Recebido
em: 15/07/2025
Aprovado
em: 15/12/2025
Publicado
em: 23/12/2025
O
BIOPODER E A BIOTECNOLOGIA CONTEMPORÂNEA: o manejo dos corpos no contexto da
era biotecnológica
BIOPOWER
AND CONTEMPORARY BIOTECHNOLOGY: the management of bodies in the context of the
biotechnological era
Felipe Augusto Alves
Soares[77]
Resumo
Para o autor Michel Foucault, o poder se apresenta
nas relações sociais, sendo ele mesmo uma relação. Ao longo da história
diferentes tecnologias sociais se apropriaram do corpo, este imerso num campo
de relações de poder. A partir dos séculos XVII e XVIII o filósofo observa o
aparecimento de um novo arranjo nas relações de poder no ocidente, um fenômeno
político da apreensão do corpo como entidade biológica, sujeito aos fenômenos
de população descritos na biologia. A partir daí uma série de tecnologias de
controle do corpo passam a ser implementadas, visando majorar suas potências,
aumentar sua utilidade e docilidade. Entretanto, com os desenvolvimentos
recentes da biotecnologia, que se apropria do organismo como máquina (como na
anátomo-política do biopoder), as tecnologias sociais de controle do biopoder
parecem alcançar possibilidades de assenhorar-se do corpo em escala que
Foucault não testemunhou. É necessária uma investigação que tome a biotecnologia
nos termos do biopoder. Este artigo, de caráter teórico, construído a partir de
pesquisa bibliográfica, pretende tematizar a possibilidade de interpretar os
eventos recentes do desenvolvimento da biotecnologia como um acirramento das
tecnologias do biopoder, no sentido de representar um refinamento e
aprofundamento de sua agência, expondo a escala dos processos biomoleculares do
corpo aos mais diversos interesses políticos e econômicos. A partir deste
acirramento, pretende-se refletir acerca das possibilidades e perigos de tal
cenário de intervenção, levando a indagar as novas tecnologias sociais de
controle ensejadas pelo desenvolvimento da tecnologia científica,
especificamente da biotecnologia moderna.
Palavras-chave:
Biopoder.
Biopolítica. Biotecnologia.
Abstract
For
the author Michel Foucault, power is presented in social relations, being
itself a relation. Throughout history, different social technologies have
appropriated the body, immersed in a field of power relations. From the 17th
and 18th centuries onward, the philosopher observes the emergence of a new
arrangement in power relations in the West, a political phenomenon of the
apprehension of the body as a biological entity, subject to the population
phenomena described in biology. From then on, a series of technologies for
controlling the body began to be implemented, aiming to enhance its powers,
increase its utility and docility. However, with the recent developments in
biotechnology, which appropriates the organism as a machine (as in the
anatomo-politics of biopower), social technologies of biopower control seem to
reach possibilities of seizing the body on a scale that Foucault did not
witness. An
investigation is necessary that takes biotechnology in the terms of biopower.
This article, of a theoretical nature, built from bibliographic research, aims
to discuss the possibility of interpreting recent events in the development of
biotechnology as an intensification of biopower technologies, representing a
refinement and deepening of its agency, exposing the scale of biomolecular
processes of the body to various political and economic interests. From this
intensification, it aims to reflect on the possibilities and dangers of such an
intervention scenario, leading to inquiries about the new social control
technologies prompted by the development of scientific technology, specifically
modern biotechnology.
Keywords:
Biopower,
Biopolitics. Biotechnology.
INTRODUÇÃO
O poder costuma ser
compreendido como a possibilidade de dirigir as ações de outrem. De acordo com
o “Vocabulário de Foucault” (Castro, 2009), o poder na ótica do autor não se
constitui substância nem qualidade, não é algo que se pode possuir ou ter, mas
exercer, algo entrelaçado nas relações de comunicação. A visão do autor contrasta
com outras visões correntes que tinham no poder a qualidade das operações que
visavam garantir a soberania de uma classe e a repressão de outra, como
concepções de teóricos clássicos como Hobbes ou as de intelectuais da escola de
Frankfurt posteriormente. Um poder horizontal como este que Foucault descreve
apresenta-se múltiplo e repleto de agentes e estratégias de efetuação, que
também se transformam e deslocam com a história.
