Recebido em: 25/07/2025
Aprovado em: 07/11/2025
Publicado em: 23/12/2025
LINGUAGEM
NO ESPAÇO DA FILOSOFIA GREGA PÓS-SOCRÁTICA: breve exposição sobre a convenção
platônica e aristotélica
EL
LENGUAJE EN EL ESPACIO DE LA FILOSOFÍA GRIEGA POSTSOCRÁTICA: una breve explicación sobre la convención
platónica y aristótleana
LANGUAGE
IN THE SPACE OF POST-SOCRATIC GREEK PHILOSOPHY: a brief
explanation on the platonic and
aristotlean convention
Amanda Salomão[88]
Edivaldo Simão de Freitas[89]
Francisco Vitor Macêdo Pereira[90]
Resumo
Nosso objetivo com esta pesquisa é trazer um
breve comentário descritivo sobre como se compreendia a relação significativa
entre a linguagem e os nomes que ela representava da realidade, focando nossa
metodologia descritiva bibliográfica acerca do pensamento filosófico ao assunto
no período clássico do espaço geográfico helenístico, portanto determinamos
como uma pesquisa de análise e revisão literária bibliográfica de temática geo-histórica descritiva, apenas. Nosso trabalho explora um
debate já bastante conhecido entre as teorias linguísticas de Platão e
Aristóteles, especialmente no que toca ao convencionalismo da linguagem. Ao
primeiro filósofo o debate gira em torno da correção dos nomes e se a linguagem
tem uma base natural ou convencional. Quanto ao segundo pensador, ele trata da
linguagem sob uma perspectiva mais geopolítica e funcional, buscando definir na
linguagem seu aspecto funcional essencial para a vida política e social do ser
humano, destacando a importância do logos
(discurso) como uma característica definidora da natureza humana, em que a
linguagem se torna útil para expressar a realidade como convenção. Portanto,
concluímos em nosso trabalho que ambos os pensamentos influenciaram a filosofia
e a ciência da linguagem, trazendo sua relevância para o desenvolvimento da
linguística moderna e crítica no espaço geopolítico e social contemporâneo.
Palavras-Chave: Platão. Aristóteles. Linguagem. Naturalismo.
Convencionalismo.
Abstract
Our objective with this research is
to provide a brief descriptive commentary on how
the significant relationship between language and the
names it represented for
reality was understood. Our methodology focuses on descriptive
bibliographic analysis and literature review of philosophical thought on the
subject during the classical period
of Hellenistic geography. Therefore, we have chosen
this research as a purely descriptive geohistorical literature review and analysis. Our
work explores a well-known
debate between the linguistic theories of Plato and
Aristotle, especially regarding the conventionality
of language. For the former philosopher,
the debate revolves around the correctness of names and
whether language has a natural or conventional basis. As for the latter, he
approaches language from a
more geopolitical and functional perspective, seeking to define its essential functional aspect for human political and social life, highlighting the importance of logos (discourse) as a defining characteristic of human nature, in which language becomes useful for expressing reality as a convention.
Therefore, we conclude in our work that both
thoughts influenced the philosophy and science of
language, bringing their relevance to the development
of modern and critical linguistics
in the contemporary geopolitical and social space.
Keywords: Plato. Aristotle. Language. Naturalism. Conventionalism.
1 INTRODUÇÃO
Em nosso trabalho de revisão bibliográfica, apresentamos descritivamente
uma análise das ideias de Platão e Aristóteles sobre a linguagem, com foco
especial nas teorias do “convencionalismo individualista” platônico e
“convencionalismo geopolítico linguístico” aristotélico.
Nosso texto discute e descreve como essas duas perspectivas filosóficas
abordam a questão entre as vias do naturalismo e do convencionalismo, e como
essas ideias influenciaram o desenvolvimento da filosofia acerca da linguagem
dentro da perspectiva grega pós-socrática.
Em Platão, o debate se centra em duas teorias principais: o naturalismo,
que sugere que há uma conexão intrínseca entre o nome e o objeto, e o
convencionalismo, que argumenta que os nomes são atribuídos por convenção e não
possuem uma relação natural com o que representam. Enquanto em Aristóteles, o
debate se centra sobre seu convencionalismo, que por sua vez, vê a linguagem como
uma ferramenta essencial para a vida política e social do ser humano,
diferenciando-o dos outros animais. Para Aristóteles, sua teoria das categorias
linguísticas refletem a estrutura da realidade, e segundo ele, essa estrutura
permite que a linguagem descreva o mundo de maneira precisa e organizada
(ordenada).
