Recebido em: 27/08/2025
Aprovado em: 10/11/2025
Publicado em: 23/12/2025
DO
MUNDO DA VIDA AO PONTO CEGO:
o
esquecimento da experiência na atividade científica à luz do diálogo entre
Husserl e Frank
FROM THE LIFEWORLD TO THE BLIND SPOT:
the forgetting of experience in
scientific activity in light of the dialogue between Husserl and Frank
Carolina Fragomeni[87]
Resumo
O presente ensaio investiga o
apagamento da experiência vivida no campo científico a partir do diálogo entre
Edmund Husserl, em A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia
Transcendental (1936), e Frank, Gleiser e
Thompson, em The Blind Spot: Why
Science Cannot Ignore Human
Experience (2024). Em ambos as obras, denuncia-se a crescente tecnicização e matematização do
saber, que culmina na perda de sentido da atividade científica ao desconsiderar
seu fundamento originário: a experiência concreta. Para Husserl, a ciência
moderna, ao adotar uma visão objetivista, esqueceu-se do Lebenswelt
(mundo da vida), que sustenta toda atividade humana e científica. Já os autores
de Blind Spot atualizam essa crítica ao apontarem o ponto
cego da ciência contemporânea: a incapacidade de reconhecer a experiência
como condição de possibilidade do próprio fazer científico. Em um contexto
marcado por desafios como a crise climática, a inteligência artificial, o negacionismo científico e a polarização política, a crise husserliana reaparece de modo intensificado. Enquanto
Husserl propõe a fenomenologia transcendental como saída da crise, entendida
como retorno às essências e resgate da subjetividade transcendental como
condição do conhecimento, Frank e outros defendem, então, a necessidade de
integrar subjetividade e objetividade em novos modelos de investigação, como a neurofenomenologia, capaz de articular relatos de
experiência com dados empíricos.
Palavras-chave:
Husserl. Fenomenologia transcendental. Cientificidade. Mundo da vida.
Abstract
This essay investigates the erasure of lived
experience in the scientific field through the dialogue between Edmund Husserl,
in “The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology” (1936),
and Frank, Gleiser, and Thompson, in “The Blind Spot:
Why Science Cannot Ignore Human Experience” (2024). Both works denounce the
growing technicization and mathematization of
knowledge, culminating in the loss of meaning of scientific activity by
disregarding its original foundation: concrete experience. For Husserl, modern
science, by adopting an objectivist vision, has forgotten the Lebenswelt (lifeworld), which sustains all human and
scientific activity. The authors of *Blind Spot* update this critique by
pointing out the blind spot of contemporary science: the inability to recognize
experience as a condition for the possibility of scientific endeavor itself. In
a context marked by challenges such as the climate crisis, artificial
intelligence, scientific denialism, and political polarization, the Husserlian crisis reappears in an intensified form. While
Husserl proposes transcendental phenomenology as a way out of the crisis,
understood as a return to essences and the recovery of transcendental
subjectivity as a condition of knowledge, Frank and others argue for the need
to integrate subjectivity and objectivity into new research models, such as
neurophenomenology, capable of articulating accounts of experience with
empirical data.
Keywords: Husserl. Transcendental phenomenology. Scientificity.
Lifeworld.
INTRODUÇÃO
A experiência é uma das principais formas de expressão da
humanidade, e é também o solo onde se sedimenta o operar científico. Porém,
muitas vezes, ela acaba por ser encoberta devido aos processos de formalização
científica, que ocasionam um esvaziamento no seu próprio sentido. Na década de
30, Husserl já alertava para a crise das ciências e da existência no livro “A
Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental”. O tema,
resgatado quase 90 anos após a publicação da obra husserliana,
é retomado em “The Blind
Spot: Why Science Cannot
Ignore Human Experience” de Frank, Gleiser e Thompson.