O corpo, central na
obra de Foucault, é compreendido como imerso num campo de forças político[78],
estando sujeito a demandas que o marcam, dirigem e subjugam na medida das
exigências políticas que dele extraem sua força. Enquanto traça sua “Microfísica
do Poder” (Foucault, 1999), o autor entende que este campo de poder se coloca entre
os “[...] grandes funcionamentos [...]” (Foucault, 1999, p. 30), ou seja, os
funcionamentos de massas num contexto em que as instituições disputam o corpo,
e o corpo em si mesmo. Nessas formações sociais, o poder emerge não como uma
posse de certos grupos, mas como o efeito das posições dos sujeitos em uma
materialidade. Portanto, o poder atravessa inclusive aqueles que, em teoria,
não o possuem, se efetivando neles. Mesmo as resistências ao poder, aponta o
autor, “[...] apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança [...]”
(Foucault, 1999, 30). Ou seja, fica nítido um poder que se dá nas próprias
relações sociais, que se coloca nelas, aparece nelas, que é ele mesmo uma
relação.
Foucault descreve as
relações de poder como “um modo de ação que não age direta e imediatamente
sobre os outros, mas que age sobre a sua própria ação” (Foucault, 1995, p.
243). Em seu livro “Foucault”, Gilles Deleuse destaca que “o exercício do poder
aparece como um afeto, já que a própria força se define por seu poder de afetar
outras forças (com as quais ela está em relação) e de ser afetada por outras
forças” (Deleuze, 2005, p. 79). O poder aparece, portanto, envolvido em um
conjunto complexo de relações, como característica destas relações, forças
sobre forças em um emaranhado de influências que dirigem as ações dos humanos.
A disciplina, para
Ferreirinha e Raitz (Ferreirinha e Raitz, 2010, p. 371) evidencia melhor as
relações de poder, pois esta seria a base para estabelecer essas relações.
Apresentam então o triângulo de Foucault, formado pelo poder, o direito e a
verdade. O poder se apresenta então como direito, pelos arranjos sociais em
movimento que o determinam, e como verdade, pois a produz e necessita dela para
funcionar.
No pensamento do
filosofo, poder e saber constituem relação indissociável. Foucault afirma que
estes implicam diretamente um no outro, exigindo o poder um campo de saber
próprio e o saber constituindo sempre relações de poder. Saber sobre o corpo,
portanto, não seria apenas o conhecimento dos seus funcionamentos, mas um
conjunto de relações específicas com ele, no que Foucault classifica como
“tecnologia política do corpo” (Foucault, 1999, p. 29). Essa tecnologia não
pode ser apenas localizada no estado, estando difusa, operando por diversos
mecanismos que tomam o corpo.
Foucault oferece em
seus escritos condições para observar eventos discursivos e políticos a partir
de suas condições de emergência, ou seja, de sua história. O poder, sendo
simultaneamente efeito e resultado das dinâmicas sociais e dos arranjos
políticos está também sujeito a modificar-se ao longo da história. Afinal,
condições históricas, políticas e materiais diferentes exigirão outros
mecanismos e estratégias no sentido da garantia de sua manutenção. Ao longo da
história e do próprio pensamento foucaultiano vemos os mecanismos de efetuação
dos poderes sofrerem transformações.
Das rupturas
características da história do poder, esta revela-se muito importante para
compreender as transformações das formas pelas quais se exerce controle sobre
as populações: aquela da passagem do que Foucault coloca como o poder soberano
dos estados pré-modernos ao biopoder surgido posteriormente. Para o filósofo
esta nova modalidade de poder, esta nova estratégia de efetivação do mesmo,
surgida e levada a cabo nos séculos XVII e XVIII é caracterizada pelo
investimento político sobre o corpo vivo, diferenciando-se do poder exercido a
partir do direito de matar.