Aristóteles também destaca a importância da convenção na formação dos
nomes e da linguagem, mas sempre dentro de uma estrutura lógica que busca a
verdade. Essa é nossa posição quanto ao que consideramos mais aceitável para a
questão de trazer o debate da perspectiva linguística sobre a relação entre a
nomeação dos objetos e a realidade.
Em nossa análise destacamos que a posição convencionalista é mais
amplamente aceita na filosofia e na linguística contemporâneas, uma vez que se
alinha com a ideia de que a linguagem é um sistema de signos arbitrários
estabelecidos por convenção social.
Justificamos nossa pesquisa por via de desdobramentos geo-históricos alinhados ao pensamento da filosofia da
linguagem grega antiga (clássica), em que as questões sobre como as palavras se
relacionam com a realidade e como essa relação influencia nosso conhecimento do
mundo na sua história, seus espaços geográfico e cultural. Em suma, o
“convencionalismo geopolítico linguístico aristotélico” reflete a visão de que
a linguagem, enquanto fenômeno natural e convencional, é central para a
constituição das estruturas geopolíticas e sociais humanas, sendo também um
meio pelo qual as diferentes culturas interpretam e se conectam com a realidade
no mundo e nas sociedades.
2.1 O CONVENCIONALISMO INDIVIDUALISTA PLATÔNICO
Platão, sem resquícios de dúvidas, tornou-se um pensador bastante citado
academicamente. O filósofo grego, desde sua origem no pensamento helenístico,
influencia grande parte dos debates da filosofia ocidental, ostentando um campo
vasto que se segue numa trajetória histórica da evolução do pensamento desde o
espaço geo-histórico da Grécia até o contemporâneo.
Malgrado o destaque acadêmico do ateniense, interpretar suas ideias não é
exercício simples, muito menos labor sem esforço de todo aquele que se desafia
a entender seus pensamentos. Um dos expoentes filosóficos da era clássica
grega, discípulo de Sócrates, ainda hoje movimenta discussões entre os diversos
pesquisadores na atualidade, e entre aqueles que buscam auxílio para o
desenvolvimento reflexivo no campo do conhecimento humano da comunicação: a
linguagem.
Esse discípulo socrático, Platão, até os dias hodiernos, é base e
fundamento epistemológico para profícuas reflexões, como já dissemos, para
discussões referidas à linguagem e seus desdobramentos científicos. Portanto,
neste trabalho, traremos uma construção descritiva dos dois tipos de discursos
da “teoria linguística” de Platão, mais precisamente, sobre sua filosofia da
nomeação, em torno dos conceitos: (i) Naturalismo e (ii)
Convencionalismo para um arcabouço epistemológico da linguagem, com o intuito
de esboçarmos uma introdução em nosso debate aqui para compreender as bases
oferecidas pelo filósofo grego, e que ainda servem de introdução profunda aos
estudos sobre a linguagem dentro do que podemos conhecer como a região grega.
Pois
O Crátilo de Platão é a referência fundamental
para encetar reflexões sobre linguagem, e em mais específico, sobre semântica.
Nele está o embasamento do raciocínio moderno, em que se possibilitou
aperfeiçoar abordagens da linguística contemporânea, de Saussure a Chomsky, e
contributos interdisciplinares relevantes ao estudo da linguagem ou,
contemporaneamente, a crítica da linguagem. (Prazeres et alii, 2013, p. 100,
grifo nosso).
Os manuais de apoio e livros de crítica sobre o percurso historicista da
linguagem, como tema da filosofia e demais ciências da linguagem, trazem e
evidenciam ao pesquisador (ou qualquer outro leitor crítico interessado acerca
do assunto) o seguinte: a obra Crátilo de Platão
é parte histórica e epistemológica que deu início à linguagem como aparato de
pesquisa e discussão; em outros termos, a filosofia da linguagem tornou-se
assunto de investigação reflexiva nos diálogos platônicos, embora possa
afirmar-se que as questões atuais sobre a linguagem aparentemente divergem
desse diálogo – Crátilo.
