Recebido em: 15/07/2025

Aprovado em: 15/12/2025

Publicado em: 23/12/2025

 

O BIOPODER E A BIOTECNOLOGIA CONTEMPORÂNEA: o manejo dos corpos no contexto da era biotecnológica

 

BIOPOWER AND CONTEMPORARY BIOTECHNOLOGY: the management of bodies in the context of the biotechnological era

 

Felipe Augusto Alves Soares[77]

 

Resumo

Para o autor Michel Foucault, o poder se apresenta nas relações sociais, sendo ele mesmo uma relação. Ao longo da história diferentes tecnologias sociais se apropriaram do corpo, este imerso num campo de relações de poder. A partir dos séculos XVII e XVIII o filósofo observa o aparecimento de um novo arranjo nas relações de poder no ocidente, um fenômeno político da apreensão do corpo como entidade biológica, sujeito aos fenômenos de população descritos na biologia. A partir daí uma série de tecnologias de controle do corpo passam a ser implementadas, visando majorar suas potências, aumentar sua utilidade e docilidade. Entretanto, com os desenvolvimentos recentes da biotecnologia, que se apropria do organismo como máquina (como na anátomo-política do biopoder), as tecnologias sociais de controle do biopoder parecem alcançar possibilidades de assenhorar-se do corpo em escala que Foucault não testemunhou. É necessária uma investigação que tome a biotecnologia nos termos do biopoder. Este artigo, de caráter teórico, construído a partir de pesquisa bibliográfica, pretende tematizar a possibilidade de interpretar os eventos recentes do desenvolvimento da biotecnologia como um acirramento das tecnologias do biopoder, no sentido de representar um refinamento e aprofundamento de sua agência, expondo a escala dos processos biomoleculares do corpo aos mais diversos interesses políticos e econômicos. A partir deste acirramento, pretende-se refletir acerca das possibilidades e perigos de tal cenário de intervenção, levando a indagar as novas tecnologias sociais de controle ensejadas pelo desenvolvimento da tecnologia científica, especificamente da biotecnologia moderna.

Palavras-chave: Biopoder. Biopolítica. Biotecnologia.

 

Abstract

For the author Michel Foucault, power is presented in social relations, being itself a relation. Throughout history, different social technologies have appropriated the body, immersed in a field of power relations. From the 17th and 18th centuries onward, the philosopher observes the emergence of a new arrangement in power relations in the West, a political phenomenon of the apprehension of the body as a biological entity, subject to the population phenomena described in biology. From then on, a series of technologies for controlling the body began to be implemented, aiming to enhance its powers, increase its utility and docility. However, with the recent developments in biotechnology, which appropriates the organism as a machine (as in the anatomo-politics of biopower), social technologies of biopower control seem to reach possibilities of seizing the body on a scale that Foucault did not witness. An investigation is necessary that takes biotechnology in the terms of biopower. This article, of a theoretical nature, built from bibliographic research, aims to discuss the possibility of interpreting recent events in the development of biotechnology as an intensification of biopower technologies, representing a refinement and deepening of its agency, exposing the scale of biomolecular processes of the body to various political and economic interests. From this intensification, it aims to reflect on the possibilities and dangers of such an intervention scenario, leading to inquiries about the new social control technologies prompted by the development of scientific technology, specifically modern biotechnology.

Keywords: Biopower, Biopolitics. Biotechnology.

 

INTRODUÇÃO

O poder costuma ser compreendido como a possibilidade de dirigir as ações de outrem. De acordo com o “Vocabulário de Foucault” (Castro, 2009), o poder na ótica do autor não se constitui substância nem qualidade, não é algo que se pode possuir ou ter, mas exercer, algo entrelaçado nas relações de comunicação. A visão do autor contrasta com outras visões correntes que tinham no poder a qualidade das operações que visavam garantir a soberania de uma classe e a repressão de outra, como concepções de teóricos clássicos como Hobbes ou as de intelectuais da escola de Frankfurt posteriormente. Um poder horizontal como este que Foucault descreve apresenta-se múltiplo e repleto de agentes e estratégias de efetuação, que também se transformam e deslocam com a história.