Foucault (1999)
reconhece como um dos privilégios característicos do poder soberano pré-moderno
o poder sobre a vida e a morte. Esta característica parece atravessar longos
períodos da história do poder no ocidente, da idade antiga à chamada “época
clássica” – expressão pela qual Foucault se refere aos séculos XVII e XVIII
(Castro, 2009). Como Foucault (1999) argumenta, este poder sobre a vida e a
morte até então funcionava de maneira assimétrica: o poder sobre a vida, em
última instância, era fundamentado no poder sobre a morte. Isto ocorre, como
bem ressalta Foucault, de maneira óbvia entre os soberanos antigos, homens que
dispunham de autoridade para matar seus súditos, servos, familiares e escravos
ao bel prazer, pelas prerrogativas mesmas de suas posições; e de maneira
atenuada entre os soberanos como interpretados pelos chamados “teóricos clássicos”,
que advogavam pelo poder que o soberano possui de convocar os súditos à guerra
e ao castigo, ou seja, “[...] expondo-lhes a vida [...]” (Foucault, 1999, p.
127). Em ambos os casos, se exerce um poder sobre a vida a partir da morte, do
direito de matar que o soberano pode impor ou suprimir.
No segundo caso,
Foucault (1999) pergunta-se se o direito de exigir a morte se desdobraria do
direito de preservar a própria vida teorizado por Hobbes quando estendido ao
soberano. Essa pergunta parece antecipar a virada proposta por Foucault: a
noção de que, a partir do século XVIII, um novo arranjo aparece nos mecanismos
de poder, um que se desloca da morte em direção à vida. Se o direito de
autoproteção do soberano implicava dispor das vidas dos súditos, a proteção da
vida da população justificaria toda uma outra série de procedimentos a nível
das instituições e do estado. Acontece que, na perspectiva do autor, a
Modernidade instaurou novas formas de controle da população que se engajavam
diretamente na vida e em seus processos. Ao invés da possibilidade de sua
supressão, os poderes agora se ocupariam de sua gestão, vigilância e
organização (Foucault, 1999). O humano, tomado a partir daí como entidade
biológica a nível de sujeito e de população, é agora escrutinado pela
racionalidade científica, ao passo em que esta opera para aumentar a eficácia
de seus processos, ajustando os corpos vivos ao sistema econômico (Foucault,
1999). Esta nova forma de exercer poder inaugura uma realidade política para o
corpo compatível com a economia capitalista então em desenvolvimento: os
processos orgânicos do corpo e os biológicos de população passam a ser domínio
de investimento político que busca ajustar estes fenômenos às necessidades da
economia capitalista.
Dado o biopoder como
concebido por Michel Foucault para interpretar os eventos dos séculos XVII e XVIII,
com a ascensão do liberalismo e do capitalismo, e os sentidos da agência desse
poder, coloca-se a pergunta-problema que norteará este trabalho: quais os
desdobramentos contemporâneos do conceito de biopoder tendo em vista os avanços
recentes da biotecnologia? Para responder a essa questão fundamental, será
necessário 1) elucidar o conceito de biopoder a partir do seu desenvolvimento
no pensamento de Michel Foucault; 2) compreender, a partir do conceito de
Foucault, e de suas interpretações correntes, qual o alcance e os limites do
conceito para pensar os eventos recentes envolvendo a biotecnologia moderna; e
3) investigar, a partir dos novos arranjos da anátomo-política e da
biopolítica, a ampliação do campo de agência do biopoder, propondo uma
interpretação que dê conta dos investimentos contemporâneos sobre o corpo vivo
por parte da biotecnologia.
Desse modo, este artigo
constitui um estudo justificado pela literatura atual no que diz respeito ao
biopoder no pensamento de Foucault, especificamente no âmbito do
desenvolvimento das tecnologias que tomam por alvo a vida, e pelas
contribuições que pode apresentar tanto para o desenvolvimento das
interpretações contemporâneas do biopoder quanto para as reflexões acerca da
natureza, das relações e impactos do desenvolvimento da biotecnologia moderna,
considerando-a como instrumento das técnicas de poder sobre o corpo e
compreendendo que o desenvolvimento daquelas representa um refinamento destas,
além de uma ampliação de seus poderes.
O BIOPODER: BIOPOLÍTICA E
ANÁTOMO-POLÍTICA
Para Foucault (1999), o
desenvolvimento do regime capitalista e a correspondente apropriação da força
de trabalho só foi possível pela “[...] inserção controlada dos corpos à
produção e por meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos
econômicos [...]” (Foucault, 1999, p. 132). O filósofo compreende que esses
movimentos de ajuste e inserção se dão pelo “[...] reforço quanto de sua utilizabilidade
[...]”, visando “[...] majorar suas forças, as aptidões, a vida em geral [...]”