O debate desenvolvido no diálogo origina um caloroso certame, e mais
tarde, influenciará uma tradição filosófica; a saber, a natureza da linguagem e
do seu conteúdo significativo (de maior costume de uso, fala-se na relação da
palavra e seu significado), portanto, de uma ideia de essência linguística e
uma estrutura semântica dos termos. Inicialmente, com base em Crátilo, podemos pensar que a natureza da
linguagem, isto é, das palavras, auxiliam para uma espécie de acesso ao
conhecimento sobre a realidade, o qual trata ou aponta para o espaço das
coisas, dos objetos, dos seres em geral.
Não é de se contestar, o discípulo de Sócrates há muito se ocupa do
assunto, e nas linhas que se seguem de sua obra
A pergunta fundamental de Platão aqui é: a linguagem (no caso, as
palavras) pode contribuir para o conhecimento da realidade? Em consequência
disso, do modo como essa questão é formulada, a discussão filosófica sobre o
significado das palavras estará irremediavelmente atrelada ao problema do
conhecimento como definidor da preocupação filosófica – o assim chamado projeto
epistemológico, que aproxima filosofia e ciência e entende a primeira como um
tipo de ciência mais geral e mais fundamental. (Marcondes, 2009, p. 12)
Percebamos e atentemos ao fulcral da questão platônica: a realidade
interferirá ou sofre interferência ontológica e linguística das palavras,
daquilo que dizemos, da possibilidade dos termos alcançarem sua essência das e
nas coisas? Parece improvável, hodiernamente o debate aparentemente já se
fechou acerca do assunto. Entretanto, por hora, nos é válido rememorar e
destacar o fato histórico que repercutia no espaço geo-linguístico
da antiguidade helenística levantado pelo ateniense, e que suscitou e perdura o
incentivo para posteriores reflexões.
O Crátilo de Platão é um dos textos mais
antigos da tradição filosófica ocidental a explorar a racionalidade por trás da
nomeação. O texto questiona se os nomes em circulação são apropriados para
designar aquilo que eles designam e, indiretamente, quais seriam os
procedimentos a serem seguidos para nomear o que quer que seja. A pergunta
geral que ronda o Crátilo é: A que título n (onde n
representa um item qualquer) leva o nome “N”? O Crátilo examina duas hipóteses que podem conduzir a uma
justificação. (Neto, 2011, p. 7, grifo nosso).
A questão acima desencadeou respostas que foram base e fruto do diálogo
sob o título “Sobre a correção dos nomes”. Nesse subtítulo, a discussão
institui um percurso que tratará exatamente daquilo que acima comentamos: a
linguagem seria natural? O significado das palavras desencadeia-se nessa
suposta natureza da linguagem? Ou não, tudo se inclina ao convencionalismo
entre os homens?
A primeira hipótese (ou como preferimos nomear: linha teórica da
linguagem) levantada que se denomina de tese ou teoria naturalista da
linguagem, em que “O naturalismo caracteriza-se por defender que há uma relação
natural entre o signo e a coisa significada: o signo deveria possuir uma
natureza comum com a coisa que significa, contribuindo assim para o
conhecimento desta.” (Marcondes, 2009, p. 12). Essa tese é defendida pelo
personagem que dá nome à obra – Crátilo. De acordo
com Neto (2011), admite-se um isomorfismo entre a palavra e aquilo do qual a
palavra designa, isto é, o nome tem relação íntima com o objeto nomeado, embora
haja restrições relacionais e linguísticas sobre a realidade daquilo que se está
atribuindo algum aspecto, ou seja “dado um item não qualquer, a natureza
objetiva de não impõe certas restrições sobre a gama de possibilidades de nome
que lhe podem ser atribuídos” (Neto, 2011, p. 19). Ao nosso ver, isso seria uma
hipótese bastante alinhada a certas tendências dos estudos de filologia e
historicidade etimológica das línguas naturais. Dito isso, nosso intuito será
apenas descritivo geo-histórico, e ademais, nossa
discussão simpatiza e se restringe mais à linha de pensamento do convencionalismo
linguístico. Por razões um tanto óbvias, visto que nela se encontra maior
aceitação por parte dos estudiosos atuais.
