Recebido em: 20/08/2025
Aprovado em: 13/11/2025
Publicado em: 23/12/2025
O
MAL-ESTAR E O ADOECIMENTO MENTAL NOS CÂMPUS UNIVERSITÁRIOS: Uma abordagem
crítica
MALAISE
AND MENTAL ILLNESS IN UNIVERSITY CAMPUSES: A critical
approach
Jose Vinicius Barbosa Silva Veras[86]
Resumo
Como
o sofrimento psíquico no ensino superior pode ser compreendido como sintoma
social e não apenas como questão individual? O presente estudo investiga essa
problemática, com foco nos câmpus interiorizados das
universidades públicas brasileiras, onde se manifestam de forma aguda as
contradições do modelo neoliberal de gestão acadêmica. Sustenta-se que a lógica
do produtivismo e da autogestão emocional reconfigura
subjetividades, transformando a universidade em espaço de precarização material,
simbólica e afetiva. Com base em análise documental e apoio bibliográfico nas
reflexões de Vladimir Safatle, Christian Dunker e Heribaldo Maia,
analisa-se como exigências de desempenho contínuo, responsabilização individual
e normalização da produtividade criam mal-estar estrutural, particularmente nos
câmpus do “continente”, caracterizados por isolamento
geográfico, carência de recursos e fragilidade nas políticas de permanência. Ao
problematizar a lógica avaliativa da CAPES e a imposição de métricas uniformes
de excelência acadêmica, o estudo evidencia como a experiência universitária se
torna marcada por ansiedade, exclusão simbólica e desalinhamento entre sujeitos
e normas institucionais, revelando a dimensão social e histórica do adoecimento
psíquico na universidade contemporânea.
Palavras-chave:
Neoliberalismo. Produtivismo acadêmico. Esgotamento. Subjetivação.
Abstract
How can psychological distress in
higher education be understood as a social symptom and not merely an individual
issue? This article investigates these problematic issues, focusing on the
interiorized campuses of Brazilian public universities, where they manifest
themselves acutely in opposition to the neoliberal model of academic
management. It argues that the logic of productivism and emotional
self-management reconfigures subjectivities, transforming the university into a
space of material, symbolic, and affective precariousness. Based on documentary
analysis and bibliographic support, drawing on the reflections of Vladimir Safatle, Christian Dunker, and Heribaldo
Maia, it analyzes how the demand for continuous performance, individual
accountability, and the normalization of productivity create structural
malaise, particularly on campuses in the "continent," characterized
by geographic isolation, lack of resources, and weak retention policies. By
problematizing CAPES's evaluative logic and the imposition of uniform metrics
of academic excellence, the study highlights how the university experience
becomes marked by anxiety, symbolic exclusion, and misalignment between
subjects and institutional norms, revealing the social and historical dimension
of psychic learning in contemporary universities.
Keywords: Neoliberalism.
Academic productivism. Exhaustion. Subjectivation.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho
propõe uma análise crítica do sofrimento psíquico no ensino superior, com
ênfase na experiência vivida nos câmpus
universitários, também conhecidos como “universidades do continente”. Mais do
que um fenômeno individual ou clínico, o sofrimento que atravessa a
universidade deve ser compreendido como um sintoma de impasses institucionais,
sociais e subjetivos. Cada vez mais, a universidade pública tem se constituído
como um espaço de reprodução das lógicas neoliberais, operando pela exigência
de autogestão emocional, produtividade constante e responsabilização individual
diante do fracasso ou do mal-estar, e, nesse contexto, sintomas como ansiedade,
depressão, esgotamento e desamparo não podem ser tratados como desvios
pessoais, mas como efeitos da forma como a subjetividade vem sendo moldada
pelas exigências institucionais contemporâneas.
Os câmpus
universitários evidenciam as contradições da democratização do ensino superior.
Apesar do ideal de ampliar o acesso, enfrentam precariedade estrutural,
isolamento geográfico e insuficiência de políticas de permanência O uso do
termo campus, de origem latina, também não é neutro: remete a um modelo
colonizador de organização universitária, centralizador e hierarquizante, em
que as margens existem apenas como extensão funcional dos centros.