(Foucault, 1999, p. 132). O que ocorre no corpo e na casa, a higiene, a doença
e o sexo passam a ser percebidos como espaços de exercício de determinadas
forças, da aplicação de certas normas, ou seja, passam a ser reconhecidos como
territórios de interesse de múltiplos agentes.
Foucault (1999)
delimita dois segmentos a partir dos quais esta nova forma de poder se coloca,
realçando a interação entre ambos no desenvolvimento desta: o segmento
anátomo-político e o segmento biopolítico. Ambas as formas de poder sobre a
vida passam a atuar, a partir do século XVII, no sentido da “[...]
administração dos corpos [...]” e “[...] gestão calculista da vida [...]”
(Foucault, 1999, p. 131). Uma das faces “individualizante”, no sentido da
investigação das potências de um indivíduo por meio do estudo das propriedades
de seu corpo, e outra “especificante”, no sentido do estabelecimento do humano
como uma espécie, sujeita aos fenômenos de população descritos pela biologia.
A
Biopolítica consiste em uma tecnologia política de rastreamento, estudo,
controle e gestão dos corpos a nível de população. No século XVIII, os regimes
estatais começam a desenvolver interesse e implantar políticas em áreas como a
natalidade, a longevidade, o saneamento, a saúde coletiva (Foucault, 1999).
Esse interesse aparece na coleta de dados que dizem respeito às condições de
salubridade e higiene, bem como na promoção de políticas que visam a adesão da
população aos sistemas públicos de saúde e as práticas que estes recomendam,
por sua vez baseados naqueles dados. Foucault (1999) interpreta que o objetivo
mesmo de uma visão biologizante é uma gestão que busque “majorar” a vida,
referindo-se à diminuição da mortalidade, da fome, do controle adequado da
natalidade, do acesso ao saneamento, da adesão aos hábitos de higiene, entre
outros. Os investimentos sobre os fenômenos de população, as campanhas de
imunização, as de combate às drogas, as políticas de monitoramento acatam a
diversos interesses econômicos, morais e culturais. A vida, sujeita a fenômenos
agora analisados do ponto de visto da estatística da população de uma espécie,
é vista como força produtiva, parece ter sido feita nicho de mercado, espaço de
trânsito de mercadorias, trecho de rotas comerciais. Os valores liberais
aparecem como pano de fundo da biopolítica, tornando-a inteligível[79].
A
anátomo-política por sua vez diz respeito ao surgimento das disciplinas que
estudam o corpo em sua estrutura e composição. De acordo com Foucault “[...]
centrou-se no corpo como máquina [...]” (Foucault,
1999, p. 131), pensamento recorrente entre os ditos teóricos clássicos, como
Descartes e Hobbes. Este processo inaugurou uma extensa investigação a respeito
do corpo e seu funcionamento. A analogia da máquina permite visualizar as
ideias correntes acerca do corpo: um conjunto de mecanismos cuja função
fundamental e objetivo último eram o trabalho. As disciplinas do corpo se
ocupariam de desvendar os segredos do organismo, expondo seus trânsitos,
movimentos, arranjos, descobertas essas acompanhadas da possibilidade de
intervir. A intervenção (o “concerto” da máquina) poder-se-ia ser realizado
agora a partir do conhecimento das funções orgânicas, de seu ajuste ou substituição.
As próteses, os implantes, os medicamentos e as intervenções cirúrgicas
constituíram a possibilidade de gerir localmente a vida.
A
anátomo-política, assim como a “anatomia política” (Foucault, 1987, p. 164) do
corpo aparecem como elementos das chamadas “disciplinas”. Foucault as descreve
como “métodos que permitem o controle minuscioso das operações do corpo, que
realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade” (Foucault, 1987, p. 164). Neste contexto, compreende-se
que o corpo assume a centralidade enquanto objeto das relações de poder no
pensamento do filósofo. Este direcionamento ao corpo o percorre em todas as
dimensões, exigindo-lhe em todas as camadas. Essas exigências respondem a uma
série de interesses, principalmente econômicos, sendo para o autor uma das
“grandes invenções da sociedade burguesa” (Foucault, 1999, p. 43).