A outra tese ou teoria trata daquilo que na comunicação humana, e nas
relações reflexivas sobre teorias da linguagem, designou-se por
convencionalismo[91], visto que
essa ideia percebe, na relação entre palavra e objeto ou coisa e ente qualquer,
seu estatuto fundamental cujo aspecto nada mais é do que convenção entre
culturas humanas, de forma arbitrária no espaço de discussão e formação linguística.
Desse modo, torna-se coerente afirmamos e apoiarmos nossa ideia de que
A justificação nesse caso assume: “N”
é o nome correto de n quando a correlação “N”:n for
aquela estabelecida por uma determinada comunidade linguística. Ou seja, dado
que a linguagem como um todo é um sistema de regras convencionais, as regras de
nomeação são também convencionais e seguem os padrões do sistema (como correto
é aquele em acordo com os padrões do sistema). (Neto, 2011, p. 7)
O discípulo de Sócrates, ao escrever sua obra “Sobre a correção dos
nomes”, pôs nos discursos do personagem Hermógenes uma ideia culturalmente
relacionada às ideias elaboradas pelos sofistas. Contudo, Hermógenes parece ser
mais tímido, talvez particularmente aparentando uma ingenuidade por conta de
sua curiosidade acerca do enigma de Crátilo (este
apresenta uma teoria distinta, já antes mencionamos como ideia naturalista). E
o personagem que antes houvera consultado outros sofistas sobre o tema em
questão, chega em suas considerações de que a correção dos nomes ou palavras se
fundamenta na convenção entre os falantes. Em razão disso, afirmar-se o
seguinte
El convencionalismo reflejado en el Cratilo parece reducirse a esa idea básica y no constituir lo que se dice una teoría. Los argumentos, más bien escuetos, en que Hermógenes apoya
tal idea se centran
fundamentalmente en el fenómeno de la variabilidad,
real o posible, de la significación.
Más o menos como para la forma de ver moderna, para Hermógenes ese fenómeno implica la convencionalidad
de los signos lingüísticos...[...]
(Sinnott, 2004, p. 111)
Dito isso, vejamos em detalhe como se iniciou o debate entre os
personagens, nas linhas seguintes optamos por reescrever o trecho na tradução
para o português, diretamente do grego, feita por Celso de Oliveira Vieira, na
edição da editora Paulus (Platão, 2014, pp. 23 e 24,
grifos nossos):
H. Você quer compartilhar a nossa fala com o Sócrates aqui? / C. Se for essa a sua opinião... / H. Sócrates, o Crátilo
diz existir uma correção dos nomes inerente à natureza de cada um dos seres. Um
nome não seria isto que alguns, pronunciando partes de seu idioma, convencionaram usar para chamar.
Haveria sim uma correção inerente aos nomes, a mesma para todos, gregos ou
estrangeiros. [...] Para estabelecermos uma posição comum é preciso averiguar
se é do jeito que você ou o Crátilo fala. / H. Sócrates, para mim, após ter
discutido várias vezes sobre isso com muitos outros, não consigo ser persuadido
de que haja uma outra correção para um nome além de uma convenção confirmada. Na minha opinião, se alguém coloca um nome
numa coisa, este está correto. Depois disso, se for mudado para um outro nome,
e ninguém mais chamar pelo primeiro nome, o novo não vai ser menos correto do
que o anterior. É o mesmo caso de quando mudamos o nome de algum serviçal: o
posterior à mudança não é menos correto do que aquele que foi estabelecido
primeiro. Nenhum nome é inerente à natureza de nada, ele apenas segue as normas
e hábitos de quem o habilitou ao chamar. No entanto, se não for assim, eu me
prontifico a aprender dando ouvidos ao Crátilo ou a
qualquer outro. / S. Talvez seja
como você está falando, Hermógenes, mas vamos verificar. Você diz que o nome de
cada um é aquele pelo qual alguém o chama? / H. É a minha opinião. [sic].
Desse modo, quando o personagem Hermógenes afirma
e apreende a ideia de que todo nome ou palavra ao ser formulada por qualquer
sujeito usuário de determinada língua (seja estrangeiro, seja compatrício) em
relação a um objeto ou ser (in)existente será aquilo nomeado como algo
relacionado à realidade no mundo ou possivelmente fora dele, isto é, o ser
nomeado torna-se verdadeiro, portanto não abrirá margens à possibilidade de
causa de erro no que diz respeito aos termos criados (ou seja: as palavras) a
eles referidas.