Neste sentido, a
racionalidade espacial das universidades, marcada por uma lógica
centralizadora, também contribui para a produção do sofrimento psíquico. Ao
concentrar poder, prestígio e recursos nas sedes centrais e relegar aos câmpus interiorizados um papel secundário, a universidade
cria uma divisão simbólica entre sujeitos reconhecidos e aqueles em posições
marginais, atravessados por exclusão, precariedade e deslocamento.
Estudos recentes
reforçam essa dimensão estrutural do sofrimento psíquico. A pesquisa da
Fundação Oswaldo Cruz (2022) identificou que 45% dos estudantes universitários
brasileiros apresentaram sintomas de ansiedade generalizada e 17% relataram
indícios de depressão durante o período pandêmico. De modo convergente, a
Enquete Nacional “Condições de Trabalho e Saúde Docente”, conduzida pelo ANDES
– Sindicato Nacional (2023, p. 17–19), apontou que 75% dos docentes afirmam
sentir-se sempre ou frequentemente sobrecarregados, 79% relataram pressão constante
por metas e prazos, e 55% declararam algum quadro de adoecimento relacionado ao
trabalho. Esses dados evidenciam que o mal-estar acadêmico não pode ser
interpretado apenas como questão individual, mas como expressão de condições
estruturais que configuram a vida universitária contemporânea.
É nesse cenário que se
torna essencial recorrer às contribuições de Vladimir Safatle,
Christian Dunker e Heribaldo
Maia. Safatle, em Neoliberalismo como gestão do
sofrimento psíquico (2018), argumenta que o capitalismo atual não apenas
administra a produção, mas também regula afetos e modos de adoecer,
transformando o sofrimento em uma ferramenta de gestão. Christian Dunker, por sua vez, em Mal-estar, sofrimento e sintoma
(2015), propõe uma distinção fundamental entre essas três dimensões,
compreendendo o sintoma como uma resposta subjetiva àquilo que a norma não pode
simbolizar. Já Heribaldo Maia, em Neoliberalismo e
sofrimento psíquico na universidade (2024), traz à tona os modos pelos
quais a universidade tornou-se, ela mesma, uma engrenagem da precarização
subjetiva, denunciando como discursos institucionais de excelência, mérito e
resiliência acabam naturalizando o adoecimento como falha pessoal, em vez de
reconhecer sua inscrição social.
O presente estudo se
apoia em análise documental e apoio bibliográfico, articulando dados de
pesquisas nacionais sobre condições de trabalho e saúde docente (Associação
Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-Sindicato
Nacional, 2023; Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Estudantis –
FONAPRACE; Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de
Ensino Superior – ANDIFES, 2019; Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, 2022;
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP,
2025) com reflexões teóricas de Vladimir Safatle,
Christian Dunker e Heribaldo
Maia. Essa abordagem permite compreender o sofrimento psíquico no ensino
superior como um sintoma social, evidenciando a intersecção entre condições
institucionais, subjetividade e lógicas neoliberais de gestão acadêmica.
O trabalho está
organizado em duas partes principais: a primeira apresenta os fundamentos
teóricos do sofrimento psíquico enquanto sintoma social, e a segunda analisa de
que modo a universidade, atravessada pela racionalidade neoliberal, contribui
para a produção e gestão do sofrimento de seus membros. Ao longo da análise,
argumenta-se que uma abordagem crítica do sofrimento exige reconhecer sua
inscrição histórica e coletiva, bem como enfrentar os dispositivos de
subjetivação impostos pelas lógicas contemporâneas de gestão acadêmica.
O SOFRIMENTO PSÍQUICO COMO SINTOMA:
FUNDAMENTOS TEÓRICOS
Compreendemos o
sofrimento social, assim como Safatle, Dunker e Campello como em um processo de construção social
a partir de seus silenciamentos e opressões, ou seja, o adoecimento psíquico
não se desdobraria unicamente a partir de um encadeamento químico –
neurológico, mas a partir de uma reflexão das contradições das estruturas
desiguais da sociedade.