A questão se aprofunda
quando pensamos a contemporaneidade. O desenvolvimento das formas através das
quais os corpos podem ser manipulados[80] (as cirurgias, os implantes
biológicos, as biotecnologias e as possibilidades de intervenção biomolecular),
legal e ilegalmente, apontam para um novo horizonte de intervenção, no qual os
diversos discursos e práticas atreladas ao corpo encontram um universo em
expansão diante de si, um domínio de possibilidades até então muito pouco
conhecidas que dizem respeito a processos pequeníssimos, cujas respostas a
alterações podem ser imprevisíveis, resultando em tecnologias que carregam em
si possibilidades maravilhosas e terríveis. Sem dúvidas, um campo tão amplo de
intervenções responde a uma gama de demandas (estatais, morais, culturais,
simbólicas e principalmente econômicas) que enxergam em tais processos
biológicos a possibilidade de estabelecer rotas de interesse econômico.
As tecnologias
contemporâneas da vida expandem este segmento do biopoder para além da vida,
numa abordagem que se encontra aquém do indivíduo enquanto unidade. Foucault
temia que, com o avanço da genética, o “equipamento genético” (Foucault, 2008,
p. 313) humano, ou seja, o conjunto específico de caracteres genéticos dos
indivíduos adentrasse nos cálculos econômicos do valor humano. As novas
técnicas biomoleculares, as tecnologias farmacêuticas e a biotecnologia abrem
uma verdadeira caixa de Pandora: a possibilidade de compreender processos tão
minúsculos que poderiam ser infinitas as consequências de sua modificação. A
estrutura nanométrica de uma proteína, um átomo trocado em uma molécula de
fármaco, um nucleotídeo substituído em uma fita de ácido nucleico, todos esses
eventos de um universo distante em muitas escalas da vida cotidiana podem
desencadear uma imensidão de efeitos no corpo.
O BIOPODER CONTEMPORÂNEO
O
interesse comercial em processos vitais a certos organismos vem de longa data.
A produção de leite pelas vacas ou de mel pelas abelhas, a fermentação
realizada por leveduras utilizada na fabricação de pães e bebidas alcoólicas,
as propriedades medicinais de metabólitos secundários de plantas, todos estes e
uma infinidade de outros processos vêm sendo empregados pelos humanos, muitos
deles traçando relações específicas com o corpo humano (através da alimentação
ou uso terapêutico). Entretanto, após o século XX, uma nova gama de utilizações
para os organismos aparece com o desenvolvimento da biotecnologia moderna,
marcada pela possibilidade de controle minucioso desses processos. De acordo
com Malajovich (2016), a divisão entre a biotecnologia clássica e a moderna se
dá a partir dos experimentos de Herbert Boyer e Stanley Cohen que resultam, em
1973, na transferência de genes de um sapo a uma bactéria, trazendo à tona a
possibilidade de manipulação genética de seres vivos. A partir deste grau de
manipulação, é possível induzir os seres vivos a determinadas características,
permitindo a manifestação fenotípica de propriedades de interesse comercial.
A
autora apresenta definições para a biotecnologia moderna, dentre as quais a
oferecida por E. H. Houwink em 1989: “o uso controlado da informação biológica”
(Malajovich, 2016, p. 2). Ou seja, a utilização de informações a respeito dos
processos biológicos para determinados fins. Dentre as muitas áreas de
interesse da biotecnologia, como a geração de energia ou uso industrial,
interessam para nós aquelas que se relacionam com a gestão dos processos
biológicos humanos, acompanhando a noção de anátomo-política do biopoder em
Foucault. Desse modo, o seu uso para o estudo, mapeamento, manipulação e
majoração dos processos do corpo humano parece intimamente relacionado com
aqueles que começaram a se desenvolver no século XVII, alcançando, entretanto,
um novo domínio de possibilidades e implicações políticas, uma vez deslocados
os limites de apreensão dos processos do corpo e os da capacidade de
intervenção nos mesmos.
