume que a
realidade é dada e que o papel da educação é apenas transmitir os conhecimentos
portados pelos educadores, sem questionar, problematizar ou transformar essa
realidade. Destarte, a educação bancária é uma forma de manutenção e reprodução
da ideologia dominante e de manter as relações de poder e opressão existentes
na sociedade. “A questão está em que, pensar autenticamente, é perigoso. O
estranho humanismo desta concepção ‘bancária’ se reduz à tentativa de fazer dos
homens o seu contrário – o autômato, que é a negação de sua ontológica vocação
de Ser Mais” (Freire, 1987, p. 39,
grifo nosso).
Ser Mais em Paulo Freire é um conceito
que expressa a vocação ontológica do ser humano, ou seja, a sua tendência
natural de se desenvolver, de se aperfeiçoar, de ser capaz, após certo
desenvolvimento, de se libertar das situações de opressão e de desumanização
que impedem o seu pleno exercício da consciência e da cidadania. Para Freire, o
ser humano é um ser inacabado, que está sempre em busca de se completar, de se
realizar, de se humanizar. Essa busca é feita através da educação, entendida
como um processo de diálogo, de problematização, de criação e de transformação
da realidade. Há, inclusive, na Pedagogia
da Autonomia (2021) uma passagem na qual Freire fala sobre essa
característica do humano enquanto “gente” numa possibilidade de Ser Mais, condicionado pelo seu
inacabamento:
Gosto de ser homem, de
ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou
serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei
justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor
porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de
ser homem, de ser gente, porque sei que minha passagem no mundo não é
predeterminada, preestabelecida. Que meu “destino” não é um dado, mas algo que
precisa ser feito e de cuja responsabilidade não (...) posso me eximir. Gosto
de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura
tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de um determinismo. Daí que insista
tanto na problematização do futuro e
recuse sua inexorabilidade (Freire, 2021, p. 50-53, grifo do autor).
Ser Mais, portanto, é um ideal que orienta a prática educativa de Paulo
Freire, pois ensinar exige consciência do inacabamento. Freire busca desarticular
a rigidez de uma forma de pensar que apequena a natureza do estudante - ou até
mesmo a humana - e que também o deixa como um estrangeiro na sala de aula; sala
de aula que transmite conteúdos fora de seu
cotidiano, ou seja, longe de seu mundo. Ensinar não é transferir conhecimento.
O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO BANCÁRIA NA
FILOSOFIA
Muitas vezes o ensino da filosofia em sala de aula se dá no
seguinte modelo: o professor disserta por horas sobre um determinado assunto da
história da filosofia visando inserir essa narração de conceitos na cabeça dos
alunos. Ele se vê como um mero despejador de uma preciosa tradição filosófica e
se esquece de chamar o aluno para o processo de conceituação, ou seja, o ato de
colocar o aluno para imergir totalmente no ato de criar e recriar o conceito. O
docente acaba fazendo uma aula em que deposita o conteúdo, mas não convida o
aluno a refletir sobre o mesmo. O que ocorre é o seguinte processo:
A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os
educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os
transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador.
Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor
educador será. Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores
educandos serão. Desta
maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os
depositários e o educador o depositante. (Freire, 1987, p. 37).
E, estranhamente, aquelas falas em
uma sala de aula cheia são solitárias. Estas falas não transmitem absolutamente
nada além de uma narração histórica e carente de qualquer atividade crítica da
razão; reduzidas, invariavelmente, a uma sonoridade que tem como objetivo
último a memorização mecânica.
O professor que se coloca nessa posição acaba fazendo um
ensino desditoso. “O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições
fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre
os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento
como processos de busca.” (Freire, 1987, p. 38).
O ensino de filosofia pode ser entendido como
bancário nas escolas quando ele se limita a transmitir os conteúdos históricos
e conceituais da filosofia, sem estimular o pensamento crítico, criativo e
autônomo dos alunos. Nesse caso, o ensino de filosofia se torna uma mera
reprodução de informações, sem levar em conta o contexto e a realidade dos
educandos, nem a sua capacidade de questionar, problematizar e transformar o
seu próprio conhecimento[42].