O corpo, central na obra de Foucault, é compreendido como imerso num campo de forças político[78], estando sujeito a demandas que o marcam, dirigem e subjugam na medida das exigências políticas que dele extraem sua força. Enquanto traça sua “Microfísica do Poder” (Foucault, 1999), o autor entende que este campo de poder se coloca entre os “[...] grandes funcionamentos [...]” (Foucault, 1999, p. 30), ou seja, os funcionamentos de massas num contexto em que as instituições disputam o corpo, e o corpo em si mesmo. Nessas formações sociais, o poder emerge não como uma posse de certos grupos, mas como o efeito das posições dos sujeitos em uma materialidade. Portanto, o poder atravessa inclusive aqueles que, em teoria, não o possuem, se efetivando neles. Mesmo as resistências ao poder, aponta o autor, “[...] apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança [...]” (Foucault, 1999, 30). Ou seja, fica nítido um poder que se dá nas próprias relações sociais, que se coloca nelas, aparece nelas, que é ele mesmo uma relação.

Foucault descreve as relações de poder como “um modo de ação que não age direta e imediatamente sobre os outros, mas que age sobre a sua própria ação” (Foucault, 1995, p. 243). Em seu livro “Foucault”, Gilles Deleuse destaca que “o exercício do poder aparece como um afeto, já que a própria força se define por seu poder de afetar outras forças (com as quais ela está em relação) e de ser afetada por outras forças” (Deleuze, 2005, p. 79). O poder aparece, portanto, envolvido em um conjunto complexo de relações, como característica destas relações, forças sobre forças em um emaranhado de influências que dirigem as ações dos humanos.

A disciplina, para Ferreirinha e Raitz (Ferreirinha e Raitz, 2010, p. 371) evidencia melhor as relações de poder, pois esta seria a base para estabelecer essas relações. Apresentam então o triângulo de Foucault, formado pelo poder, o direito e a verdade. O poder se apresenta então como direito, pelos arranjos sociais em movimento que o determinam, e como verdade, pois a produz e necessita dela para funcionar.

No pensamento do filosofo, poder e saber constituem relação indissociável. Foucault afirma que estes implicam diretamente um no outro, exigindo o poder um campo de saber próprio e o saber constituindo sempre relações de poder. Saber sobre o corpo, portanto, não seria apenas o conhecimento dos seus funcionamentos, mas um conjunto de relações específicas com ele, no que Foucault classifica como “tecnologia política do corpo” (Foucault, 1999, p. 29). Essa tecnologia não pode ser apenas localizada no estado, estando difusa, operando por diversos mecanismos que tomam o corpo.

Foucault oferece em seus escritos condições para observar eventos discursivos e políticos a partir de suas condições de emergência, ou seja, de sua história. O poder, sendo simultaneamente efeito e resultado das dinâmicas sociais e dos arranjos políticos está também sujeito a modificar-se ao longo da história. Afinal, condições históricas, políticas e materiais diferentes exigirão outros mecanismos e estratégias no sentido da garantia de sua manutenção. Ao longo da história e do próprio pensamento foucaultiano vemos os mecanismos de efetuação dos poderes sofrerem transformações.

Das rupturas características da história do poder, esta revela-se muito importante para compreender as transformações das formas pelas quais se exerce controle sobre as populações: aquela da passagem do que Foucault coloca como o poder soberano dos estados pré-modernos ao biopoder surgido posteriormente. Para o filósofo esta nova modalidade de poder, esta nova estratégia de efetivação do mesmo, surgida e levada a cabo nos séculos XVII e XVIII é caracterizada pelo investimento político sobre o corpo vivo, diferenciando-se do poder exercido a partir do direito de matar.