A tese defendida por Hermógenes pode ser resumida da seguinte maneira: a
correção dos nomes só pode ser fruto de uma lei (nomos)
e costume (ethos) estabelecidos pelos homens através
de convenções e acordos. Cabe a cada
sociedade, arbitrariamente, fundar e
estabelecer as normas do uso dos nomes, isto é, não há nenhuma norma exterior à
decisão humana que coordene esta prática. Como foi dito anteriormente,
Platão, ao apresentar a tese de Hermógenes, nos coloca no centro de uma
discussão amplamente disseminada na época dos sofistas; e postura de
reivindicar, para os homens, o poder de criar suas próprias regras sociais e
religiosas é característica de tal época. (Monteiro Junior, 2011, p. 25, grifos
nossos).
Dito isso, afere-se que nada que dê fundamento ao termo pode ser causa
objetiva natural para sustentá-la em sua formação supostamente ontológica,
visto que o nome ou a palavra qualquer pode ser fato de nomeação (isso é,
referenciação) entendida como sendo correta de todo ser
ou coisa na realidade ou fora dela. Em suas últimas palavras: “Hermogenes' conventionalism is important as a comparatively reflective and plausible way
of defending this endorsement of the given;
his legitimation of private naming
is merely an unavoidable corollary to this
defence.”
(Barney, 1997, p. 146)[92]. Por fim, é
dessa forma que afirmamos e definimos o debate platônico sobre linguagem em
tais termos como convém ao nosso estudo e pesquisa descritiva.
2.2 O CONVENCIONALISMO GEOPOLÍTICO-LINGUÍSTICO
ARISTOTÉLICO[93]
Retomando nosso raciocínio, nosso intuito não é pormenorizar as diversas
discussões e debates acerca da linguagem em suas distintas linhas de pensamento
na história, todavia iremos esboçar as ideias consideradas por nós mais
pertinentes e que se alinham à nossa proposta temática. Por agora, iremos tomar
como base, para as linhas que se seguirão, o percurso desenvolvido pela
linguista Maria Helena de Moura Neves (1981), a qual sinteticamente traça de
forma formidável aquilo que ela denominou de teoria linguística aristotélica.
O trabalho de Neves é uma reformulação de um tópico de sua tese de
doutoramento (1978), cujo tema abordado nos é relevante a ser descrito. Nosso
intuito é, a partir do conteúdo dado, direcionar aquilo que é restrito ao
objetivo aqui de nosso trabalho, isto é, estritamente geo-histórico-descritivo.
Nosso interesse não ultrapassará as ideias contidas na historicidade crítica
filosófica sobre o pensador Aristóteles, mais especificamente suas reflexões
acerca da linguagem. Por conseguinte, a temática se delimitará na atenção que
foi dada pelo estagirita acerca de dois pontos, os
quais consideramos mais interessantes para nosso intento aqui: (i) a natureza
da linguagem como ferramenta política do lógos, (ii) seu aspecto funcional em razão de sua estrutura
ontológica (isto é, suas categorias) e lógica.
A linguagem como parte da natureza humana, sem esquecer, claro, suas
funções alinhadas às particularidades culturais, pode e adequa-se como função
expressiva de tudo que é existente na realidade (iremos mais além, até das
coisas criadas pela nossa expressão psicológica). Tomando conhecimento de tal
fato, Aristóteles se pôs a estudar esse fenômeno comunicativo onde quer que ele
aparecesse, pois percebeu nele, que ao examiná-lo, poderia em contrapartida
analisar a realidade nomeada pela linguagem, isto é, o mundo poderia ser objeto
de investigação filosófica. Não é por menos que, em seu Órganon, o discípulo de Platão tratará daquilo que ele denominou como
“categorias”. Em relações disputáveis e conflituosas, essas categorias
(fundamentalmente acerca do pensamento) alinham-se a outras categorias, estas
estritamente linguísticas. Não é de todo indispensável refletirmos acerca da
formação desse termo, que, em sua composição lexical do grego antigo “κατηγορία” traz em seu sentido “falar ou perguntar pelas
coisas”, “perguntar sobre a realidade por meio da linguagem”.
