Recebido
em: 10/07/2025
Aprovado
em: 04/08/2025
Publicado
em: 23/12/2025
RESENHA
O ASPECTO
EPISTÊMICO DOS AFETOS
STICHTER,
Matt; FRIDLAND, Ellen. Emotional self-knowledge: how
affective skills reveal our values, goals, cares, and concerns. Cambridge (Reino Unido): Cambridge University Press, 2025. 68 p. ISBN: 978-1-009-30784-0.
Fábio Luiz Nunes[109]
A
superação da dicotomia cartesiana entre razão e emoção constitui um dos
desenvolvimentos teóricos mais significativos nas ciências cognitivas e na
filosofia da mente do final do século XX e início do século XXI. Investigações
como as de Damásio (1994), a respeito do papel dos marcadores somáticos na
tomada de decisão, e as de Barrett (2017), sobre a construção neurobiológica
dos afetos, têm estabelecido que os processos emocionais são componentes
integrais e não meramente acessórios da cognição humana. Nesse fértil
campo de estudo, inaugura-se a obra
Emotional self-knowledge: how affective skills reveal our values, goals,
cares, and concerns (Cambridge University Press, 2025), de Matt Stichter e Ellen Fridland. O trabalho, que é objeto desta
resenha, contribui com as discussões da área ao partir do pressuposto de que o
autoconhecimento afetivo, concebido como uma competência passível de
aprimoramento, funciona como um mecanismo epistêmico primordial para a
revelação de valores, metas e preocupações inerentes ao sujeito humano.
Matt Stichter e Ellen Fridland são
filósofos de origem estadunidense, cujas trajetórias acadêmicas se complementam
na convergência da filosofia com a psicologia empírica. Stichter,
professor na Washington State University,
é reconhecido por sua tese da virtude como habilidade, defendida no
trabalho The skillfulness of
virtue (Cambridge University
Press, 2018), na qual põe em contato a ética da virtude com a psicologia da
autorregulação e da expertise. Sua
produção recente inclui o artigo Flourishing
goals, metacognitive skills, and the virtue of wisdom (2024). Por seu turno, Fridland,
pesquisadora sênior visitante no King’s College London, concentra suas pesquisas na filosofia da
habilidade e do controle motor e estratégico, com publicações como Skill and strategic control
(2021).
Stichter e Fridland (2025)
iniciam sua obra mencionando que o autoconhecimento emocional, que é definido
como a cognição dos próprios sentimentos, derivada da atenção às experiências
corporificadas, representa uma categoria fundamental, porém negligenciada, da autocompreensão. Os autores posicionam esse tipo de
conhecimento no domínio do que chamam de “substancial”, o qual detém uma
considerável utilidade prática para o alinhamento de ações com valores,
objetivos e preocupações pessoais. A dificuldade na aquisição desse saber,
ponto também investigado por pesquisadores como Tooming
e Miyazono (2023), é associada por estes últimos às
elevadas demandas probatórias, especialmente o desafio da previsão afetiva. Stichter e Fridland (2025)
instituem um modelo no qual as emoções operam como avaliações corporificadas
(“embodied appraisals”),
vinculadas diretamente às metas do indivíduo, o que estabelece a base para o
desenvolvimento de sua ideia-chave.
No
capítulo seguinte à introdução, intitulado The puzzle of
“feeling well”, os autores mergulham na questão
central sobre por que uma percepção apurada dos próprios estados afetivos e
corporais se correlacionaria positivamente com a saúde mental. Stichter e Fridland (2025)
organizam dados empíricos que sustentam essa conexão, junto aos quais fazem uso
de conceitos como granularidade emocional e precisão interoceptiva,[110]
além de apontar para psicopatologias como a alexitimia,
nas quais essa consciência é deficitária. Concentrada no valor epistêmico das
sensações internas, essa abordagem pode ser justaposta, por exemplo, à
perspectiva de Wilson e Dunn (2004), para quem o
autoconhecimento é um processo construtivo. Segundo esses autores, a obtenção
de consciência sobre estados não conscientes depende menos da introspecção
direta e mais de métodos indiretos, como a observação do próprio comportamento
para inferir disposições subjacentes. Essa diferença conduz, ao menos em certo
grau, a uma tensão teórica: se o argumento de Stichter
e Fridland (2025) se apoia na premissa de que a
atenção ao corpo revela algo, o enquadramento de estudiosos como Wilson e Dunn (2004) sugere que tal atenção pode ser parte de uma
construção inferencial de narrativas sobre si, em vez de uma percepção direta
de um estado preexistente.