Existe uma
desvantagem nesse tipo de ensino na filosofia, pois ele não cumpre o papel da
filosofia na educação, que é o de promover a reflexão, o diálogo e a
emancipação dos alunos. Além disso, ele desvaloriza a filosofia como uma forma
de conhecimento vivo, dinâmico e relevante para a compreensão do mundo e da
existência humana. Um ensino de filosofia bancário pode gerar desinteresse,
alienação e conformismo nos alunos, que não se sentem motivados a participar
ativamente do processo educativo. Esse ensino de filosofia que poderia
ter potenciais emancipatórios acaba se tornando um mero repasse de uma tradição
filosófica, o professor que tinha a boa intenção de iluminar os alunos com os
grandes momentos da filosofia acaba produzindo um ensino descontextualizado e
fechado num mero repasse de informações.
Assim, no
ensino de filosofia é necessário levarmos em consideração que, enquanto
professores, não devemos fazer um mero repasse da história da filosofia e seus
autores para o aluno, mas provocar esse aluno para que ele possa pensar
criticamente sobre seu cotidiano. O
nosso papel enquanto professor não deve ser o de mero repassador da história da
filosofia e seus autores. Devemos assumir um papel de ser aquele professor que
incita o aluno a criar e recriar conceitos e não o de professor que coloca um
panteão de autores da iluminada tradição filosófica para desfilar, tendo como
único objetivo depositar conceitos sem convidar o aluno para filosofar. Sobre
essa questão o filósofo do ensino de filosofia Sílvio Gallo
afirma:
Mas só ensinamos de fato quando os alunos passam, eles próprios, a
manejar os conceitos como ferramentas, independentemente de nossa supervisão,
por mais que, como um pai diante do filho pequeno que brinca com uma faca,
fiquemos preocupados com isso e temamos perder o controle (Gallo,
2012, p.32).
O professor pode citar com toda uma
eloquência as frases mais emblemáticas desses filósofos, mas a realidade é que
ali os alunos assistem ao monólogo filosófico e se sentem alheios ao conteúdo.
O tédio e a indiferença invadem seus sentimentos, cravam-lhes no peito o enfado
e parasitam a vocação da filosofia
enquanto atividade “criadora de conceitos”[43]. Eles não se sentem convidados a pensar. As
palavras do professor de filosofia sobre uma história filosófica acabam virando
palavras frias e retalhadas. Segundo Paulo Freire:
Conteúdos que são retalhos da realidade desconectados da
totalidade em que se engendram e em cuja visão ganharia significação. A
palavra, nestas dissertações, se esvazia da dimensão concreta que devia ter ou
se transforma em palavra oca, em verbosidade alienada e alienante. Daí que seja
mais som que significação e, assim, melhor seria não dizê-la. (Freire, 1987, p.
37).
Assim, a ação de meramente dissertar
nas aulas há de reprimir veementemente as concepções filosóficas e nada
passando ao entendimento do aluno, uma vez que o aluno não está lá para assumir
uma posição de criador de conceitos, mas está lá para decorar conceitos da
história da filosofia.
Quando o professor dita, os alunos
hão de memorizar e repetir os ensinamentos do “senhor do saber”. Sem existir um
reconhecimento entre ambos os lados, estranhos cidadãos do mundo exilados na
própria pátria.
Destarte, o aluno de filosofia
estando meramente sujeito ao depósito e refém da autoridade do seu professor
acaba se tornando uma consciência que não consegue superar as contradições da
sua realidade, ficando na posição de um mero receptor de conteúdos
dos vastos saberes da filosofia. sem reconhecer a realidade do outro e sua
existência, não se dá efetivamente o ensino de filosofia. O professor que
coloca a filosofia como uma história a ser memorizada friamente pelos seus
alunos acaba se tornando o “intelectual memorizador” que Freire aponta nesse
trecho:
O intelectual memorizador, que lê horas a fio,
domesticando-se ao texto, temeroso de arriscar-se, fala de suas leituras quase
como se estivesse recitando-as de memória - não percebe, quando realmente
existe, nenhuma relação entre o que leu e o que vem ocorrendo no seu país, na
sua cidade no seu bairro. Repete o lido com precisão mas raramente ensaia algo
pessoal. (Freire, 2022b, p. 29).
Devemos adaptar os conteúdos de ensino da filosofia para o
nosso público, é preciso, para ensinar, “pegar na mão” e guiar com modéstia o
aluno nessa trilha filosófica, evitando que ele apenas decore conceitos os
eloquentes autores da filosofia. Isso se deve porque “nunca sabemos colocar-nos
no lugar das crianças; não penetramos em suas ideias, emprestamos-lhes as
nossas; e seguindo sempre nossos próprios raciocínios, com cadeias de verdades
só enchemos suas cabeças de extravagâncias e erros.” (Rousseau, 1995, p.