A dimensão empírica
dessa problemática é amplamente evidenciada pela V Pesquisa Nacional de
Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das IFES (ANDIFES;
FONAPRACE, 2019), último levantamento nacional completo sobre o tema. Segundo o
estudo, 83,5% dos graduandos relataram dificuldades emocionais que interferem
na vida acadêmica, especialmente ansiedade, desânimo, insônia, sensação de
desamparo, solidão e tristeza persistente. Entre os que reportaram tais
dificuldades, 11,1% estão em tratamento psicológico, 63,7% nunca buscaram
atendimento, e 7,5% fazem uso de medicação psiquiátrica. O levantamento também
aponta que as maiores taxas de dificuldades emocionais se concentram nas
regiões Sudeste (87,2%) e Sul (85,3%), seguidas do Centro-Oeste (82,2%),
Nordeste (81,4%) e Norte (78,4%) (p. 204-205), o que revela um quadro de
sofrimento psíquico generalizado nas universidades públicas brasileiras,
atravessando desigualdades territoriais e estruturais
Em oposição a
patologias meramente individuais, Campello (2022, p. 94-95) advoga que o foco
da crítica deve ser o sofrimento social, definido em sua dupla face:
primeiro, como um produto de "instituições e práticas sociais" que se
mostram incapazes de oferecer um "significado terapêutico" para o
mal-estar que elas próprias geram; e segundo, como uma experiência imanente à
vida social, que se manifesta tanto através das "normas que constituem os
imperativos de realização dos sujeitos" quanto nos "limites dados
pela gramática social", os quais restringem previamente o horizonte de
possibilidades de vida e a efetivação da liberdade.
Na introdução “Do
diagnóstico à diagnóstica” em Mal-estar,
sofrimento e sintoma (2015), Dunker expande a
abordagem do diagnóstico psicanalítico para a ideia de diagnóstica, ou seja, uma abordagem que não tem o foco em nomear as
patologias, mas em pensar uma reconstrução de uma forma de vida. Esta proposta
localiza a transversalidade entre o diagnóstico, as disciplinas clínicas, a
maleabilidade do discurso diagnóstico e sua aplicação no mundo real, e a
heterogeneidade social. Tal abordagem
crítica que considera os fatores sociais junto à construção de uma percepção
clínica tem como objetivo “refazer os laços entre trabalho, linguagem e desejo,
pensando a patologia – que se exprime no sintoma, no mal-estar e no sofrimento
– como uma patologia do social.” (Dunker, 2015, p.
5-6)
Nos câmpus,
o sofrimento psíquico se manifesta, num primeiro momento, sob a forma de
mal-estar. Este não deve ser compreendido como um simples desconforto subjetivo
ou oscilação emocional transitória, mas como uma experiência estrutural,
persistente e coletiva, profundamente relacionada ao lugar ocupado pelos
sujeitos dentro da instituição. Dunker (2015, p. 183)
define o mal-estar como “o sentimento existencial de perda de lugar, a
experiência real de estar fora de lugar”. Essa definição permite compreender
como, para muitos estudantes e servidores, o mal-estar é inseparável da
vivência concreta da precariedade: ausência de infraestrutura, falta de escuta
institucional, precarização das relações pedagógicas e escassez de
reconhecimento simbólico.
Nessa perspectiva, o
mal-estar não é um efeito colateral da experiência acadêmica, mas uma marca
estruturante de um regime universitário que administra corpos e subjetividades
por meio de exigências normativas de excelência, desempenho e autogestão
emocional, vindo da lógica neoliberal, pois, “o discurso gerencial envolve
múltiplas técnicas que propõem um trabalho do eu para facilitar a ‘eclosão do
homem-ator de sua vida’” (Dardot; Laval,
2016, p.338). Segundo Dunker, essa condição expressa
o desalinho entre o sujeito e as normas simbólicas que regulam a vida
universitária, funcionando menos como mediações coletivas e mais como
dispositivos de avaliação contínua e responsabilização individual.