Ao examinar o conjunto estrutural
vocálico do homem como suporte biológico em razão de seu funcionamento como
órgão linguístico, o filósofo examina os diversos contextos além da produção
meramente sonora. Ele já admitia que a voz seria condição estabelecida para
haver linguagem. Ora, linguagem é biologicamente atributo intrínseco ao homem,
visto que este pode vocalizar e articular sua voz ao emitir construtos verbais
com sentido e arranjos do pensamento, “dizer as coisas” é parte funcional (por
isso articulada) vinculada às categorias como atributo da fala. Portanto, o
homem é um ser que fala e pela língua emite seus padrões convencionais acerca
da sociedade (geopolítica), história, cultura e filosofia.
Aristóteles afirma que o homem é um “animal político” (mais
precisamente, um “ζῷον πολῑτῐκόν”),
o qual supera o conjunto de outras espécies agregadas na natureza. Isso explica
o motivo do porquê sua função linguística faz dele um ser atribuído de
atividades onde não encontramos em qualquer outra “sociedade animal”, estamos
nos referindo a sua capacidade de organizar uma sociedade política por conta
exclusivamente da sua natureza linguística. Em suma: o homem é de fato o único
ser dotado da capacidade de falar, e fazer dessa sua competência natural de
organizar comunidades com suas culturas e valores tradicionais. E como assevera
Marcondes (2009, p. 22) ao comentar sobre a Política:
“Aristóteles caracteriza a linguagem como definidora da natureza humana, na medida
em que o homem é um ser social e é precisamente o uso da linguagem na
comunicação e na negociação política que torna possível a vida social.” E para
corroborar à essa ideia, vejamos a seguinte assertiva
A linguagem está no homem suscitada pela sua vocação de animal político
e operada pela sua natureza, a fim de que essa vocação se possa cumprir. Só a
voz articulada, a palavra humana, tem um sentido, o qual é dado pela faculdade
exclusivamente humana de distinguir o bem do mal, o justo do injusto, isto é,
pela condição de animal político que é característica do homem. (Neves, 1981,
p. 58).
Como acabamos de perceber, o trato sobre a questão política, no homem e
sua natureza, inclui nele e em sua competência uma particularidade de ser
racional e organizador de uma sociedade permeada por convenções, contratos
culturais e geo-históricos. Pensando sobre isso, essa
natureza política faz do homem um ser que possui característica e capacidade,
através de sua habilidade linguística, de exprimir aquilo que lhe convém ou o
que seria inconveniente, ele separaria aquilo que lhe toma como justiça e
injustiça. Portanto, é pensando sobre isso, que a linguagem como prática social
lhe confere a finalidade de desenvolver normas e leis para estar em convívio
entre outras comunidades e culturas, obedecendo suas formas e contratos não
somente particulares, mas especialmente coletivos.
Segundo Neves (1981, p. 58), nessa junção entre fundamento natural
(biológico) e fundamento teleológico, o filósofo põe o lógos em debate e reflexão, daí
fundamentar-se três posturas acerca da linguagem, mais precisamente fundamentar
aquilo que a linguista Neves denominou como a teoria linguística de
Aristóteles: (i) a linguagem faz parte da natureza do homem, lhe sendo inerente
por competência racional como animal político; (ii) a
linguagem, como exercício político, condiciona ao homem um atributo que lhe
confere desempenhar sua habilidade intelectiva, racional e referencial com a
realidade; (iii) existe uma forma estrutural e
definida de linguagem que expressa sem equívocos a verdade física (natural) da
realidade. Nessa linha de pensamento, conjecturamos o seguinte: é nesse caráter
político e de exercício teleológico que a linguagem pensada pelo estagirita ganha nomeação de linguagem científica (e porque
não dizer da existência de uma linguagem epistemológica e convencional?).
Ao atuarmos como falantes de uma cultura no mundo, ao
fazermos referência aos entes ou coisas na realidade com objetivo de
descrevê-los e falar das suas qualidades ou aspectos, sempre estaremos
condicionados e capazes de tomar essas coisas conforme uma ordem de
classificação por via de uma lista de palavras, termos e expressões. Logo,
nosso intento é condicionarmos em busca de
respostas por meio de perguntas feitas a respeito dessas coisas e entes. Não seria nossa intenção descrever de forma
adequada? Qual seria o meio para tal
ação comunicativa? Ora, a linguagem é esse meio e as categorias aristotélicas
seriam um dos recursos da própria ação linguística no esforço de alcançar e ter
acesso à realidade natural. Tanto nos espaços históricos, bem como nos limites
geográficos que se delimitam os usuários de uma dada linguagem e/ou expressão
comunicativa.