O que une as duas obras é a denúncia do afastamento da
ciência em relação à experiência vivida. Isso porque, por mais que a
experiência seja o fundamento da atividade científica, a crescente tecnicização, especialmente da matemática e da física,
ocasionou uma perda de sentido e de legitimidade no operar científico. Assim,
ocorreria um esquecimento da experiência como fundamento e ponto de partida da
atividade científica, abordado por Husserl no século XX como uma “perda do
mundo da vida”, e por Frank como um “ponto cego”. Em ambos os casos,
demonstra-se uma necessidade de reorientar a racionalidade científica, para que
esta reintegre a subjetividade como condição de sentido. No século XX, Husserl
sugere como solução comum para todas essas crises interligadas, a fenomenologia
transcendental; e no século XXI, os autores de Blind Spot atuam como herdeiros críticos da obra husserliana,
atualizando seu diagnóstico no contexto das novas tecnologias.
Deste modo, o objetivo principal deste ensaio é analisar o
apagamento da experiência concreta na prática científica a partir dos conceitos
de Lebenswelt
(Mundo da Vida), em Husserl, e Blind Spot (ponto
cego) em Frank. Mais precisamente,
visa-se entender como esses conceitos explicam a negligência da experiência,
estabelecendo um diálogo entre a obra de Husserl e Frank. Procura-se, assim,
refletir sobre a como a crise das ciências do século XX se repete, de certa
maneira, nos dias atuais.
1.
A
CRISE, MUNDO DA VIDA E FENOMENOLOGIA TRANSCENDENTAL EM HUSSERL
“A Crise das Ciências Europeias” de Husserl é mais do que
uma denúncia de uma crise epistemológica, trata-se de uma denúncia de uma crise
espiritual e existencial da Europa. Isso porque se os processos racionais de
conhecimento estão em crise, também o próprio sentido da existência e da
humanidade estariam em crise, na medida em que há uma relação direta entre o
processo de conhecer, o objeto a ser conhecido e importância de sua descoberta
para vivência humana. Para o autor, por mais que a ciência houvesse conquistado
tantos avanços, a humanidade estaria vivenciando uma crise existencial. Após a Primeira Guerra Mundial,
Husserl e outros filósofos alemães refletiam sobre a “natureza da
cultura contemporânea e a necessidade de uma revisão da tarefa da filosofia e
de uma "renovação" (Erneuerung) dos valores
ocidentais ou "europeus" da humanidade” (Moran, 2012, p. 33), uma vez
que percebiam o continente
europeu desencantado com o progresso civilizatório do Ocidente. A crise surge,
assim, como uma face do fracasso europeu, apesar de todos os avanços
tecnológico-científicos. Nesse viés, Husserl articula sua Krisis como um “profundo questionamento crítico e
reflexão sobre o significado da humanidade e os ideais humanistas do
Iluminismo” (Moran, 2012, p.5). A partir dessa percepção, de que a sociedade
necessitaria de uma cura para a desesperança da época, Husserl “embarca em uma
investigação intensiva sobre o significado da interpenetração cultural humana
com o mundo, o mundo da experiência viva, o que ele chama de "mundo da
vida" (Lebenswelt), [...] como uma forma de
reorientar e fundamentar tanto as ciências naturais quanto as humanas” (Moran,
2012, p.5).
Partindo do ideal renascentista, que buscava restaurar as
bases de autorrealização inauguradas pelos gregos antigos, a crise husserliana se desmembra como uma consequência direta da
revolução objetivista: “uma revolução caracterizada pelo seu ideal quantitativo
de método, sua nítida distinção entre fatos e valores, e sua insistência de que
a ciência e somente a ciência podem descrever a realidade como ela é em si
mesma” (Zahavi, 2003, p.126).
Husserl
não pretende, entretanto, dizer que as ciências fracassaram, a ponto de
entrarem em crise. Pelo contrário, o paradigma objetivista da ciência foi, de
fato, bem sucedido. No entanto, “as ciências positivas tiveram um
sucesso tão imenso que não refletem mais sobre seus próprios fundamentos e
eventuais limitações, mas apenas se preocupam com questões técnicas avançadas
[...] como também perderam sua relevância existencial” (Zahavi,
2003, p. 125). Isto é, percebe-se que as ciências evoluíram tanto a ponto de
não refletirem mais a sensibilidade humana examinada por elas: tudo passou a
ser resumido em códigos, fórmulas e tabelas científicas, que afastam a
estrutura humana do produto final. Perde-se, assim, o sentido do fazer
científico na medida em que ele não revela mais em si sua característica
principal e norteadora: a humanidade.