O neoliberalismo,
enquanto regime de racionalidade, constitui uma inflexão histórica dentro do
próprio capitalismo. Longe de romper com o modelo capitalista, ele intensifica
suas dinâmicas fundamentais, especialmente a mercantilização da vida, a financeirização
da economia e a individualização das responsabilidades sociais. Emergente nos
anos 1970 e consolidado nas décadas seguintes por líderes como Margaret
Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos, o neoliberalismo
respondeu às crises do capitalismo fordista com políticas que desregulamentam o
mercado, enfraquecem a proteção social e transferem aos indivíduos a
responsabilidade pelo próprio sucesso. Como observa Maia (2024, p. 93), “quem
conseguiu sintetizar bem esse modo de controle foi Margaret Thatcher”,
afirmando em entrevista ao Sunday Times
em 1988 que “a economia é o método” e o “objetivo é mudar corações e mentes”.
A experiência
estrutural de mal-estar, articulada à precariedade e ao deslocamento simbólico,
não ocorre em um vácuo institucional. Ela está intrinsecamente ligada às
transformações promovidas pelo modelo neoliberal e à sua forma de “governar um
ser cuja subjetividade deve estar inteiramente envolvida na atividade que se
exige que ele cumpra” (Dardot; Laval,
2016, p. 327). No ensino superior público brasileiro, essa racionalidade tornou
a universidade um espaço centrado na autogestão, na meritocracia e na
produtividade individual, transferindo aos membros a responsabilidade pelo
próprio desempenho e convertendo contradições institucionais em culpa e esforço
pessoal.
No intuito de dar
continuidade ao deslocamento do olhar da psicologização
do sofrimento, para uma leitura que reconheça suas determinações sociais e
históricas; em Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico,
Vladimir Safatle (2020) argumenta que o sofrimento
deve ser compreendido como efeito estrutural de um regime de subjetivação que,
sob a lógica neoliberal, transforma a dor em problema de adaptação individual.
O imperativo de autogestão emocional, acoplado à exigência de permanente
performance, faz com que os sujeitos sejam convocados a administrar seus afetos
e fracassos como se fossem exclusivamente de sua responsabilidade, apagando as
condições institucionais que produzem a exaustão e a frustração.
Nesse modelo, como
observa o autor, a difusão da forma-empresa no interior do corpo social leva os
indivíduos a se perceberem como “empresários de si mesmos”, regulando suas
ações por uma lógica de investimento e retorno de capitais simbólicos, emocionais
e profissionais. Os afetos, nesse contexto, deixam de ser vivências espontâneas
e passam a ser tratados como competências a serem otimizadas, transformando-se
em instrumentos de gestão de si, voltados à produção de uma “inteligência
emocional” funcional à lógica da performance (Safatle,
2018, p. 19).
Na universidade, esse
modelo se manifesta pela normalização da precariedade emocional e pela
naturalização do sofrimento como “etapa” da formação acadêmica. Safatle mostra como esse modelo de gestão opera uma captura
da crítica: ao invés de permitir que o sofrimento se expresse como descompasso
com a ordem vigente, ele é rapidamente medicalizado,
neutralizado ou instrumentalizado em nome da produtividade. Compreender o
sofrimento psíquico, nesse caso, exige resgatá-lo como expressão de um
mal-estar mais profundo, relacionado às formas atuais de organização da vida,
do trabalho e do vínculo social.
Como observa Safatle, uma das estratégias centrais do neoliberalismo na
administração do sofrimento psíquico é a adoção de categorias diagnósticas com
força performativa. Essas categorias, longe de apenas descreverem quadros
clínicos, produzem efeitos retroativos sobre a subjetividade, reorganizando a
experiência do sofrimento segundo lógicas classificatórias que funcionam como
“quadros de produção de sentido” e, ao mesmo tempo, como mecanismos de indução
de condutas futuras. Trata-se do chamado “efeito de looping” (2020, p.24), no
qual o diagnóstico se converte em instrumento de captura da dor, reconfigurando-a como problema de adaptação individual.