Atribuindo nossas reflexões às categorias aristotélicas,
somos capazes de compreender que a linguagem, enquanto expressão simbólica da
realidade, não substitui as coisas reais na natureza, nem muito menos traz para
dentro da mente a realidade dos objetos no mundo. Nessa lógica de raciocínio
discursivo, a referenciação às coisas e entes da realidade feita por nossa
habilidade linguística ainda expressa tão somente uma devida proporção espacial
entre aquilo que é mencionado ou nomeado e o objeto (ou ente) em si mesmo.
Pensando nesse espaço entre o nome e a coisa, tal distância pode ser alcançada,
por isso menos complexa de atingir, e a via a caminhar seria por meio de ideias
(ou como gostaríamos de nomear “engenhos de ideias categóricas”) capazes de
formular uma ligação bastante firme entre nossa capacidade linguística e os
entes do mundo, isso é, nossa própria linguagem e os objetos reais na natureza.
Ou seja, as categorias aristotélicas, fundamentadas e descritas no Órganon, são como
vários modelos gramaticais com intuito acessar a realidade por via da
linguagem; e como tal, para descrever a realidade natural e transformá-la em
realidade para nós, essas categorias nos seriam modos instrumentais de acesso
mental e linguístico.
Conseguintemente, podemos sim asseverar que sem a existência
da linguagem e sem qualquer habilidade de comunicação linguística não nos
restaria acesso ao mundo e as coisas reais na natureza, todavia esse pensamento
só tem sentido se incluso no debate que estamos discutindo até então, de que a
capacidade de linguagem descritiva (por vias categóricas) é uma espécie de
propriedade específica, que só se faz existente quando na circunstância em que
nosso comportamento natural (de inclinarmo-nos à descrição da realidade) se põe
válido via regras incutidas na linguagem, ou de outro modo, por vias
convencionais linguísticas e culturais. Por isso, ao retratarmos a realidade
tentamos categorizá-la no mundo; e tudo aquilo, que podemos dizer dela, tornar-se-á uma possibilidade de divergências descritíveis entre
as diferentes línguas e culturas. Cada coletividade cultural terá sua
possibilidade de descrição da realidade, das coisas no mundo que podemos
alcançar pela palavra, por via da nomeação (referenciação).
Esse fato, alcançar a realidade pela nomeação; essa
apropriação comunicativa nos traz a ideia a seguinte informação linguística:
sobre o conceito, palavra e coisa há uma correspondência, mas não significa que
essas três propriedades naturais, para realização da comunicação, devam ser
congruentes ou harmônicas em sua constituição de expressão. A linguagem mostra
e aponta para a relação do conceito com a coisa, porém na relação do objeto e o
termo (isto é, a aquilo que se diz sobre a coisa) não há associação de aspectos
que se assemelham. Ora, ao definir o nome, Aristóteles parte da ideia de que,
aquilo que o nome possui como forma de significado, é estritamente
convencional.
O nome é um som articulado e significativo, conforme convenção e sem o tempo, e do qual nenhuma parte separada
é significativa. [...] A expressão “conforme
convenção” quer dizer que nada por natureza pertence aos nomes, mas vem a
pertencer quando se torna símbolo, uma vez que mesmo os sons inarticulados,
como os das feras, revelam algum significado, ainda que nenhum deles seja nome.
(Aristóteles, 2013, pp. 3 e 4, grifos nossos).
Em contrapartida, acerca do que debatemos acima sobre a
questão da natureza comunicativa a partir das três propriedades para a
expressão linguística, também queremos destacar as palavras da linguista Neves,
que diz o seguinte:
A teoria da significação aristotélica prevê, pois, o signo,
o conceito e o referente. Este não é simplesmente a coisa individual, pois, o
intelecto pode representar Sócrates, por exemplo, como homem, como animal, como
bípede, como branco, como uma espécie etc. Através desses conceitos as palavras
se referem a tudo o que existe. Há, pois nos nomes, significação, algo que
resulta de acordo e convenção, algo que está na esfera do simbólico, não,
portanto, no reino da phýsis [...]. (Neves, 1981, p.