Um
marco para tal deslocamento foi a finalização do projeto Genoma Humano[81]
em 2003, iniciado em 1989 pela National Center of Human Genome Research com a
finalidade de mapear o material genético humano. Tal marco completa um ciclo
iniciado desde a descoberta do código genético, um elemento chave na
compreensão dos fenômenos biológicos (Malajovich, 2016). A partir do código
genético podem ser mapeados os caminhos através dos quais as células conduzem
seus expedientes, permitindo identificar os pontos através dos quais as mesmas
poderão exprimir ou não certas propriedades. Mapear o código genético humano
permite compreender no nível mais fundamental as propriedades do organismo,
seus mecanismos internos e suas relações com o meio. Toda esta compreensão
aparece atrelada, pela natureza mesma da possibilidade de sua observação, com a
biotecnologia e sua possibilidade de manipular estes elementos através de meios
tecno-científicos. Esta intervenção de modo algum é neutra: desloca-se a partir
dos interesses econômicos em torno da aplicação desses procedimentos, tanto no
sentido do comércio destas tecnologias quanto no do interesse da biotecnologia
no “melhoramento” do corpo em direção à apropriação pela economia capitalista.
A amplitude das ciências e técnicas que objetam o corpo vivo e seus processos
mais microscópicos suscita também o questionamento a respeito do alcance dos
poderes institucionais sobre a vida, uma vez estabelecido um novo universo de
possibilidades de intervenção.
Foucault (1999), entende
neste processo a “biologização” da política. A simultaneidade e
interdependência dos fenômenos políticos do biopoder e a ascensão do modo de
produção capitalista também imbuem certa relação entre os processos biológicos
– os no indivíduo e nas populações – e o regime de produtividade capitalista.
Entretanto cabe questionar se a melhoria dos produtos, das condições de
trabalho ou dos corpos dos trabalhadores são sempre parte da estratégia a
partir da qual se constrói mercado e lucro. Ou seja, é preciso estar atento
também aos lugares onde este biopoder opera no sentido de dificultar,
enfraquecer, suprimir ou apenas desviar determinados processos da vida.
Como
aponta Edgardo Castro (2009), nas duas principais fontes nas quais Foucault
descreve o biopoder, aparecem atrelados ao conceito as questões do racismo e da
sexualidade. Carlos aponta que enquanto no “Em Defesa da Sociedade” se
evidencia o “poder sobre a morte”, o último capítulo de “A História da
Sexualidade I: A Vontade de Saber” trataria do poder sobre a vida,
especialmente na questão da sexualidade (Castro, 2009, p. 57). Ou seja,
enquanto no primeiro se explicitariam as formas através das quais torna-se
lícito ao estado matar em nome do biopoder, no segundo se imprimiriam práticas
de regulamentação compatíveis com o controle biológico da população,
especialmente através da gestão da reprodução. Entretanto, cabe notar que
também se mata em nome do sexo, mesmo que os discursos e práticas que regulam o
sexo, com o desenvolvimento da medicina e da biotecnologia, se interesse pela
sexualidade no sentido de melhorar as condições, o processo e o resultado da
reprodução, explorando-o também em todas as suas nuances, todos os detalhes de
seus componentes psicológicos, sociais, imagéticos, simbólicos e somáticos.
Esta exploração, como a da terra, traça rotas, abre caminhos, incendeia
terrenos, inicia culturas de determinados tipos adequados ao solo e ao que
desejam os senhores e seus clientes. Trata-se antes de tudo, nos parece, de
estabelecer determinados trânsitos de interesse, sobre os quais os o biopoder
lançará estruturas, fará incidir efeitos, ao redor dos quais se produzirão as
condições para que o mercado possa então operar. Além de objetivar a vida como
alvo de majoração, o biopoder também abre o território da vida à investigação e
exploração para os diversos agentes interessados em suas múltiplas
possibilidades, ao passo que a própria investigação conduz a vida enquanto
categoria a outras direções.