Desta forma, a formação
acadêmica se torna inseparável de um regime de pressão constante, no qual o
estudante é compelido a otimizar seu tempo, acumular certificados, dominar
múltiplas habilidades e apresentar resultados quantificáveis. Essa lógica,
amplamente naturalizada, está enraizada nas formas contemporâneas do
capitalismo neoliberal, que operam por meio de processos de subjetivação
marcados pela autogestão, pelo empreendedorismo de si e pela responsabilização
individual pelos sucessos e fracassos. Como consequência, a vivência
universitária deixa de ser espaço de experimentação e criação coletiva,
tornando-se um campo de intensificação da ansiedade, da auto exploração e da
precarização subjetiva. Nessa perspectiva, Heribaldo
Maia (2024, p. 83) observa que “o indivíduo se torna gestor de si mesmo,
internalizando as normas empresariais de gerência do próprio ser”, evidenciando
como o modelo neoliberal redefine a relação do sujeito consigo mesmo e com o
ambiente acadêmico.
Esta lógica de
autogestão não é apenas funcional, mas ontológica: o neoliberalismo reconfigura
a própria ideia de sujeito, promovendo uma existência baseada no cálculo, na
competitividade e na performance contínua. Como observa Maia (2024, p. 91), “a
agência humana é mergulhada no frio cálculo utilitário econômico, em que a
concepção de vida boa é atrelada à lógica da acumulação do capital”, de modo
que o “eu” passa a ser vivido como uma empresa, apagando os limites entre
pessoa física e pessoa jurídica. Essa transformação implica que toda
experiência de fracasso ou sofrimento deixa de ser interpretada como efeito de
contradições sociais e institucionais, sendo lida como déficit pessoal ou falta
de competência adaptativa, fazendo assim, a universidade se alinhar
perfeitamente a essa racionalidade, funcionando como laboratório privilegiado
da produção do sujeito empreendedor de si.
O cenário é ainda mais
grave nos câmpus, onde as exigências de excelência,
produtividade e acúmulo de capital simbólico se chocam com a precariedade das
condições objetivas. Como explica Maia (2024, p. 119), “criou-se as condições
de um ambiente sufocante em termos de pressão física e mental”, resultado de
uma expansão institucional quantitativa sem investimentos proporcionais em infraestrutura,
pessoal e políticas de cuidado. Nesse contexto, “o desempenho tornou-se, também
nas universidades, a gramática de agência”, reorganizando não apenas os
critérios de avaliação institucional, mas também os modos de ser e estar na
universidade. A linguagem do mérito e da performance domina, silenciando
vivências de mal-estar e exclusão que fogem aos padrões do sucesso acadêmico.
O SOFRIMENTO PSÍQUICO E A
PRODUTIVIDADE NEOLIBERAL NOS CÂMPUS
Ao analisarmos a lógica
da produtividade neoliberal no ensino superior, é fundamental observar como ela
se manifesta de forma particular nos câmpus
universitários afastados dos grandes centros, os chamados câmpus
do “continente”. A desigualdade entre os câmpus
universitários é evidenciada também por dados recentes do Censo da Educação
Superior 2024, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O levantamento aponta que o Brasil possui
2.561 instituições de ensino superior, das quais apenas 317 são públicas e 2.244
privadas, concentrando estas 78,6% das vagas ofertadas nacionalmente (INEP,
2025, p. 18–20). Além disso, observa-se uma assimetria geográfica persistente:
a maior parte das instituições e cursos presenciais continua concentrada nas
capitais e regiões metropolitanas, enquanto os câmpus
interiorizados, sobretudo das universidades públicas, operam com infraestrutura
reduzida e menor cobertura de políticas de permanência estudantil.
Nesses espaços, a
precariedade material se entrelaça à imposição de uma cultura de desempenho,
criando um ambiente contraditório no qual se exige excelência sem oferecer
estrutura. Como afirma Maia (2024, p. 121), as práticas universitárias caminham
hoje para a produção de “um aluno que seja assinalado pelas suas próprias
capacidades e esculpido pelo seu próprio capital humano a ser desenvolvido”. Na
teia de relações tecida a partir dessa premissa, instala-se uma lógica
quantitativa que reduz as nuances da experiência universitária a um ponto de
vista racional, numérico, calculado e instrumental da existência.