Para tanto, a fim de superar a crise das ciências, Husserl
introduz o conceito nuclear de sua obra, que permite entender o princípio do
esquecimento da experiência, e de que modo pode-se solucionar esse problema. O
“mundo da vida” (Lebenswelt)
é o “único mundo alguma vez experienciado e experienciável”
(Husserl, 2012, p. 38). Esse conceito articula-se de modo complexo na sua obra
pois “embora constitua o fundamento histórico e sistemático da ciência, foi
esquecido e reprimido por ela” (Zahavi, 2003, p.
126).
Para o autor, o mundo da vida é a estrutura pela qual
compartilhamos sentidos e valores (estéticos, éticos, científicos), ao mesmo
tempo que pode ser entendido como um solo comum de empreendimentos. É sobre
esse terreno comum, permanente e pré-reflexivo que a
ciência se desenvolve e floresce, pois o cientista parte deste para realizar
suas experiências e pesquisas. Desde a Grécia antiga, a compreensão de verdade
e conhecimento sempre esteve relacionado à ideia teleológica de “uma ciência
universal, que abrange todo o conhecimento possível na sua infinitude [...]”
(Husserl, 2012, p. 99). Como bem articula Moran, o mundo da vida pode ser
definido como
O mundo do mundo pré-dado, familiar, presente, disponível e circundante,
incluindo tanto a "natureza" quanto a "cultura" (sejam
quais forem as suas definições), que nos envolve e está sempre presente, como
algo dado como certo. O mundo da vida também fornece um conjunto de horizontes
para toda a atividade humana. O mundo da vida é, nos termos de Husserl, o
"fundamento" de todo significado e atividade proposital humana
(Moran, 2012, p. 7).
Assim, a validade objetiva de toda a tarefa da ciência exige
que se comece por indagar acerca do mundo da vida pré-dado,
apresentando-se como um universal-comum. Nesse sentido, Husserl defende a
primazia do mundo da vida em relação ao mundo científico. Isso porque o autor
entende que a tecnicização científica do pensar forma
um processo de simbolização, esvaziando seu próprio sentido.
A roupagem de ideias da “matemática e ciência matemática da
natureza”, ou a roupagem dos símbolos, das teorias simbólico-matemáticas,
abrange tudo aquilo que, para os cientistas, assim como para os homens
instruídos, substituí o mundo da vida e o mascara, como a natureza
“objetivamente efetiva e verdadeira” (Husserl, 2012, p. 41).
O autor conclui que o processo de matematização
da natureza, como o emprego de fórmulas e símbolos para descrevê-las, auxilia,
evidentemente, a tarefa do cientista na experiência, promovendo maior grau de
certeza e precisão no operar científico. Mas, devido ao fato deste processo
nascer desse solo empírico, há um encobrimento do pensar originário por meio da
substituição da realidade vivida pelo emprego matemático. Desta forma, se perde
o pensar originário do mundo concreto intuível, que,
paradoxalmente, também serve de base para a formalização e simbolização.
A matematização, com as fórmulas
por ela alcançadas, é, então, a realização decisiva para a vida. A partir
destas considerações compreende-se que o interesse apaixonado do pesquisador da
natureza se dirige de imediato, logo com a primeira concepção e execução do
método, para este terreno decisivo da realização de conjunto indicada, ou seja,
para fórmulas, e, sob o título de "método científico-natural' [...] Este
"sentido como fórmulas" carece agora de um melhor esclarecimento, em
especial no que se refere à perda de sentido que se dá inevitavelmente com a
formação e exercício artificial dos métodos. […] Há, então, que considerar,
neste ponto, o enorme efeito, num certo aspecto salutar, num outro, funesto,
dos modos de pensar e das simbolizações algébricas que desde Vieta, ou seja, já antes de Galileu, se divulgaram na
Modernidade. Em primeiro lugar, elas significam uma ampliação gigantesca das
possibilidades do pensamento aritmético herdado nas antigas formas primitivas.