Em
seu artigo Biopower Today, Rabinow e Rose (2006) destacam três tópicos a
partir dos quais a biopolítica parece operar hoje: a raça, a reprodução e a
medicina genômica. Neste artigo os autores trabalham o alcance do biopoder para
pensar o hoje. Sua principal linha argumentativa são os próprios
desenvolvimentos das ciências e tecnologias da vida. A ampliação das
possibilidades de descoberta e ação, a catalogação de infinitas condições
atreladas a alterações invisíveis a não ser para estas tecnologias e as
possibilidades de intervenção elevadas ao limite das interações moleculares sem
dúvidas impõem novos paradigmas para pensar os poderes que se colocam sobre a
vida. Os autores concordam que o biopoder segue sendo uma importante ferramenta
de análise para pensar o presente (Rabinow e Rose, 2006). Ao relatar o papel
uma reorganização epistemológica da doença presente no pensamento de Foucault,
a partir da qual a ela se desprende de seu caráter natural e passa a ser
associada mais intimamente com a morte – o que imprime à prática médica a
atividade de combater a morte –, Garcia (2006) destaca o aparecimento da
biotecnologia como um “negócio da esperança” cheio de possibilidades em um
mundo adoecido. As biotecnologias aqui são enxergadas a partir da perspectiva
se sua importância comercial e os discursos pelos quais se fazem vender.
Diante
do exposto, fica claro que o biopoder atual assume novas formas com a ampliação
de sua agência. Enquanto se aprofundam as intervenções, novos lugares possíveis
de apropriação vida se descobrem, novos arranjos correspondentes a diversos
estados de interesse para o estado e o mercado. Se é verdade que o biopoder
trata da “estatização da vida biologicamente considerada” (Castro, 2009, p.
57), também é verdade que os desdobramentos recentes das ciências e técnicas da
vida transformam estas possibilidades de direcionamento político dos corpos, no
sentido de espalhar sua amplitude ou de majorar seus efeitos, abrindo todo um
novo campo (o dos processos biomoleculares) à observação e ação múltipla. O
corpo está aberto para que se apliquem nele os mais diversos procedimentos.
É necessário
compreender que o pano de fundo da biopolítica é o desenvolvimento das ciências
ditas positivas, o estreitamento das relações entre o estado, o mercado e os
cientistas, a introdução da medicina no âmbito das ciências formais e da
política. “A medicina é uma estratégia biopolítica” (Foucault, 1990, p. 80). Em
outras palavras, se o eixo dos eventos biopolíticos é a apropriação do corpo
pelas tecnologias e ciências da vida e a introdução destas no campo da
política, ou seja, nas formas de exercer poder, é necessário refletir sobre
como os desdobramentos recentes destes conhecimentos e técnicas afetam na
gestão distributiva dos corpos proposta por Foucault para o período clássico,
investigando como esta gestão se dá no presente.
Como
define Foucault, o biopoder se desenvolve em duas formas distintas e
dependentes, das quais a primeira a se desenvolver é a anátomo-política do
século XVII, seguida pela biopolítica do século XVIII (Foucault, 1999). Uma vez
que a anátomo-política se ocupou de compreender os processos biológicos dos
corpos humanos (transformando-o em máquina), é fácil entender por que teve que
surgir primeiro. Eram necessários ao regime conjuntos de demarcações,
categorias, mecanismos e funções aos quais pudesse integrar seus expedientes[82].
Seguida da anátomo-política, a biopolítica passa a operar a partir da produção
de espaços e procedimentos de regulamentação, medidas estas tomadas a nível de
estado. Tais políticas de massas tem por base, desde o princípio, os elementos
apresentados pela anátomo-política e suas descobertas. Nesse sentido, os
conhecimentos fornecidos pelas pesquisas envolvendo os componentes e processos
do corpo conduzem de alguma forma as ações das instituições direcionadas a
estes corpos.
A
análise dos mecanismos e funções do corpo foi guiada pelo conhecimento de seus
estados “normais” e/ou funcionais e à compreensão dos mecanismos por trás de
suas afecções. Entretanto, é difícil pensar que para uma espécie de poder que,
à altura da época clássica, estaria ainda abandonando o poder de morte como
política ordinária tal estratégia de valoração da vida tenha se apresentado de
forma tão espontânea. Não, as mãos dos regimes ainda estavam sujas de sangue e
os regimes mantiveram-se sanguinários. A investigação do corpo não encaminha os
olhos apenas para seus estados funcionais ou não funcionais, mas também para as
combinações de multiestados, os cruzamentos, semelhanças e diferenças, as
linhas de continuidade e descontinuidade, as rotas internas e todas as
associações e analogias que acompanham estes eventos do corpo. Sem dúvidas a
anátomo-política produz as condições nas quais pode-se aplicar a biopolítica,
no sentido de ser seu pano de fundo, seu espaço de efetivação e condições de
efetuação.