179-180). Justamente por isso é
necessário sair do modelo de educação bancária do ensino de filosofia e ir para
um modelo que se paute pela problematização e pela produção de conceitos.
Precisamos de um modelo que coloque o aluno como
protagonista, como protagonista do ato de filosofar, que cria conceitos e que
pensa criticamente sua realidade com os conceitos que criou. Uma pista para
pensarmos um outro ensino de filosofia estaria na proposta da filosofia
enquanto “oficina de conceitos”
proposta por Sílvio Gallo e que pode servir enquanto
uma ferramenta poderosa para nos contrapormos ao ensino bancário de filosofia. A concepção filosófica de Sílvio Gallo
é a de um ensino criador que passeia pelos problemas e conceitos da filosofia,
buscando trazer o aluno para o ato de refletir, criar conceitos e dissertar
sobre seu cotidiano. O objetivo aqui não é decorar
conceitos, mas criar conceitos.
Gallo em sua obra Metodologia
do ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio (2012) afirma que
existem três eixos consolidados de ensino de filosofia: eixo histórico, eixo
temático e eixo problemático. O autor acaba optando pelo eixo problemático e
argumenta em favor deste da seguinte maneira:
Em minha visão, essa abordagem abarca as duas
anteriores, na medida em que permite tanto o acesso aos temas filosóficos mais
relevantes quanto à história da filosofia. Mas também avança para além delas,
pois toma a filosofia como uma ação, uma atividade, posto que se organiza em
torno daquilo que motiva e impulsiona o filosofar, isto é, o problema. (Gallo, 2012, p.122).
A sua opção metodológico-filosófica pela via
do eixo problemático pode ser percebida em seu livro didático intitulado Filosofia: experiência do pensamento
(2016). Podemos notar isso ao reparar que o nome das unidades são problemas
filosóficos, vide o título da unidade 3 que é uma pergunta: “O que somos?”.
Pergunta essa que busca trazer o aluno para refletir sobre a problemática sobre
quem ele é e daí extrair os conceitos. Este processo pode ser resumido da
seguinte forma: “Em torno desses problemas, será possível trabalhar com temas
filosóficos, com a história da filosofia, com diferentes filósofos e seus
textos e conceitos [...]” (Gallo, 2012, p.94). O
autor, ao se afastar de uma abordagem unicamente bancária e histórica, não se
exime de passear pela história da filosofia, uma vez que os problemas
filosóficos podem ser recortados em temas e podemos explorar como tais temas
foram abordados ao longo da história da filosofia.
Enfatizamos que em nossa crítica ao ensino
bancário de filosofia não queremos negar o ensino da história da filosofia. Uma
vez que o próprio Gallo afirma que:
A recusa da tradição (história da filosofia)
que é a única maneira de manter vivo o
legado, continuamente criando e produzindo, só é possível a partir dessa
mesma tradição: nada criaremos se não a tomarmos como ponto de partida. (Gallo, 2012, p.43).
O problema aqui não é ensinar história da
filosofia e seus conceitos para o aluno, mas transformar o ensino apenas em “um
mero “contar histórias” e seu estudo um mero “escutar histórias” (Gallo, 2015, p.70-71). O que falta num ensino bancário de
filosofia é que o aluno mergulhe na experiência do conceito. A pedagogia do
conceito galleana consiste em fazer com que o aluno
possa experimentar o problema e produzir o conceito. Isso pode ser feito dentro
de um ensino de história da filosofia desde que o professor não esqueça de que
ele não é um depositador de conceitos, mas aquele que media a relação do aluno
com o conceito. O que buscamos aqui é um ensino de filosofia “que não seja uma
simples transmissão de informações, mas que seja um exercício do pensamento conceitual”
(Gallo, 2015, p.85). O aluno dentro deste processo
pode mergulhar na história da filosofia, mas não para sair dessa piscina como
um mero decorador de conceitos, mas como aquele que cria e recria conceitos
para pensar seu mundo.
Isto seria o procedimento de investigação que
o autor propõe: “Trata-se de buscar elementos que permitam a solução do
problema. Uma investigação filosófica busca os conceitos na história da
filosofia que possam servir como ferramentas para pensar o problema em questão”
(Gallo, 2012, p.97). Este processo se afasta de um
ensino frio e bancário e se volta num ensinar que busca sensibilizar, uma vez
que o primeiro passo para Gallo é “fazer com que o
tema “afete” os estudantes” (Gallo, 2012, p.96).