Este se torna, agora, um pensar apriorístico livre, sistemático e inteiramente
liberto de toda a efetividade intuível, sobre números
em geral, correlações e leis numéricas. Logo que é aplicado, com todas as suas
ampliações, na geometria, em toda a matemática pura das figuras
espaço-temporais, estas se tornam inteiramente formalizadas de modo algébrico
com um propósito metódico. Surge, então, uma ‘aritmetização
da geometria': uma aritmetização de todo o domínio
das puras figuras (das retas, dos círculos, dos triângulos, dos movimentos, das
relações de lugar ideais etc.) (Husserl, 2012, p. 34).
Esse solo “encoberto”, gerando uma perda de sentido e a
consequente crise das ciências. Isto é, o esquecimento do sentido do mundo da
vida. Percebe-se, então, que o mundo da vida é o fundamento do próprio modo de
operar científico, uma vez que as ciências estão construídas sobre sua
obviedade, usando-a para a realização de seu fim. No entanto, seu encobrimento
é também a causa da crise científica. Como consequência, tem-se uma
automatização da racionalidade moderna, de modo que esta
se torna cega à vida concreta.
De certo modo, esta aritmetização
da geometria conduz como que por si mesma ao esvaziamento do seu sentido. As
idealidades efetivamente espaço temporais, tal como originalmente se expõem no
pensar geométrico sob o título usual de "intuições puras': transformam-se,
por assim dizer, em puras figuras numéricas, em configurações algébricas. No
cálculo algébrico faz-se automaticamente retroceder, ou abandona-se mesmo por
completo, o significado geométrico; calcula-se, e só no fim se recorda que os
números deviam significar grandezas. Não se calcula, porém,
"mecanicamente" como nos cálculos numéricos habituais; pensa-se,
inventa-se, fazem-se eventualmente grandes descobertas - mas com um sentido
insensivelmente deslocado, "simbólico': Daí advém, mais tarde, um
deslocamento metódico inteiramente consciente - uma transição metódica, por
exemplo, da geometria para a análise, tratada como ciência autônoma, e uma
aplicação à geometria dos resultados nela alcançados (Husserl, 2012, p.35).
De modo particular, Husserl atribuí à Galileu, o papel de
“descobridor e encobridor” do solo do mundo da vida. Isso porque “ele descobre
a natureza matemática, a ideia metódica, desbrava o caminho para a inanidade
dos descobridores e das descobertas físicas […] é um
descobrimento-encobrimento, e tomamo-lo até hoje como a pura verdade” (Husserl,
2012, p.42). E, assim, percebe-se que há uma “redução” do mundo à objetividade:
esquece-se que o mundo é primeiramente vivido e experienciado subjetivamente,
para depois ser tecnicizado. Por mais que o cientista
tente se descolar da subjetividade do mundo da vida, essa instância não pode
ser superada, pois o seu fazer científico parte desse campo, e, posteriormente,
retorna ao mesmo para confirmação
O saber do mundo científico objetivo "funda-se" na
evidência do mundo da vida. Ele é dado de antemão ao trabalhador científico e à
comunidade de trabalho como solo. No entanto, embora seja construído sobre este
solo, o edifício é novo, é um outro. Se deixarmos de estar imersos no nosso
pensar científico, aperceber-nos-emos de que os cientistas são homens e, como
tais, partes constituintes do mundo da vida, para nós sempre existente,
continuamente pré-dado, e a ciência inteira se
insere, então, juntamente conosco, no mundo da vida o meramente "relativo
ao sujeito' (Husserl, 2012, p. 106).
Ao posicionar-se no solo do mundo da vida, desconsideram-se,
então, todos os conhecimentos objetivo-científicos, realizando a epoché
fenomenológica. Husserl defende que é preciso considerar os processos
subjetivos e intersubjetivos do próprio conhecimento para entender o que é
ciência, e desta forma, a subjetividade e o sentido originário da experiência
poderão ser resgatados por meio da fenomenologia (uma vez que pode ser
entendida como um retorno às essências e ao "mundo da vida").