A observação minuciosa
dos diversos processos biomoleculares do corpo é consequência também das
políticas, discursos e tecnologias disponíveis, todos influenciados fortemente
pelo biopoder. As novas formas de analisar o corpo e seus eventos ao mesmo
tempo atualizam e deslocam o já capturado por estes poderes até então. Neste
processo de retroalimentação, os novos conhecimentos sobre o corpo acomodam
diversas formas de lidar com ele, em diferentes rumos e a partir de diferentes
estratégias, no recém-aberto universo de possibilidades que agora os poderes
sobre a vida podem explorar.
Se
interessa ao capitalismo e ao estado que o corpo seja produtivo, estes o
garantirão através de diversas maneiras, de múltiplos procedimentos. Não é
difícil vislumbrar práticas muito pouco proveitosas, ou mesmo nocivas, serem
extremamente lucrativas para certos grupos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É possível compreender,
a partir do conceito de biopoder proposto por Michel Foucault, que a
biotecnologia contemporânea se insere numa gama de técnicas cujo objetivo é o manejo
do corpo, o aprimoramento de sua utilizabilidade e sua docilidade. Os elementos
da biotecnologia puderam ser identificados com o direcionamento e gerência dos
corpos em direção à produção capitalista. Por sua vez, a biotecnologia também
desloca o sentido do biopoder, uma vez que se apropria do corpo de maneira
antes impossível, submetendo agora todos os microelementos do corpo à
regulação. O avanço das biotecnologias que tomam por alvo o corpo humano deve
ser refletido, tendo em vista o crescente domínio e intervenção nos menores
espaços do corpo e o emprego cada vez mais amplo da biotecnologia na vida
cotidiana. Compreendemos que a literatura a respeito é ampla e como
perspectivas futuras este estudo pode ser ampliado para elaborar as formas
específicas a partir das quais o biopoder se manifesta hodiernamente a partir
das biotecnologias contemporâneas.
REFERÊNCIAS
CASTRO, E. Vocabulário de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
DELEUZE, Gilles. Foucault.
São Paulo: Brasiliense, 2013.
FERREIRINHA,
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[77] Graduação
em Farmácia pela Universidade Federal do Piauí (2022). Atualmente mestrando do
Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFPI, na linha de filosofia prática.
Principais interesses incluem a interseção entre as ciências biomédicas e da
saúde e a filosofia. E-mail: felipoauguste@hotmail.com
[78] “Mas o corpo também está
diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance
imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam,
sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais” (Foucault,
1999, p. 29).
[79] Passos (2017) aponta que para
Foucault o liberalismo é “[...] a condição de inteligibilidade da biopolítica
[...]” (Passos, 2017, p. 11). Em outro momento, afirma: “[...] Cálculos e
mecanismos serão articulados no intuito de incluir a vida na esfera pública,
atribuindo a esta um valor de ‘coisa’, que em um determinado momento deve ser
preservada e em outros descartada [...]” (Passos, 2017, p. 2), demonstrando a
relação entre a racionalidade liberal capitalista e a biopolítica no pensamento
de Foucault.
[80] Algumas das técnicas da
biotecnologia recente cujas consequências biológicas e éticas ainda estão para
serem vistas: as terapias gênicas (edições genéticas em células somáticas,
interferindo com a expressão gênica), os xenotransplantes de órgãos
geneticamente modificados (com consequências ainda imprevisíveis tanto para o
corpo humano quanto para as espécies utilizadas) e a edição gênica baseada nas
propriedades do RNA (que permite realizar mutações de deleção ou inserção,
alterando a sequência genética) (Malajovich, 2016).
[81] “We would
like to argue that these two concepts, biopolitics and anatomopolitics, are
conjoined in the Human Genome Project, where anátomo-politics becomes a
macromolecular-politics” (Flowers e Heath, 1993, p. 29).
[82] De acordo com Eduardo Sugizaki,
“Quanto à superfície de suporte, há uma diferença essencial entre a
anátomo-política e a biopolítica. A diferença só se esclarece completamente
quando deixa de ser indiferente à análise histórica que o saber-poder vise ao
indivíduo ou à população. Essa diferença de superfície e de escala exige
instrumentos novos” (Vidal e Castro, 2006, p.133).