A experiência
universitária em câmpus situados fora dos grandes
centros evidencia, de modo agudo, as contradições do ideal de democratização do
ensino superior. Embora muitas dessas unidades sejam apresentadas como
expressão do compromisso institucional com a inclusão, o cotidiano revela
instabilidade, improviso e precariedade estrutural. O deslocamento até a
universidade é, para muitos estudantes, um desafio constante, agravado pela
dependência de ônibus disponibilizados por prefeituras, ausência de linhas
regulares de transporte público e necessidade de adaptação do calendário
acadêmico à logística local. Nesse cenário, cursar uma graduação implica
enfrentar diariamente obstáculos que comprometem o pertencimento simbólico e a continuidade
da formação. A universidade, em vez de ser espaço de enraizamento e criação,
torna-se um lugar frágil, onde a permanência exige esforço contínuo de
adaptação à instabilidade.
As dificuldades, porém,
transcendem o deslocamento físico. A maioria dos cursos nesses câmpus ocorre no turno noturno, em razão da necessidade de
trabalho diurno da maior parte dos estudantes. Tal realidade impõe sobreposição
de jornadas, desgastando o corpo, fragmentando o tempo subjetivo e restringindo
o acesso a experiências formativas essenciais, como grupos de pesquisa,
projetos de extensão e acompanhamento psicopedagógico, geralmente ofertadas em
horários incompatíveis com sua rotina. Apesar da presença dos sujeitos, o
modelo institucional pressupõe um estudante ideal, alheio às condições
concretas vivenciadas.
Os docentes, por sua
vez, também enfrentam o desafio de mediar essas desigualdades, frequentemente
sem recursos ou diretrizes institucionais flexíveis. A exigência de adaptação
recai, portanto, sobre todos, porém de modo desigual: os estudantes se
responsabilizam por não corresponderem às expectativas de rendimento, sem que
se reconheçam as estruturas que inviabilizam seu desempenho. O sofrimento que
emerge nesse contexto configura, como propõe Christian Dunker,
expressão de um desalinho entre sujeito e norma, não porque o sujeito “fale
pouco”, mas porque a norma, concebida de cima para baixo, não o compreende.
Esse processo evidencia
que o mal-estar vivido nesses contextos é estrutural, e não episódico. Apesar
das relações complexas, interdependentes e atravessadas por singularidades
sociais e históricas nos câmpus fora dos grandes
centros, estes continuam tratados como apêndices das instituições.
Embora exista produção
acadêmica relevante e iniciativas de pesquisa nesses espaços, muitas vezes não
alcançam a mesma visibilidade ou reconhecimento das desenvolvidas nos grandes
centros. A lógica produtivista vigente impõe um padrão uniforme de desempenho,
desconsiderando desigualdades estruturais entre os ambientes. Estudantes e
pesquisadores frequentemente convivem com condições materiais precárias —
laboratórios insuficientes, bibliotecas com acervo limitado ou desatualizado,
ausência de grupos de pesquisa em horários compatíveis com suas rotinas e pouca
inserção em redes institucionais ou eventos científicos — e, ainda assim, estão
submetidos às mesmas métricas de avaliação. Mesmo quando se observam avanços em
infraestrutura ou políticas institucionais, eles ocorrem de maneira lenta e
insuficiente, de modo que a exigência desproporcional persiste, impactando
diretamente a saúde mental dos envolvidos.