Foucault (1999) reconhece como um dos privilégios característicos do poder soberano pré-moderno o poder sobre a vida e a morte. Esta característica parece atravessar longos períodos da história do poder no ocidente, da idade antiga à chamada “época clássica” – expressão pela qual Foucault se refere aos séculos XVII e XVIII (Castro, 2009). Como Foucault (1999) argumenta, este poder sobre a vida e a morte até então funcionava de maneira assimétrica: o poder sobre a vida, em última instância, era fundamentado no poder sobre a morte. Isto ocorre, como bem ressalta Foucault, de maneira óbvia entre os soberanos antigos, homens que dispunham de autoridade para matar seus súditos, servos, familiares e escravos ao bel prazer, pelas prerrogativas mesmas de suas posições; e de maneira atenuada entre os soberanos como interpretados pelos chamados “teóricos clássicos”, que advogavam pelo poder que o soberano possui de convocar os súditos à guerra e ao castigo, ou seja, “[...] expondo-lhes a vida [...]” (Foucault, 1999, p. 127). Em ambos os casos, se exerce um poder sobre a vida a partir da morte, do direito de matar que o soberano pode impor ou suprimir.

No segundo caso, Foucault (1999) pergunta-se se o direito de exigir a morte se desdobraria do direito de preservar a própria vida teorizado por Hobbes quando estendido ao soberano. Essa pergunta parece antecipar a virada proposta por Foucault: a noção de que, a partir do século XVIII, um novo arranjo aparece nos mecanismos de poder, um que se desloca da morte em direção à vida. Se o direito de autoproteção do soberano implicava dispor das vidas dos súditos, a proteção da vida da população justificaria toda uma outra série de procedimentos a nível das instituições e do estado. Acontece que, na perspectiva do autor, a Modernidade instaurou novas formas de controle da população que se engajavam diretamente na vida e em seus processos. Ao invés da possibilidade de sua supressão, os poderes agora se ocupariam de sua gestão, vigilância e organização (Foucault, 1999). O humano, tomado a partir daí como entidade biológica a nível de sujeito e de população, é agora escrutinado pela racionalidade científica, ao passo em que esta opera para aumentar a eficácia de seus processos, ajustando os corpos vivos ao sistema econômico (Foucault, 1999). Esta nova forma de exercer poder inaugura uma realidade política para o corpo compatível com a economia capitalista então em desenvolvimento: os processos orgânicos do corpo e os biológicos de população passam a ser domínio de investimento político que busca ajustar estes fenômenos às necessidades da economia capitalista.

Dado o biopoder como concebido por Michel Foucault para interpretar os eventos dos séculos XVII e XVIII, com a ascensão do liberalismo e do capitalismo, e os sentidos da agência desse poder, coloca-se a pergunta-problema que norteará este trabalho: quais os desdobramentos contemporâneos do conceito de biopoder tendo em vista os avanços recentes da biotecnologia? Para responder a essa questão fundamental, será necessário 1) elucidar o conceito de biopoder a partir do seu desenvolvimento no pensamento de Michel Foucault; 2) compreender, a partir do conceito de Foucault, e de suas interpretações correntes, qual o alcance e os limites do conceito para pensar os eventos recentes envolvendo a biotecnologia moderna; e 3) investigar, a partir dos novos arranjos da anátomo-política e da biopolítica, a ampliação do campo de agência do biopoder, propondo uma interpretação que dê conta dos investimentos contemporâneos sobre o corpo vivo por parte da biotecnologia.

Desse modo, este artigo constitui um estudo justificado pela literatura atual no que diz respeito ao biopoder no pensamento de Foucault, especificamente no âmbito do desenvolvimento das tecnologias que tomam por alvo a vida, e pelas contribuições que pode apresentar tanto para o desenvolvimento das interpretações contemporâneas do biopoder quanto para as reflexões acerca da natureza, das relações e impactos do desenvolvimento da biotecnologia moderna, considerando-a como instrumento das técnicas de poder sobre o corpo e compreendendo que o desenvolvimento daquelas representa um refinamento destas, além de uma ampliação de seus poderes.