A fenomenologia de Husserl pode ser entendida como “a ciência descritiva de
experiências vividas conscientemente e dos objetos dessas experiências,
descritos precisamente na maneira como são vivenciados” (Moran, 2012, p.4). Todavia,
não é mais uma filosofia dentre outras, mas sim uma forma madura da filosofia
moderna em si, “a forma mais
elevada de filosofia transcendental, o epítome do pensamento autoconsciente que
questionou suas próprias suposições e, portanto, pode ser genuinamente visto
como a forma mais radical e fundamental de reflexão” (Moran, 2012, p.8).
Nesse viés, Husserl entende que precisa-se suspender os
juízos acerca das crenças que cada um possui a respeito de como o mundo se
revela. Assim, todas as afirmações que seriam feitas sobre a existência do
mundo não seriam negadas, mas suspensas, ou ainda, “colocadas entre
parênteses”. E, ao realizar tal ato, o que restaria seria um resíduo do mundo,
ou seja, o mundo como fenômeno de existência. Percebe-se que, em última
instância, o que resta é o território da subjetividade (não psicológica, pois
esta foi suspensa) mas transcendental, pura. Assim, esta subjetividade
transcendental não é parte do mundo, uma vez que a prática científica e da vida
cotidiana se dão em uma superfície do solo. A proposta fenomenológica
transcendental de Husserl permite, então, um retorno à estrutura do mundo da
vida, pondo o sujeito em contato com o transcendental e resgatando a
importância da experiência vivida face ao objetivismo científico que a
encobriu.
2. O PONTO CEGO EM FRANK
A crise da ciência e da legitimidade articulada por Husserl
no século passado se projeta nos dias atuais. Em “The Blind Spot: Why
Science Cannot Ignore Human
Experience”, os autores atualizam o cenário husserliana,
retomando a crítica à cientificidade como separação da existência. Agora,
diferentemente dos anos 30, a crise parece englobar mais desafios: crise
climática, avanço da inteligência artificial, negacionismo
científico e polarização política. No entanto, não deixa de ser uma continuação
do cenário de incertezas sobre as limitações da ciência e do conhecimento
humano. “A polarização entre o triunfalismo científico e a negação da ciência,
combinada com a ameaça existencial ao mundo da vida decorrente das mudanças
climáticas causadas pelo homem, indica que exacerbamos o problema neste século.
A crise de Husserl ainda é a nossa crise” (Frank et al, 2024, p. 23).
A expressão “ponto cego” indica uma metáfora crítica: a
ciência vê muito, mas não vê a si mesma como prática situada e existencialmente
condicionada. Essa perspectiva direciona o pensamento das pessoas para um viés
específico, englobando os avanços tecnológicos, o aumento do poder econômico e
militar, e as medidas utilizadas para cuidar de recursos naturais, tecnologias
da informação e inteligência artificial. O ponto cego instaura-se, juntamente
com esses conceitos, com o advento das formulações e abstrações matemáticas,
consideradas pelos cientistas como “o que é verdadeiramente real e à desvalorização
do mundo da experiência imediata, que Husserl chamou de "mundo da
vida"” (Frank et al, 2024, p.
23). A humanidade moderna perde de vista, portanto, o fato de que a realidade e
o significado são muito mais ricos do que a sua representação.
Chamamos a fonte da crise de significado de Ponto Cego. No
cerne da ciência reside algo que não vemos e que torna a ciência possível,
assim como o ponto cego reside no cerne do nosso campo visual e torna a visão
possível. No ponto cego visual reside o nervo óptico; no ponto cego científico
reside a experiência direta — aquela pela qual qualquer coisa aparece, se
revela ou se torna disponível para nós. É uma pré-condição para observação,
investigação, exploração, mensuração e justificação. As coisas aparecem e se
tornam disponíveis graças aos nossos corpos e às suas capacidades de sentir e
perceber (Frank et al, 2024, p. 13).