O modelo CAPES de
avaliação, fortemente pautado por indicadores quantitativos, como número de
publicações, fator de impacto e internacionalização, consolida uma noção restritiva
e normatizada de excelência acadêmica. Nesse sistema, apenas o conhecimento que
circula em determinados circuitos competitivos e mensuráveis obtém legitimidade
institucional, marginalizando saberes e práticas que não se ajustam a esses
parâmetros. Nos câmpus com infraestrutura limitada,
acesso restrito a redes de pesquisa e pouca participação em eventos
científicos, a lógica do CAPES não apenas se mantém, como intensifica a pressão
por produtividade, reforçando desigualdades históricas e simbólicas. A
exigência por performance torna-se, assim, mais que uma imposição
institucional: configura-se como uma gramática que estrutura subjetividades,
condicionando o que pode ser produzido, reconhecido e valorizado na academia, e
naturalizando a precarização dos contextos periféricos como efeito inevitável
do “mérito”.
Como observa Heribaldo Maia (2024, p. 95), “vive-se em uma sociedade
onde a concorrência não se localiza mais do ‘lado de fora’ e, não havendo mais
exterioridade possível à racionalidade econômica, tudo é submetido à linguagem
do capital”; nesse contexto, “cada erro, cada desvio da única conduta possível
ou do produzir-se constantemente como sujeito da performance, são debitados
automaticamente no sistema contábil que se tornou nosso psiquismo”. No ambiente
universitário transforma o fazer acadêmico em vigilância, medindo e avaliando
constantemente os sujeitos; qualquer desvio da lógica performativa é patologizado ou deslegitimado.
Para os estudantes,
essa lógica impõe uma angústia constante e estrutural: são compelidos a
performar em um sistema que não considera suas trajetórias, limitações ou
potências, mas apenas sua capacidade de se adequar a métricas rígidas e
uniformes. Estão permanentemente em desvantagem, seja pelas condições
econômicas, pelo território em que estudam ou pelo capital cultural que
carregam. O sofrimento não surge como resposta subjetiva isolada, mas como
efeito direto de um regime que demanda cada vez mais, enquanto entrega cada vez
menos em termos de cuidado, reconhecimento e pertencimento institucional. Ao
exigir autogestão, produtividade e adesão acrítica a normas empresariais, o
modelo universitário-empresarial converte-se em máquina de exaustão emocional,
precarização da existência e exclusão simbólica silenciosa, naturalizando a
desigualdade como se fosse resultado de mérito individual.
Maia (2024, p. 122-125)
aponta como a chamada “lógica CAPES” de avaliação impacta diretamente tanto o
corpo docente quanto o discente, especialmente no que diz respeito ao acesso
aos programas de pós-graduação e à forma como o desempenho acadêmico é
mensurado. Todo o corpo universitário (professores, estudantes, departamentos,
coordenações e centros) passa a ser avaliado a partir de critérios que operam
como imperativos de produtividade e excelência, muitas vezes dissociados da
realidade concreta dos câmpus em que atuam. Não se
trata apenas de responder a expectativas institucionais, mas de suportar um
sofrimento gerado pela ausência de condições materiais, simbólicas e
institucionais mínimas para atingir os padrões exigidos, o que levanta a
questão: como justificar a aplicação uniforme de métricas e exigências que
ignoram as profundas desigualdades estruturais entre os diferentes territórios
universitários?
O que se vê é a
exigência de um desempenho acadêmico pautado por critérios de excelência
descolados da realidade material vivida por grande parte dos discentes. Como
aponta Maia (2024, p. 124), o Currículo Lattes passou a ocupar o lugar de
“forma mais bem acabada de quantificação do desempenho produtivista
neoliberal”, funcionando como filtro para o ingresso nos programas de
pós-graduação. Em casos específicos, a produção, afirma o autor, “é pouco
incentivada e orientada [...] justamente porque o foco do modelo está na
bonificação e no reconhecimento dos departamentos e professores nas próprias
pós-graduações”.