No
capítulo três, intitulado Solving the puzzle, os autores vão defender que o
autoconhecimento emocional e corporal é indispensável para a compreensão dos
próprios valores, metas, interesses e preocupações. Eles fundamentam que
emoções funcionam como mecanismos de monitoramento orgânico, o que permite ao
indivíduo acessar informações sobre o alinhamento entre estados afetivos e objetivos
pessoais. Essa visão se sustenta por teorias interdisciplinares, a exemplo da
cibernética e da teoria do controle, que indicam o papel das emoções no ajuste
comportamental em função do progresso ou obstáculo em relação a metas.
Ainda
nesse capítulo, Stichter e Fridland
(2025) argumentam que as emoções não fornecem apenas acesso a propriedades
avaliativas do mundo externo, uma vez que constituem um caminho privilegiado
para o autoconhecimento dos próprios valores. Os filósofos propõem que o
reconhecimento de estados emocionais permite identificar o valor subjetivo
atribuído a situações, pessoas e atividades, independentemente da precisão da
avaliação normativa externa.
Nesse
ponto, a discussão sobre Stichter e Fridland (2025) enriquece-se com algumas comparações
empíricas, como o estudo de Nelissen, Dijker e de Vries (2007), que põe
sob exame a associação entre emoções e valores a partir de dados da frequência
de experiências emocionais e da importância atribuída a diferentes valores. Os
resultados desse estudo confirmam que emoções específicas, como medo e raiva,
estão respectivamente relacionadas a valores correspondentes, como segurança e
poder. Tal constatação endossa a posição dos autores resenhados a respeito da
interdependência entre estados afetivos e metas, mas também sugere que a
relação entre emoções e valores pode ser empiricamente mensurada e não se
limita ao domínio da introspecção filosófica.
No
capítulo quatro, Emotions and self-knowledge, os
autores pormenorizam a análise do papel das emoções na aquisição de
autoconhecimento. Stichter e Fridland
(2025) entendem que a consciência dos próprios estados emocionais fornece
conhecimento imediato sobre a existência de conflitos ou alinhamentos entre
situações vividas e objetivos pessoais. Eles salientam que o reconhecimento de
uma emoção, como o mau humor, já indica uma dissonância subjacente, motivando a
investigação das causas e possíveis estratégias de regulação.
Stichter e Fridland (2025) podem
ser interpretados a partir dos dados recentes apresentados pela Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que demonstra que
habilidades socioemocionais, como otimismo, resistência ao estresse e energia,
estão fortemente associadas ao bem-estar subjetivo, à satisfação com a vida e
ao desempenho acadêmico de adolescentes em diversos países (OECD, 2024). A
organização ressalta ainda que tais habilidades não são distribuídas de maneira
equitativa entre grupos socioeconômicos, de gênero ou idade, sugerindo que
condicionantes contextuais exercem influência significativa sobre o
desenvolvimento e a manifestação das competências emocionais. Essa constatação
empírica amplia, como se vê, as proposições de Stichter
e Fridland (2025), pois apontam que o
autoconhecimento emocional está inserido em e atravessado por dinâmicas sociais
e institucionais.
Os
autores discutem casos em que emoções entram em conflito com julgamentos
deliberativos, principalmente em contextos de opressão ou internalização de
normas sociais. Os pesquisadores utilizam a expressão “emoções fora da lei” (“outlaw emotions”)
para ilustrar situações em que estados afetivos persistem mesmo diante de
sistemas de crenças internalizados, funcionando como indicadores de metas ou
valores não reconhecidos conscientemente. Argumenta-se que tais emoções devem
ser levadas a sério como fontes de autoconhecimento, uma vez que revelam
conflitos internos e podem motivar processos de revisão de objetivos e valores
pessoais.
Em
Self-knowledge can be difficult to
acquire, o quinto capítulo, Stichter
e Fridland (2025) afirmam que o autoconhecimento
emocional não é um processo transparente ou direto. Segundo os autores, fatores
sociais, familiares e culturais exercem uma influência substancial sobre a
experiência e a expressão das emoções, estabelecendo normas sobre quais
sentimentos são apropriados, para quem e em que circunstâncias. Essas
convenções podem levar à inibição, supressão ou ocultação de emoções,
dificultando sua utilização como ferramenta para a autocompreensão.