É precisamente esse o ponto que os autores pretendem
modificar: a formulação de uma nova concepção de ciência que explicitamente
reconhece a experiência corporificada como ponto de partida, ou seja, como algo
que não possa ser completamente objetificado. Isso
porque “Toda ciência é sempre nossa ciência, profunda e irredutivelmente
humana, uma expressão de como experienciamos e interagimos com o mundo” (Frank et al, 2024, p. 17).
A crítica de Husserl serve como base
à teoria do ponto cego pois, atualmente, enfrenta-se os mesmos desafios de sua
época, ou ainda, mais intensificados. Um exemplo que ilustra a supervalorização
da tecnicidade sobre a experiência é o da temperatura e do termômetro. A
construção de termômetros depende inteiramente da validade das sensações do
cientista de sentir quente e frio. A teoria da termodinâmica, contudo, parece
ter encoberto a prática empírica conferindo uma concepção abstrata de
temperatura, deturpada de elementos subjetivos. “Isso acontece quando ficamos
tão presos na espiral ascendente de abstração e idealização que perdemos de
vista as experiências concretas e corporais que ancoram as abstrações e permanecem
necessárias para que sejam significativas” (Frank et al, 2024, p. 15). Nos tornamos reféns do ponto cego ao confiar
excessivamente na representação abstrata de temperatura introduzida pela
termodinâmica, e não nas sensações pessoais de quente e frio.
Para Husserl, essa substituição é um erro fundamental. No
desenvolvimento da cosmovisão científica moderna, que Husserl considera ter
começado com Galileu, a representação abstrata e idealizada da natureza na
física matemática é secretamente substituída pelo mundo real concreto, o mundo
que percebemos. O mundo perceptivo é rebaixado ao status de mera aparência
subjetiva, enquanto o universo da física matemática é promovido ao status de
realidade objetiva. Assim, de acordo com essa forma de pensar, a temperatura ou
a energia cinética média de átomos ou moléculas é o que é objetivamente real,
mas as sensações de quente e frio são meras aparências subjetivas (Frank et al, 2024, p. 29).
Percebe-se aqui a atemporalidade da crítica husserliana: os cientistas atuais ainda experienciam o solo
do mundo da vida, dado sensorial e concretamente. Em contrapartida, consideram
como cruciais o mundo científico, que nada mais é do que um sistema ideal, que
perpassa a experiência sensorial.
Enquanto os objetos no mundo da vida são caracterizados por
sua doação relativa, aproximada e perspectivista —
quando eu experimento a água como fria, meu amigo pode experimentá-la como
quente; minha perspectiva sobre a mesa não é completamente idêntica à do meu
vizinho — os objetos da ciência são caracterizados como irrelativos,
não perspectivos, unívocos e exatos (Zahavi, 2003, p.
126).
Do mesmo modo, os autores tratam da questão do crescente uso
das inteligências artificiais. Por mais que sejam capazes de desempenhar
tarefas com um certo grau de autonomia, falta à essas ferramentas não apenas o
conceito de “ser vivo” mas a experiência de estar vivo. Apesar de conseguir
gerar textos, reconhecer imagens e jogar jogos que se baseiam em redes neurais
e padronizações, as inteligências artificiais não conseguem ter capacidade de
julgamento, entendimento de relevância ou qualquer tipo de sensibilidade ao
resultado apresentado. Isso porque jogos, e até carros que dirigem sozinhos com
essas ferramentas, enfrentam situações imprevisíveis, e não são capazes de
generalizar suas habilidades. Por exemplo, em contextos de carros que dirigem
ou estacionam de forma autônoma, as condições climáticas, das rodovias e
acidentes entre carros e pedestres interferem de maneira imprevisível na sua
atuação. Difere, assim, de um indivíduo
que joga um determinado jogo, consegue se aperfeiçoar e formar analogias,
criando o conceito de relevância.