 

O BIOPODER: BIOPOLÍTICA E ANÁTOMO-POLÍTICA

Para Foucault (1999), o desenvolvimento do regime capitalista e a correspondente apropriação da força de trabalho só foi possível pela “[...] inserção controlada dos corpos à produção e por meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos econômicos [...]” (Foucault, 1999, p. 132). O filósofo compreende que esses movimentos de ajuste e inserção se dão pelo “[...] reforço quanto de sua utilizabilidade [...]”, visando “[...] majorar suas forças, as aptidões, a vida em geral [...]” (Foucault, 1999, p. 132). O que ocorre no corpo e na casa, a higiene, a doença e o sexo passam a ser percebidos como espaços de exercício de determinadas forças, da aplicação de certas normas, ou seja, passam a ser reconhecidos como territórios de interesse de múltiplos agentes.

Foucault (1999) delimita dois segmentos a partir dos quais esta nova forma de poder se coloca, realçando a interação entre ambos no desenvolvimento desta: o segmento anátomo-político e o segmento biopolítico. Ambas as formas de poder sobre a vida passam a atuar, a partir do século XVII, no sentido da “[...] administração dos corpos [...]” e “[...] gestão calculista da vida [...]” (Foucault, 1999, p. 131). Uma das faces “individualizante”, no sentido da investigação das potências de um indivíduo por meio do estudo das propriedades de seu corpo, e outra “especificante”, no sentido do estabelecimento do humano como uma espécie, sujeita aos fenômenos de população descritos pela biologia.

            A Biopolítica consiste em uma tecnologia política de rastreamento, estudo, controle e gestão dos corpos a nível de população. No século XVIII, os regimes estatais começam a desenvolver interesse e implantar políticas em áreas como a natalidade, a longevidade, o saneamento, a saúde coletiva (Foucault, 1999). Esse interesse aparece na coleta de dados que dizem respeito às condições de salubridade e higiene, bem como na promoção de políticas que visam a adesão da população aos sistemas públicos de saúde e as práticas que estes recomendam, por sua vez baseados naqueles dados. Foucault (1999) interpreta que o objetivo mesmo de uma visão biologizante é uma gestão que busque “majorar” a vida, referindo-se à diminuição da mortalidade, da fome, do controle adequado da natalidade, do acesso ao saneamento, da adesão aos hábitos de higiene, entre outros. Os investimentos sobre os fenômenos de população, as campanhas de imunização, as de combate às drogas, as políticas de monitoramento acatam a diversos interesses econômicos, morais e culturais. A vida, sujeita a fenômenos agora analisados do ponto de visto da estatística da população de uma espécie, é vista como força produtiva, parece ter sido feita nicho de mercado, espaço de trânsito de mercadorias, trecho de rotas comerciais. Os valores liberais aparecem como pano de fundo da biopolítica, tornando-a inteligível[79].

            A anátomo-política por sua vez diz respeito ao surgimento das disciplinas que estudam o corpo em sua estrutura e composição. De acordo com Foucault “[...] centrou-se no corpo como máquina [...]” (Foucault, 1999, p. 131), pensamento recorrente entre os ditos teóricos clássicos, como Descartes e Hobbes. Este processo inaugurou uma extensa investigação a respeito do corpo e seu funcionamento. A analogia da máquina permite visualizar as ideias correntes acerca do corpo: um conjunto de mecanismos cuja função fundamental e objetivo último eram o trabalho. As disciplinas do corpo se ocupariam de desvendar os segredos do organismo, expondo seus trânsitos, movimentos, arranjos, descobertas essas acompanhadas da possibilidade de intervir. A intervenção (o “concerto” da máquina) poder-se-ia ser realizado agora a partir do conhecimento das funções orgânicas, de seu ajuste ou substituição. As próteses, os implantes, os medicamentos e as intervenções cirúrgicas constituíram a possibilidade de gerir localmente a vida.

            A anátomo-política, assim como a “anatomia política” (Foucault, 1987, p. 164) do corpo aparecem como elementos das chamadas “disciplinas”. Foucault as descreve como “métodos que permitem o controle minuscioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade” (Foucault, 1987, p. 164). Neste contexto, compreende-se que o corpo assume a centralidade enquanto objeto das relações de poder no pensamento do filósofo. Este direcionamento ao corpo o percorre em todas as dimensões, exigindo-lhe em todas as camadas. Essas exigências respondem a uma série de interesses, principalmente econômicos, sendo para o autor uma das “grandes invenções da sociedade burguesa” (Foucault, 1999, p. 43).