A dificuldade centra-se na separação entre esses elementos contextuais e a
experiência emocional individual. À medida que identificam impedimentos ao
autoconhecimento tanto de ordem motivacional (como a repressão e a supressão de
pensamentos indesejados) quanto de ordem não motivacional (como a
inacessibilidade de vastos processos mentais à consciência devido à própria
arquitetura da mente), Wilson e Dunn (2004)
aprofundam as considerações dos autores resenhados.
Para
superar tais dificuldades, Stichter e Fridland (2025) propõem que a consciência emocional pode
ser aprimorada por meio de prática deliberada. A possibilidade de
aperfeiçoamento indica que o autoconhecimento não é uma condição inata ou
plenamente manifesta. Os autores adaptam um modelo tripartite de habilidade (compreendendo
os níveis estratégico, atencional e motor) para a esfera
epistêmica, substituindo o controle motor pelo controle afetivo. Práticas como
a atenção plena (ou mindfulness) e,
notadamente, a diferenciação emocional são apontadas como métodos para cultivar
essa competência. A investigação de Korbel e Paulus (2017) certamente corrobora essa noção, demonstrando
que práticas pedagógicas modernas, a exemplo do trabalho em pequenos grupos,
impactam positivamente habilidades socioemocionais como a motivação intrínseca
e a autoconfiança, sem prejuízo para o desempenho acadêmico medido por testes.
Os
filósofos sustentam que o desenvolvimento de habilidades afetivo-corporais
promove transformações qualitativas na autoexperiência.
A aquisição de uma habilidade constitui um processo de reconfiguração interna
que altera a percepção, a motivação e a interação com o ambiente. Um indivíduo
com baixa diferenciação emocional, por exemplo, pode relatar apenas que “se
sente mal”, enquanto um indivíduo habilidoso é capaz de categorizar sua
experiência como um estado afetivo discreto, como nojo ou raiva, o que
representa uma vivência qualitativamente distinta e não apenas um conhecimento
adicional sobre o sentimento. Essa transformação possui correlatos
fisiológicos, como a modulação da atividade da amígdala. Tal processo de
reconfiguração do eu por meio da prática se conecta à ideia de que a
introspecção é um processo construtivo de narrativas pessoais (Wilson; Dunn, 2004). A construção de uma narrativa coerente sobre
eventos traumáticos, por exemplo, pode levar a desfechos benéficos, ilustrando
como um trabalho introspectivo direcionado resulta em uma auto-organização mais
funcional.
O
sexto e último capítulo da obra funciona como uma recapitulação dos argumentos
centrais desenvolvidos. Os autores revisitam a questão norteadora sobre a forte
associação entre o autoconhecimento corporal-emocional e o bem-estar mental.
Eles retomam seu modelo teórico principal, que, como já visto concebe as
emoções como avaliações corporificadas, as quais conectam estados fisiológicos
aos objetivos, valores, cuidados e preocupações de um indivíduo. A conclusão
reitera que, não obstante o autoconhecimento emocional possa ser de difícil
aquisição, há caminhos para seu desenvolvimento, como a prática deliberada da
atenção plena e da diferenciação emocional. Por último, os autores reafirmam a
hipótese de que o aprimoramento dessas habilidades afetivas pode estimular
mudanças qualitativas na experiência emocional e colocam seu trabalho como um ponto
de partida para futuras investigações filosóficas e empíricas sobre o tema.
O
trabalho de Stichter e Fridland
(2025), como se nota, é um significativo contributo para a teoria do
autoconhecimento, ao erigir uma ponte consistente entre o discurso filosófico e
as evidências experimentais oriundas da psicologia e das neurociências. A
proposição central, a de que autoconhecimento emocional é uma habilidade
desenvolvida por meio da atenção a avaliações corporificadas que, por sua vez,
expõem os “objetivos” do sujeito, revela-se simultaneamente inovadora e
apresentada de forma contundente.
Um
mérito fundamental do livro é a especificação minuciosa das emoções como
avaliações corporificadas, uma definição que ultrapassa teorias exclusivamente
cognitivistas ou sensoriais. A fundamentação dessas avaliações em predições interoceptivas e no afeto nuclear (“core affect”) oferece uma explicação neurobiologicamente
verossímil de como o próprio organismo funciona como um sistema informacional.