Com isso, instala-se
uma contradição: exige-se precocemente dos estudantes uma postura performática,
enquanto se negligencia o papel formativo da graduação, relegando-os a um
sentimento de solidão e inadequação. Esse cenário remete a uma educação
curricular engessada, na qual o exercício do pensamento crítico e criativo é
secundarizado, e o desempenho se reduz à reprodução de normas, métricas e
resultados quantificáveis. A universidade, assim, converte o desejo por
aprofundamento acadêmico em mais um espaço de gestão subjetiva da precariedade,
mascarada por promessas de meritocracia e reconhecimento
A consolidação da
“ideologia do produtivismo acadêmico” engendra uma
nova gramática do sofrimento, na qual o valor do sujeito depende de sua
capacidade de performar, publicar e competir. Como observa Maia (2024, p. 125),
“quem entra numa universidade hoje, especialmente nas públicas, encontra o
reino da ideologia do produtivismo acadêmico”. Essa
lógica contínua de avaliação e comparação transforma angústia e exaustão em
efeitos estruturais do ambiente acadêmico, em que, como alerta Han (2015, p. 22), “o cansaço de esgotamento não é um
cansaço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa.”
Falar em uma gramática
do sofrimento no interior da universidade contemporânea é reconhecer que o
sofrimento psíquico não é apenas vivido individualmente, mas é também
articulado, normatizado e inteligível a partir de determinadas regras e lógicas
que estruturam sua expressão. O termo “gramática” é aqui escolhido por remeter
ao conjunto de normas que definem como algo pode ou deve ser enunciado em uma
determinada linguagem. Assim como uma gramática linguística organiza as
possibilidades do dizer, a gramática do sofrimento organiza os modos legítimos
de sentir, sofrer e expressar dor no espaço acadêmico. Não se trata apenas de sofrer, mas de como se sofre, quando se pode dizer que está sofrendo
e quais formas de sofrimento são
reconhecidas e acolhidas dentro da racionalidade institucional.
Diante desse contexto
de exigência contínua e de autovalorização ininterrupta, o sofrimento legítimo,
nessa lógica, é aquele que pode ser superado por meio de coaching emocional,
inteligência afetiva e autogestão psíquica, pois tais dispositivos reconfiguram
a dor como desafio individual e não como expressão de contradições
institucionais ou sociais. O problema, portanto, não reside na existência do
sofrimento, mas no seu formato gramatical: ele precisa caber na
linguagem do mérito, da superação e do capital humano. O que escapa a essa
moldura é considerado disfuncional, improdutivo e dispensável. Ao apontar para
essa gramática, abre-se a possibilidade de investigações futuras que aprofundem
o estudo do sofrimento enquanto dimensão crítica e política das formas
contemporâneas de subjetivação.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Esta pesquisa
evidenciou que o sofrimento psíquico no ambiente universitário não pode ser
reduzido a questões individuais ou desvios patológicos, devendo ser
compreendido como sintoma das contradições estruturais do modelo neoliberal de
gestão acadêmica. Ao analisar as tensões específicas dos câmpus
do “continente”, ampliou-se a discussão para além das universidades centrais,
demonstrando como a precariedade material e simbólica intensifica pressões por
produtividade, autogestão emocional e desempenho contínuo.
O regime de avaliação
constante, em que cada ação é medida, quantificada e registrada, não apenas
institucionaliza a cultura da performance, mas produz estados de ansiedade,
adoecimento e exaustão emocional, como assinala Maia (2024, p. 125). Estudantes
e docentes enfrentam jornadas múltiplas, sobrecarga institucional e pressões do
mercado acadêmico, revelando que o sofrimento é estrutural e atravessa as
condições concretas de trabalho e vida universitária.
Apontar essas
articulações oferece um ponto de partida para investigações futuras sobre o
impacto do produtivismo acadêmico na saúde mental e
para a formulação de estratégias críticas e institucionais capazes de
confrontar a lógica excludente do neoliberalismo, promovendo cuidado,
reconhecimento e emancipação no espaço universitário.
ANDES-SINDICATO NACIONAL. Enquete
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Nelson da; DUNKER, Christian Ingo Lenz (org.). Neoliberalismo
como gestão do sofrimento psíquico. São Paulo: Autêntica, 2020.
[86] Bolsista pela Fundação de Amparo à
Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão - FAPEMA,
mestrando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da
Universidade Federal do Maranhão (PPGFIL/UFMA) e membro do grupo de pesquisa
NEO-BIO: Ontologia, Corpo e Biopolítica. E-mail: viniciusver4s@outlook.com