EDITORIAL
EDUCAÇÃO E DEMOCRACIA – Um Elo Indissociável para a
Qualidade do Ensino[1]
Dr. Sergio Fernando Maciel Corrêa[2]
A presente edição da Revista
IF-Sophia, com o tema Educação e Democracia é um convite para refletirmos
sobre questões existenciais a esse respeito com perguntas elementares como as
seguintes: “De onde viemos?” “Onde estamos?” e “Para onde vamos?”
De início, temos que a
história da educação pública brasileira está profundamente entrelaçada com o
processo de construção e crises da democracia. Desde as primeiras reformas
educacionais do século XX até os dias atuais, a educação tem sido ao mesmo
tempo reflexo e instrumento da democratização do país. No entanto, como
evidencia o estudo de Marisa e Mariluce Bittar
(2012), o avanço quantitativo da escola pública não foi acompanhado por um
compromisso estrutural com a qualidade e a equidade, produzindo uma democracia
fragilizada e desigual.
A partir da década de
1930, com a ascensão de Getúlio Vargas, inicia-se a organização de um sistema
público de ensino enquanto estratégia de desenvolvimento nacional. Mesmo assim,
prevaleceram políticas seletivas, voltadas para a elite, e uma estrutura
educacional marcada pela exclusão das maiorias populares. A Reforma
Francisco Campos e, mais tarde, a Reforma Capanema,
institucionalizaram um ensino dualista e elitista. Em paralelo, iniciativas
progressistas, como o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova e os
esforços de Paulo Freire, buscaram estabelecer uma escola pública democrática,
crítica e libertadora.
Durante a ditadura
militar (1964-1985), houve inegável expansão do acesso à escola. No entanto,
tratou-se de um crescimento baseado na massificação, sem o necessário
investimento na qualidade do ensino. O modelo tecnocrático e autoritário
aprofundou as desigualdades, favorecendo uma educação voltada ao atendimento
das exigências produtivas do regime, e não à formação cidadã.
Com a redemocratização
e a Constituição de 1988, o direito à educação básica gratuita e obrigatória
foi finalmente reconhecido como um dever do Estado. Ainda assim, os anos 1990
marcaram a introdução de políticas neoliberais que intensificaram a
privatização da educação superior e precarizaram a
escola pública. Avaliações internacionais e relatórios técnicos apontaram a
baixa qualidade da educação oferecida, revelando que a promessa constitucional
ainda estava longe de ser cumprida.
Dessa breve genealogia
histórica decorre que a busca pela qualidade na educação pública tem sido um
tema central e, por vezes, controverso, nas últimas décadas do Brasil e é o locus onde estamos. Frequentemente, essa discussão
se limita a aspectos quantificáveis, como resultados em provas e exames
convencionais, negligenciando uma dimensão fundamental: a educação para a
democracia. Partimos do princípio que não se pode conceber uma educação de
qualidade sem uma afirmação radical de sua função na formação para a
democracia, considerando-a como um componente indispensável para o
desenvolvimento pessoal, a convivência social e a definição de políticas que
norteiem os rumos da educação brasileira.
A democracia, entendida
como mediação para a construção e o exercício da liberdade social, transcende a
mera aquisição de informações para fazer a melhor escolha em momentos
eleitorais. Ela exige a apropriação, criação e análise crítica de valores,
crenças, posturas e comportamentos que capacitem o indivíduo a uma participação
ativa na esfera pública. É paradoxal que, diante dos graves problemas sociais
da atualidade – como injustiça, violência, disseminação de informação falsas,
posturas anticientíficas –, a escola resista em propiciar uma formação
democrática que encoraje a cidadania ativa e a construção de uma sociedade que
propicie qualidade de convivência e participação aos seus cidadãos.
De
acordo com Paro
(2000), o conceito de qualidade da educação deve, portanto, ir além da mera
transmissão de conteúdos curriculares. A educação é um processo de atualização
histórico-cultural que envolve dimensões individuais e sociais, visando tanto
ao bem-estar pessoal quanto à convivência social plena. Há um certo consenso
entre aqueles que pensam a educação de modo crítico de que a omissão da escola
na formação ética e política, aliada a um currículo excessivamente informativo,
contribui para a apatia e a falta de engajamento dos cidadãos.
Aos termos um norte que
nos direciona – a educação para a democracia – que seja efetivo, é crucial
considerar a concretude das práticas escolares. As políticas educacionais
precisam levar em conta a opinião e a disposição dos profissionais da educação,
dos estudantes, dos pais e responsáveis e dos trabalhadores terceirizados, pois
a adesão desses agentes aos objetivos é determinante para a qualidade dos
resultados. Além disso, segundo Paro (2000) a estrutura didática e
administrativa da escola não é neutra; ela precisa ser concebida de forma
coerente com os princípios democráticos para favorecer a condição de sujeito
dos envolvidos e a realização dos fins ético-políticos. Gerir democraticamente
estruturas antidemocráticas é um caminho para o fracasso.
Portanto, a educação de
qualidade implica uma formação integral que prepara o indivíduo para o “viver
bem” e para contribuir ativamente com a sociedade. Isso se alinha ao pensamento
de Gramsci, que defendia que todo “cidadão” deveria ter condições de se tornar “governante”,
não necessariamente em um cargo formal, mas sentindo sua vida integrada a um
todo social, onde suas ações e opiniões são levadas em conta. Somente com uma
educação que promova a capacidade de conhecer para melhor escolher, a formação
moral baseada em valores republicanos e democráticos, e o desenvolvimento de
hábitos de tolerância e cooperação, poderemos construir uma sociedade
verdadeiramente democrática.
Desse modo, esta edição
da Revista IF-Sophia oferece um rico material para aqueles que
demonstram interesse em aprofundar o conhecimento, refletir sobre a própria
prática e mantêm o apreço por reflexões desafiadoras para os processos
educativos.
Uma
excelente leitura!
[1] Esse editorial foi elaborado a
partir do seguinte referencial teórico:
BITTAR, Marisa; BITTAR, Mariluce. História da educação no Brasil: a
escola pública no processo de democratização da sociedade. Acta Scientiarum. Education. 2012,
vol.34, nº 02, pp.157-168.
PARO, Vitor
Henrique. Educação para a democracia: o elemento que falta na discussão da
qualidade do ensino. Revista Portuguesa de Educação, vol. 13, nº 1,
2000, pp. 23-38.
[2] Pós-Doutor em Filosofia e
professor da carreira EBTT no departamento de Ensino, Pesquisa e Extensão do
IFC-Videira, SC. E-mail: fer.ser29@gmail.com