A questão se aprofunda quando pensamos a contemporaneidade. O desenvolvimento das formas através das quais os corpos podem ser manipulados[80] (as cirurgias, os implantes biológicos, as biotecnologias e as possibilidades de intervenção biomolecular), legal e ilegalmente, apontam para um novo horizonte de intervenção, no qual os diversos discursos e práticas atreladas ao corpo encontram um universo em expansão diante de si, um domínio de possibilidades até então muito pouco conhecidas que dizem respeito a processos pequeníssimos, cujas respostas a alterações podem ser imprevisíveis, resultando em tecnologias que carregam em si possibilidades maravilhosas e terríveis. Sem dúvidas, um campo tão amplo de intervenções responde a uma gama de demandas (estatais, morais, culturais, simbólicas e principalmente econômicas) que enxergam em tais processos biológicos a possibilidade de estabelecer rotas de interesse econômico.

As tecnologias contemporâneas da vida expandem este segmento do biopoder para além da vida, numa abordagem que se encontra aquém do indivíduo enquanto unidade. Foucault temia que, com o avanço da genética, o “equipamento genético” (Foucault, 2008, p. 313) humano, ou seja, o conjunto específico de caracteres genéticos dos indivíduos adentrasse nos cálculos econômicos do valor humano. As novas técnicas biomoleculares, as tecnologias farmacêuticas e a biotecnologia abrem uma verdadeira caixa de Pandora: a possibilidade de compreender processos tão minúsculos que poderiam ser infinitas as consequências de sua modificação. A estrutura nanométrica de uma proteína, um átomo trocado em uma molécula de fármaco, um nucleotídeo substituído em uma fita de ácido nucleico, todos esses eventos de um universo distante em muitas escalas da vida cotidiana podem desencadear uma imensidão de efeitos no corpo.

 

O BIOPODER CONTEMPORÂNEO

   O interesse comercial em processos vitais a certos organismos vem de longa data. A produção de leite pelas vacas ou de mel pelas abelhas, a fermentação realizada por leveduras utilizada na fabricação de pães e bebidas alcoólicas, as propriedades medicinais de metabólitos secundários de plantas, todos estes e uma infinidade de outros processos vêm sendo empregados pelos humanos, muitos deles traçando relações específicas com o corpo humano (através da alimentação ou uso terapêutico). Entretanto, após o século XX, uma nova gama de utilizações para os organismos aparece com o desenvolvimento da biotecnologia moderna, marcada pela possibilidade de controle minucioso desses processos. De acordo com Malajovich (2016), a divisão entre a biotecnologia clássica e a moderna se dá a partir dos experimentos de Herbert Boyer e Stanley Cohen que resultam, em 1973, na transferência de genes de um sapo a uma bactéria, trazendo à tona a possibilidade de manipulação genética de seres vivos. A partir deste grau de manipulação, é possível induzir os seres vivos a determinadas características, permitindo a manifestação fenotípica de propriedades de interesse comercial.

            A autora apresenta definições para a biotecnologia moderna, dentre as quais a oferecida por E. H. Houwink em 1989: “o uso controlado da informação biológica” (Malajovich, 2016, p. 2). Ou seja, a utilização de informações a respeito dos processos biológicos para determinados fins. Dentre as muitas áreas de interesse da biotecnologia, como a geração de energia ou uso industrial, interessam para nós aquelas que se relacionam com a gestão dos processos biológicos humanos, acompanhando a noção de anátomo-política do biopoder em Foucault. Desse modo, o seu uso para o estudo, mapeamento, manipulação e majoração dos processos do corpo humano parece intimamente relacionado com aqueles que começaram a se desenvolver no século XVII, alcançando, entretanto, um novo domínio de possibilidades e implicações políticas, uma vez deslocados os limites de apreensão dos processos do corpo e os da capacidade de intervenção nos mesmos.