Estes são apenas alguns exemplos que demonstram uma
continuidade e um certo reflexo do que Husserl já percebia no seu tempo, e,
assim como o filósofo, Frank, Gleiser e Thompson
entendem que as abstrações não são o real problema, mas sim a substituição
definitiva da experiência pelo triunfalismo científico (Frank et al, 2024, p. 329). Os desafios se
intensificaram e se diversificaram, mas o ponto de partida perdido é o mesmo:
“A tragédia que o Ponto Cego nos impõe é a perda do que é essencial ao
conhecimento humano — nossa experiência vivida. O universo e o cientista que
busca conhecê-lo tornam-se abstrações sem vida” (Frank et al, 2024, p. 17).
Ainda, importa notar que em ambas as obras há uma proposta
de retorno à subjetividade como base do conhecimento. Contudo, enquanto Husserl
sugere uma ciência fenomenológica da experiência, os autores de Blind Spot operam como críticos da ciência
contemporânea, com foco ético-político, propondo uma revisão epistemológica e
ética do fazer científico, mas sem recorrer à transcendentalidade:
Assim, as melhores práticas no domínio da ciência e da
sociedade incluem tomar consciência de como a história da ciência é contada ao
público. Sem dúvida, essa história trata da profunda capacidade da imaginação
humana e da nossa habilidade de prevalecer sobre a ignorância e o preconceito.
Mas se a história for contada como uma de transcendência do humano, então ela
se torna uma narrativa essencialmente religiosa sobre a busca por um
conhecimento perfeito além da nossa finitude. Em vez de dizer que a ciência é
um meio de nos elevarmos acima do grande e estranho mistério de sermos humanos
no vasto mundo, uma história melhor seria que a ciência nos leva mais fundo
nesse mistério, revelando novas maneiras de vivenciá-lo, de nos deleitarmos com
ele e, acima de tudo, de valorizá-lo (Frak et al,
2024, p. 331).
O objetivo dos autores ao alertar para o ponto cego, é para
que haja uma consciência coletiva do paradoxo causado pelo avanço científico.
“Ao invés de tentar evitar esse paradoxo, devemos abraçá-lo” (Frank et al, 2024, p. 325). Na medida em que a
ciência é um projeto colaborativo, o ponto cego precisa ser trazido à visão de
todos, a fim de que se possa achar novos caminhos para além dele. O primeiro
passo, portanto, para superá-lo, é ter consciência de que “a construção teórica
atual na ciência carrega o peso de suas perspectivas passadas. À medida que as
comunidades de pesquisa progridem, elas frequentemente enfrentam momentos
decisivos em que decisões entre diferentes estruturas explicativas são tomadas”
(Frank et al, 2024, p. 328), Assim,
muitos pontos de vista sedimentam-se em suposições que não foram analisadas, ou
ainda, são transmitidos como conhecimentos gerais, fatos notórios, algo como “o
que todos sabem”. E, assim, pode-se optar por seguir esse ponto de vista, ou
explorar alternativas para deixar o ponto cego para trás.
Ao superar o Ponto Cego, podemos compreender adequadamente a
importância crucial da objetividade como meio para o conhecimento público, sem
transformá-la em uma ontologia duvidosa. Mais importante ainda, podemos
apreciar quão notável é a atividade humana da ciência e quão necessária é a
luta por sua integridade, sem torná-la um substituto para crenças filosóficas
seculares que não são mais relevantes para onde estamos e para onde precisamos
ir. (Frank et al, 2024, p. 331)
Não se trata de realizar o processo de fenomenologia
transcendental sugerido por Husserl, uma vez que para os autores, busca-se
enriquecer a ciência com a subjetividade, incorporando esta última como um dado
legítimo. Por meio de um modelo de integração da experiência subjetiva com a
investigação científica, é proposta a “neurofenomenologia”.
Essa abordagem, entendida como um dos esforços mais promissores para
ultrapassar o ponto cego, baseia-se na ideia de que pessoas que conseguem gerar
e sustentar a “metaconsciência consciente” podem
produzir relatórios qualitativos e temporais precisos sobre suas experiências,
de modo que podem ser utilizados para revelar padrões de atividade no cérebro e
no resto do corpo que, de outra forma, seriam perdidos. Em suma, é um tipo de
atividade que pode ser bem sucedida “para obter novos insights sobre a
experiência” (Frank et al, p. 291).