Isso esclarece por que a atenção a sinais somáticos configura uma rota válida
para o autoconhecimento. Ademais, esse enquadramento teórico dá base a
correlações empíricas sistemáticas entre emoções específicas e sistemas de
valores (Nelissen; Dijker;
de Vries, 2007). A forma como os autores tratam as
“emoções fora da lei” é particularmente relevante, pois demonstra como reações
afetivas em incongruência com ideologias hegemônicas podem servir como fonte de
autodescoberta, aprofundando a compreensão acerca do caráter construtivo das
reconstituições autobiográficas (Wilson; Dunn, 2004).
A
obra situa-se como um trabalho que redireciona o discurso sobre o
autoconhecimento para as dimensões emocional e corporal. Sua principal
realização é a construção de um modelo multidisciplinar que atribui respaldo
teórico ao conhecimento aplicado em diversas tradições clínicas e
contemplativas. O livro traça diretrizes para pesquisas futuras: investigações
devem testar empiricamente a estrutura tripartida de aquisição de competência
afetiva, em especial por meio de estudos longitudinais que monitorem o
desenvolvimento da precisão interoceptiva em paralelo
às mudanças na formulação de objetivos e na satisfação com a vida. Além disso,
o trabalho convida a uma análise filosófica mais aprofundada dos aspectos
normativos do autoconhecimento emocional, sobretudo no que concerne à resolução
entre metas conflitantes reveladas pelas avaliações corporificadas.
REFERÊNCIAS
BARRETT, L. F. How emotions are made: the
secret life of the brain. Boston (Estados Unidos da
América): Houghton Mifflin Harcourt, 2017.
DAMÁSIO, A. R. Descartes’ error: emotion,
reason, and the human brain. New York (Estados Unidos
da América): Putnam, 1994.
KORBEL, V.; PAULUS, M. Do teaching practices impact socio-emotional skills?. Prague (Tchéquia): Charles University, Institute of Economic
Studies (IES), 2017. (IES Working Paper, n. 04/2017).
NELISSEN, R. M. A.; DIJKER, A. J. M.; DE VRIES, N. K.
Emotions and goals: assessing relations between values and emotions. Cognition
and Emotion, [s. l.], v. 21, n. 4, p. 902-911, 2007.
Organisation for Economic
Co-operation and Development (OECD). Social and emotional
skills for better lives: findings from the OECD survey on social and
emotional skills 2023. Paris
(França): OECD Publishing, 2024. Disponível em:
https://doi.org/10.1787/35ca7b7c-en. Acesso
em: 10 jul. 2025.
STICHTER, M.; FRIDLAND, E. Emotional self-knowledge:
how affective skills reveal our values, goals, cares, and concerns. Cambridge (Reino Unido): Cambridge
University Press, 2025.
TOOMING, U.; MIYAZONO, K. Affective forecasting and
substantial self-knowledge. In: MONTES SÁNCHEZ, A.; SALICE, A. (ed.). Emotional
self-knowledge. New York (Estados Unidos da
América): Routledge, 2023. p. 17-38.
WILSON, T. D.; DUNN, E. W. Self-knowledge: its limits,
value, and potential for improvement. Annual Review of
Psychology,
[s. l.], v. 55, p. 493-518, 2004.
[109] Mestre e doutorando em Estudos
Linguísticos pela UFMG. Especialista em Didática, Práticas de Ensino e
Tecnologias Educacionais pela UFVJM, e em Retórica e Análise do Discurso em
Publicidade e Propaganda pela Universidade de Araraquara. Psicólogo pela
Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Profissional
técnico-administrativo no CEFET-MG. Currículo: http://lattes.cnpq.br/3054450943770058.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0784-1921. E-mail:
fabio.nunes.fln@cefetmg.br.
[110] De acordo com Stichter
e Fridland (2025), a granularidade emocional
(ou diferenciação emocional) é a capacidade de categorizar experiências
emocionais de forma específica e precisa, distinguindo, por exemplo, raiva de
medo. Já a precisão interoceptiva refere-se à
acurácia na detecção de sinais fisiológicos internos, como a frequência
cardíaca. Os autores argumentam que a habilidade de perceber essas sensações
corporais é uma via para a autoconsciência emocional, sendo que ambas as
capacidades estão associadas a uma melhor saúde mental e regulação afetiva.