            Um marco para tal deslocamento foi a finalização do projeto Genoma Humano[81] em 2003, iniciado em 1989 pela National Center of Human Genome Research com a finalidade de mapear o material genético humano. Tal marco completa um ciclo iniciado desde a descoberta do código genético, um elemento chave na compreensão dos fenômenos biológicos (Malajovich, 2016). A partir do código genético podem ser mapeados os caminhos através dos quais as células conduzem seus expedientes, permitindo identificar os pontos através dos quais as mesmas poderão exprimir ou não certas propriedades. Mapear o código genético humano permite compreender no nível mais fundamental as propriedades do organismo, seus mecanismos internos e suas relações com o meio. Toda esta compreensão aparece atrelada, pela natureza mesma da possibilidade de sua observação, com a biotecnologia e sua possibilidade de manipular estes elementos através de meios tecno-científicos. Esta intervenção de modo algum é neutra: desloca-se a partir dos interesses econômicos em torno da aplicação desses procedimentos, tanto no sentido do comércio destas tecnologias quanto no do interesse da biotecnologia no “melhoramento” do corpo em direção à apropriação pela economia capitalista. A amplitude das ciências e técnicas que objetam o corpo vivo e seus processos mais microscópicos suscita também o questionamento a respeito do alcance dos poderes institucionais sobre a vida, uma vez estabelecido um novo universo de possibilidades de intervenção.

Foucault (1999), entende neste processo a “biologização” da política. A simultaneidade e interdependência dos fenômenos políticos do biopoder e a ascensão do modo de produção capitalista também imbuem certa relação entre os processos biológicos – os no indivíduo e nas populações – e o regime de produtividade capitalista. Entretanto cabe questionar se a melhoria dos produtos, das condições de trabalho ou dos corpos dos trabalhadores são sempre parte da estratégia a partir da qual se constrói mercado e lucro. Ou seja, é preciso estar atento também aos lugares onde este biopoder opera no sentido de dificultar, enfraquecer, suprimir ou apenas desviar determinados processos da vida.

            Como aponta Edgardo Castro (2009), nas duas principais fontes nas quais Foucault descreve o biopoder, aparecem atrelados ao conceito as questões do racismo e da sexualidade. Carlos aponta que enquanto no “Em Defesa da Sociedade” se evidencia o “poder sobre a morte”, o último capítulo de “A História da Sexualidade I: A Vontade de Saber” trataria do poder sobre a vida, especialmente na questão da sexualidade (Castro, 2009, p. 57). Ou seja, enquanto no primeiro se explicitariam as formas através das quais torna-se lícito ao estado matar em nome do biopoder, no segundo se imprimiriam práticas de regulamentação compatíveis com o controle biológico da população, especialmente através da gestão da reprodução. Entretanto, cabe notar que também se mata em nome do sexo, mesmo que os discursos e práticas que regulam o sexo, com o desenvolvimento da medicina e da biotecnologia, se interesse pela sexualidade no sentido de melhorar as condições, o processo e o resultado da reprodução, explorando-o também em todas as suas nuances, todos os detalhes de seus componentes psicológicos, sociais, imagéticos, simbólicos e somáticos. Esta exploração, como a da terra, traça rotas, abre caminhos, incendeia terrenos, inicia culturas de determinados tipos adequados ao solo e ao que desejam os senhores e seus clientes. Trata-se antes de tudo, nos parece, de estabelecer determinados trânsitos de interesse, sobre os quais os o biopoder lançará estruturas, fará incidir efeitos, ao redor dos quais se produzirão as condições para que o mercado possa então operar. Além de objetivar a vida como alvo de majoração, o biopoder também abre o território da vida à investigação e exploração para os diversos agentes interessados em suas múltiplas possibilidades, ao passo que a própria investigação conduz a vida enquanto categoria a outras direções.