60, grifo nosso)
Ora, para Aristóteles, a linguagem é passível de instrumentalização do
pensamento humano e por isso tem como forma de ação incutir, para esse
pensamento no homem, a ideia de projetar ou representar os seres e as coisas da
realidade para o discurso verbal (consideramos que atualmente expande-se do discurso
oral ao discurso também gestual e outras semióticas possíveis). Pensando acerca
disso, podemos afirmar que as coisas ou a projeção delas, no discurso, só
passam a ser como formas representativas, segundo ele, à proporção que a
nomeamos como expressões de nossas impressões da realidade no mundo. Conforme o
filósofo grego, a linguagem é natural no seu papel funcional, e na sua
conjunção fundamental é vista como instrumento convencional.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nessa real disputa epistemológica e filosófica acerca do debate
platônico entre o pensamento naturalista da linguagem versus pensamento
convencionalista da linguagem, Aristóteles identificou-se com maior rigor e
inclinação às ideias de Demócrito, abraçando fortemente a concepção
convencionalista, e passando a defender, portanto, a tese de que: “A linguagem
resulta de uma convenção, visto que nenhum nome surge naturalmente. A onomatopéia não pode invalidar este princípio, pois as
formas onomatopaicas variam de língua para língua...” (Robins,
1979, p. 15).
Dito de outro modo, a linguagem faz parte como expressão humana: (i) na
natureza em seu aspecto funcional para instrumentalizar as ideias e formas de
pensamentos; e (ii) no aspecto de sua origem, ela é
convencional. Por isso, num contexto entre vivências sociais e culturais, os
homens passam a criar normas e regulamentos “artificiais”, que passam a fazer
parte das estruturas (instrumentais) da comunicação humana por via das línguas.
Pois bem, primeiramente deve-se ressaltar que, como vimos, Aristóteles
não emprega o termo “convencional” no contexto genético-linguístico como o faz
Hermógenes. Nosso filósofo está preocupado em determinar o princípio regente da linguagem. Em outras palavras, quer investigar
a essência desta potencialidade
humana que nos torna tão diferentes dos outros animais. Que a linguagem são
seja composta de meros sons, mas antes de sons convencionalmente
significativos, indica justamente a intervenção da racionalidade humana
sedimentada ao longo da tradição. (Santos, 2002, p. 89)
Doutro modo, não seria um conjunto de uma necessidade funcional da
linguagem esse aspecto relacionado à convenção, em suma: aparentemente aquilo
que é natural nas línguas, sua função, passa por crivos normativos
convencionais para que haja a comunicação e suas regularidades acordadas entre
culturas diversas. Ponto interessante esse que, ao nosso ver, influenciará e
dará fundamento posterior às causas geo-políticas,
históricas e culturais da linguagem.
4 REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES.
Da Interpretação. Tradução: José
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[89] Graduação em
Letras (UFC), em Filosofia (UFC), em Artes Visuais (UECE). Mestrado em
Filosofia (UFC) e em Estudos da Tradução (UFC). Doutor em Letras (UFC). Fortaleza-CE. E-mail: edfrei07@gmail.com
[90] Professor
de Filosofia do Instituto de Humanidades e do Programa de Pós-Graduação
Interdisciplinar em Humanidades da Universidade da Integração Internacional da
Lusofonia Afro-brasileira. E-mail: vitor@unilab.edu.br
[91] Entende-se como fundamento epistemológico entre os círculos
de estudiosos da linguagem e suas ciências (a linguística moderna e/ou
semiótica e suas diversas correntes). (Oliveira, 2000; Neto, 2011; Prazeres,
2013)
[92] “O convencionalismo de Hermógenes é importante como uma forma
comparativamente reflexiva e plausível de defender esse endosso do dado; sua
legitimação da nomeação privada é meramente um corolário inevitável dessa
defesa.” (Barney, 1997, p. 146, tradução nossa)
[93] El convencionalismo lingüístico, cimentado
conceptualmente em la obra de Platón en la forma que hemos procurado mostrar, se prolonga en la filosofia de
Aristóteles, que en este campo notoriamente recoge los resultados a los que la
laboriosa reflexión de su maestro había
llegado tras um creativo diálogo com la tradición
filosófica precedente. Com la recepción aristotélica
se consolidará em la fase clásica el predomínio de la
visión convencionalista, eclipsada, sin embargo, más tarde, em la etapa helenística. (Sinnott, 2004, p. 119, grifo nosso)