Podemos constatar, então, que diante de um ensinar bancário de filosofia
podemos optar por um ensino em que a filosofia assuma sua potência criadora de
conceitos. Podemos negar o papel do aluno enquanto mero depósito e enxergar ele
como aquele que tem contato com a filosofia de uma maneira ativa e criadora.
CONCLUSÃO
Podemos concluir que o ensino de filosofia,
quando estruturado no modelo de educação bancária, criticado por Paulo Freire,
torna-se um processo que nega a potência criadora conceitual dos alunos. Essa
abordagem limita a filosofia a um mero depósito de conceitos da história da
filosofia, negando sua potência criadora. Para superar essa limitação, é
necessário adotar um modelo de ensinar filosofia que estimule o aluno a imergir
no conceito e a criar e recriar o mesmo. A proposta da “oficina de conceitos”
de Sílvio Gallo consiste nesta reformulação dos
conceitos feita pelo aluno.
Sílvio Gallo é um forte
embasamento contra o ensino bancário de filosofia porque ele mesmo rejeita o
mero ato de decorar conceitos da filosofia vigente no ensino bancário: “Não
pense que ela é só mais um conjunto de informações e conteúdos
que você pode decorar e esquecer depois” (Gallo,
2016, p.3). Ele apresenta a metáfora da filosofia enquanto uma “caixa de
ferramentas”:
Certa vez, um filósofo afirmou que as teorias são como
“caixas de ferramentas”. Quando temos um problema a ser enfrentado, procuramos
na caixa uma ferramenta, ou melhor, um conceito que nos sirva. Caso nada dessa
nova caixa sirva, teremos de fazer adaptações, modificando uma ou mais
ferramentas para que se tornem adequadas. Às vezes teremos até mesmo de
inventar uma nova ferramenta. (Gallo, 2016, p.3).
O ensino de filosofia que queremos propor aqui não é um
ensino pautado no modelo bancário de mera decoração de conceitos e história da
filosofia. Mas um ensino que incentiva o professor a ver que seus alunos
possuem uma potência de filosofar e criar conceitos. Filosofar é uma
possibilidade para esses alunos, e a maneira que o professor pode fazer para
que ele assuma essa vocação criadora é sensibilizando o mesmo para o problema
filosófico. O que obtemos aqui é uma saída metodológica para ensinar a
filosofia de um modo ativo, conclamando o aluno para embarcar na história da
filosofia não para ser um mero decorador, mas um criador que passeia junto de
Kant, Platão, Hegel e demais filósofos da nossa tradição.
REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? São Paulo: Editora
34, 2010.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 54. ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 2022a.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
74. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022b.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GALLO, Sílvio. Filosofia experiência do pensamento. 2. Ed. São Paulo: Scipione,
2016.
GALLO, Sílvio. Metodologia do ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio.
Campinas: Papirus, 2012.
LINS, M. J. S. DA C. Educação
bancária: uma questão filosófica de aprendizagem. Revista Educação e Cultura Contemporânea, v. 8, n. 16, 12 jun.
2011.
[40] Mestrando
em Filosofia no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFPE. Fui coordenador
de Filosofia do pré-vestibular - Portal UFPE. E-mail: pablo.iii@ufpe.br
[41] Graduando em Filosofia pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE). Tenho interesse em filosofia moderna, com ênfase
no pensamento de Jean-Jacques Rousseau, além de educação e história da
educação. Aluno
participante bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência
(PIBID) pela segunda ocasião. Também participei como docente em projetos de
pré-vestibulares famosos, como o PrevUPE e o Portal
da Universidade de Pernambuco e o Portal da UFPE. E-mail: edelsonramos380@gmail.com
[42] Assim como o corpo necessita de exercícios, a razão deve ser
exercitada e deve-se atender esta condição para o desenvolvimento da mesma.
Este ponto é bem parecido com a educação proposta na antiguidade, onde a
ginástica fazia parte da formação, como hoje também temos educação física nas
escolas do ensino básico.
[43] Sílvio Gallo se pauta na
definição de filosofia enquanto “atividade criadora de conceitos” proposta por
Gilles Deleuze e Félix Guattari no livro O que é filosofia? (2010). Eis a
definição de filosofia dos autores: “A filosofia, mais rigorosamente, é a
disciplina que consiste em criar conceitos” (Deleuze; Guattari,
2010, p.4) e o filósofo entra como “àquele que o tem em potência, ou que tem
sua potência e sua competência” (Deleuze; Guattari,
2010, p.4) para tal atividade de criação conceitual.