            Em seu artigo Biopower Today, Rabinow e Rose (2006) destacam três tópicos a partir dos quais a biopolítica parece operar hoje: a raça, a reprodução e a medicina genômica. Neste artigo os autores trabalham o alcance do biopoder para pensar o hoje. Sua principal linha argumentativa são os próprios desenvolvimentos das ciências e tecnologias da vida. A ampliação das possibilidades de descoberta e ação, a catalogação de infinitas condições atreladas a alterações invisíveis a não ser para estas tecnologias e as possibilidades de intervenção elevadas ao limite das interações moleculares sem dúvidas impõem novos paradigmas para pensar os poderes que se colocam sobre a vida. Os autores concordam que o biopoder segue sendo uma importante ferramenta de análise para pensar o presente (Rabinow e Rose, 2006). Ao relatar o papel uma reorganização epistemológica da doença presente no pensamento de Foucault, a partir da qual a ela se desprende de seu caráter natural e passa a ser associada mais intimamente com a morte – o que imprime à prática médica a atividade de combater a morte –, Garcia (2006) destaca o aparecimento da biotecnologia como um “negócio da esperança” cheio de possibilidades em um mundo adoecido. As biotecnologias aqui são enxergadas a partir da perspectiva se sua importância comercial e os discursos pelos quais se fazem vender.

            Diante do exposto, fica claro que o biopoder atual assume novas formas com a ampliação de sua agência. Enquanto se aprofundam as intervenções, novos lugares possíveis de apropriação vida se descobrem, novos arranjos correspondentes a diversos estados de interesse para o estado e o mercado. Se é verdade que o biopoder trata da “estatização da vida biologicamente considerada” (Castro, 2009, p. 57), também é verdade que os desdobramentos recentes das ciências e técnicas da vida transformam estas possibilidades de direcionamento político dos corpos, no sentido de espalhar sua amplitude ou de majorar seus efeitos, abrindo todo um novo campo (o dos processos biomoleculares) à observação e ação múltipla. O corpo está aberto para que se apliquem nele os mais diversos procedimentos.

É necessário compreender que o pano de fundo da biopolítica é o desenvolvimento das ciências ditas positivas, o estreitamento das relações entre o estado, o mercado e os cientistas, a introdução da medicina no âmbito das ciências formais e da política. “A medicina é uma estratégia biopolítica” (Foucault, 1990, p. 80). Em outras palavras, se o eixo dos eventos biopolíticos é a apropriação do corpo pelas tecnologias e ciências da vida e a introdução destas no campo da política, ou seja, nas formas de exercer poder, é necessário refletir sobre como os desdobramentos recentes destes conhecimentos e técnicas afetam na gestão distributiva dos corpos proposta por Foucault para o período clássico, investigando como esta gestão se dá no presente.

            Como define Foucault, o biopoder se desenvolve em duas formas distintas e dependentes, das quais a primeira a se desenvolver é a anátomo-política do século XVII, seguida pela biopolítica do século XVIII (Foucault, 1999). Uma vez que a anátomo-política se ocupou de compreender os processos biológicos dos corpos humanos (transformando-o em máquina), é fácil entender por que teve que surgir primeiro. Eram necessários ao regime conjuntos de demarcações, categorias, mecanismos e funções aos quais pudesse integrar seus expedientes[82]. Seguida da anátomo-política, a biopolítica passa a operar a partir da produção de espaços e procedimentos de regulamentação, medidas estas tomadas a nível de estado. Tais políticas de massas tem por base, desde o princípio, os elementos apresentados pela anátomo-política e suas descobertas. Nesse sentido, os conhecimentos fornecidos pelas pesquisas envolvendo os componentes e processos do corpo conduzem de alguma forma as ações das instituições direcionadas a estes corpos.

            A análise dos mecanismos e funções do corpo foi guiada pelo conhecimento de seus estados “normais” e/ou funcionais e à compreensão dos mecanismos por trás de suas afecções. Entretanto, é difícil pensar que para uma espécie de poder que, à altura da época clássica, estaria ainda abandonando o poder de morte como política ordinária tal estratégia de valoração da vida tenha se apresentado de forma tão espontânea. Não, as mãos dos regimes ainda estavam sujas de sangue e os regimes mantiveram-se sanguinários. A investigação do corpo não encaminha os olhos apenas para seus estados funcionais ou não funcionais, mas também para as combinações de multiestados, os cruzamentos, semelhanças e diferenças, as linhas de continuidade e descontinuidade, as rotas internas e todas as associações e analogias que acompanham estes eventos do corpo. Sem dúvidas a anátomo-política produz as condições nas quais pode-se aplicar a biopolítica, no sentido de ser seu pano de fundo, seu espaço de efetivação e condições de efetuação.