Por fim, vale ressaltar que a
proposta dos autores é adequada para a enorme variedade de desafios que a
ciência enfrenta no século XXI, pois estabelece um diálogo interdisciplinar
entre as ciências naturais e a experiência. Se pretende, deste modo, incluir
métodos de experiência e subjetividade à objetividade científica, a fim de
resgatar a importância da experiência vivida, porém, sem deixar de lado as
contribuições bem sucedidas da tecnicização da
ciência.
CONCLUSÃO
O esquecimento da experiência concreta nas ciências é um
problema estrutural já denunciado por Husserl nos anos 30 e radicalizado no
diagnóstico de Frank em 2024. Ambos os conceitos, de mundo da vida e de ponto
cego, convergem na crítica à abstração desumanizada do saber científico.
Enquanto a tese husserliana ocupava-se de entender
que a razão estava em crise pelo advento da Grande Guerra e a desesperança da
população, o fundamento dos autores de The
Blind Spot é o tempo de polarização
político-social que vivencia-se no século XXI. Além disso, outros desafios se
instauram hodiernamente: o negacionismo científico,
as limitações e avanços da inteligência artificial e a (des)preocupação
com o meio ambiente. Tomando essas ideias como norte, os autores entendem que o
mesmo fenômeno acusado por Husserl na sua Krisis, a saber, de
sobrevalorização da tecnicização e simbolização dos
processos empíricos, se repete nos dias de hoje, porém de maneira mais
intensificada.
Percebe-se que a crítica husserliana,
articulada ao entorno do conceito central de “mundo da vida” - ao mesmo tempo
fornecedor das bases do operar científico e solo esquecido pela crescente matematização da experiência - é extremamente atual. A
diferença reside na solução que os autores conferem para retornar à experiência
vivida.
Para Husserl, trata-se de suspender os juízos acerca das
crenças que se têm sobre como o mundo se revela. A chamada epochè transcendental, ou a “colocação do mundo entre parênteses”
revela-se como uma face do projeto fenomenológico de Husserl. Tem-se, assim, um
resíduo do mundo, ou ainda, o mundo como fenômeno de existência. O futuro da
cientificidade depende da capacidade de se reorientar a partir dos experimentos
subjetivos, recuperando sua condição fenomenológica.
Já para os autores de Blind Spot, a fenomenologia transcendental de Husserl não se adequa ao
século XXI. Precisa-se, de fato, retornar ao solo do mundo da vida resgatando a
primazia da experiência vivida, mas de outro modo. A partir da consciência de
que o ponto cego existe, e que precisa-se buscar alternativas para deixá-lo
para trás, Frank, Gleiser e Thompson oferecem algumas
alternativas de inclusão da subjetividade no operar objetivista científico.
Como, por exemplo, a neurofenomenologia, que se
apresenta como uma alternativa de incluir as experiências pessoais ao campo
técnico científico. Logo, o diálogo promove visões complementares que se
originam de um problema comum. Ainda se enfrenta a crise de Husserl, que se
revela mais forte e desafiadora. No entanto, com novos desafios, tem-se,
também, novos arsenais para garantir o triunfo da racionalidade, o retorno ao
mundo da vida, e a assistência mútua entre experiência e ciência.
REFERÊNCIAS
FRANK, Adam; GLEISER, Marcelo; THOMPSON, Evan. The blind
spot: why science cannot ignore human experience Cambridge, Massachusetts. The
MIT Press, 2024.
HUSSERL, Edmund. A
crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental: uma introdução à
filosofia fenomenológica. Tradução de Diogo Falcão Ferrer- 1.ed. - Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2012.
MORAN,
Dermot. Husserl’s Crisis of the European
Sciences and Transcendental Phenomenology: an introduction. Cambridge
University Press. 2012.
ZAHAVI, Dan.
Husserl’s Phenomenology. Stanford
University Press. Stanford, California.
2003.
[87] Graduada em Filosofia (Bacharelado) e Mestranda em Filosofia
Crítica e Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graduanda em
Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). E-mail:
carolfragomeni@gmail.com