A observação minuciosa dos diversos processos biomoleculares do corpo é consequência também das políticas, discursos e tecnologias disponíveis, todos influenciados fortemente pelo biopoder. As novas formas de analisar o corpo e seus eventos ao mesmo tempo atualizam e deslocam o já capturado por estes poderes até então. Neste processo de retroalimentação, os novos conhecimentos sobre o corpo acomodam diversas formas de lidar com ele, em diferentes rumos e a partir de diferentes estratégias, no recém-aberto universo de possibilidades que agora os poderes sobre a vida podem explorar.

            Se interessa ao capitalismo e ao estado que o corpo seja produtivo, estes o garantirão através de diversas maneiras, de múltiplos procedimentos. Não é difícil vislumbrar práticas muito pouco proveitosas, ou mesmo nocivas, serem extremamente lucrativas para certos grupos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É possível compreender, a partir do conceito de biopoder proposto por Michel Foucault, que a biotecnologia contemporânea se insere numa gama de técnicas cujo objetivo é o manejo do corpo, o aprimoramento de sua utilizabilidade e sua docilidade. Os elementos da biotecnologia puderam ser identificados com o direcionamento e gerência dos corpos em direção à produção capitalista. Por sua vez, a biotecnologia também desloca o sentido do biopoder, uma vez que se apropria do corpo de maneira antes impossível, submetendo agora todos os microelementos do corpo à regulação. O avanço das biotecnologias que tomam por alvo o corpo humano deve ser refletido, tendo em vista o crescente domínio e intervenção nos menores espaços do corpo e o emprego cada vez mais amplo da biotecnologia na vida cotidiana. Compreendemos que a literatura a respeito é ampla e como perspectivas futuras este estudo pode ser ampliado para elaborar as formas específicas a partir das quais o biopoder se manifesta hodiernamente a partir das biotecnologias contemporâneas.

 

REFERÊNCIAS

 

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[77] Graduação em Farmácia pela Universidade Federal do Piauí (2022). Atualmente mestrando do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFPI, na linha de filosofia prática. Principais interesses incluem a interseção entre as ciências biomédicas e da saúde e a filosofia. E-mail: felipoauguste@hotmail.com

[78] “Mas o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais” (Foucault, 1999, p. 29).

[79] Passos (2017) aponta que para Foucault o liberalismo é “[...] a condição de inteligibilidade da biopolítica [...]” (Passos, 2017, p. 11). Em outro momento, afirma: “[...] Cálculos e mecanismos serão articulados no intuito de incluir a vida na esfera pública, atribuindo a esta um valor de ‘coisa’, que em um determinado momento deve ser preservada e em outros descartada [...]” (Passos, 2017, p. 2), demonstrando a relação entre a racionalidade liberal capitalista e a biopolítica no pensamento de Foucault.

[80] Algumas das técnicas da biotecnologia recente cujas consequências biológicas e éticas ainda estão para serem vistas: as terapias gênicas (edições genéticas em células somáticas, interferindo com a expressão gênica), os xenotransplantes de órgãos geneticamente modificados (com consequências ainda imprevisíveis tanto para o corpo humano quanto para as espécies utilizadas) e a edição gênica baseada nas propriedades do RNA (que permite realizar mutações de deleção ou inserção, alterando a sequência genética) (Malajovich, 2016).

[81] “We would like to argue that these two concepts, biopolitics and anatomopolitics, are conjoined in the Human Genome Project, where anátomo-politics becomes a macromolecular-politics” (Flowers e Heath, 1993, p. 29).

[82] De acordo com Eduardo Sugizaki, “Quanto à superfície de suporte, há uma diferença essencial entre a anátomo-política e a biopolítica. A diferença só se esclarece completamente quando deixa de ser indiferente à análise histórica que o saber-poder vise ao indivíduo ou à população. Essa diferença de superfície e de escala exige instrumentos novos” (Vidal e Castro, 2006, p.133).