Recebido em: 11/09/2025

Aprovado em: 16/09/2025

Publicado em: 23/12/2025

 

RESENHA

 

DIAS, Geraldo. Nietzsche no Brasil (1892-1945): Traduções de textos do filósofo alemão, artigos e poemas a seu respeito publicados na imprensa. Curitiba: Editora CRV, 2024, 202p.

 

Leovan Morais Rodrigues Neto[111]

 

 

            Em seu célebre escrito Em busca de um lugar ao Sol (2007), Ivo da Silva Júnior formula uma indagação imprescindível para pesquisadores brasileiros que trabalham com Nietzsche: “Qual o sentido de estudar Nietzsche no Brasil?” (Silva Júnior, 2007, p.183). Ora, a resposta para a questão parece-nos absolutamente multifacetada. Nietzsche foi uma figura marcante em diversos aspectos na cultura e formação brasileira. O próprio autor indica que a pergunta pode receber um primeiro direcionamento, a partir do reconhecimento da importância da figura do filósofo alemão nas “artes plásticas, no teatro, na literatura, nas ciências humanas em geral, na política, para dizer o mínimo seu pensamento faz-se sentir” (Silva Júnior, 2007, p.183).

            Ao atentarmos para esta questão e suas possíveis respostas, direcionamos o nosso olhar para o recém publicado livro de Geraldo Dias, cujo tema é enunciado com o título: o autor pretende retratar a recepção de Nietzsche no Brasil. Mais do que isso, Dias amplia a nossa visão de recepção da presença de Nietzsche no cotidiano do povo brasileiro, tanto com as traduções quanto com artigos e poemas publicados a respeito do filósofo alemão em jornais e revistas. Já o título do livro, assim, revela seu objetivo de resgate das “primeiras traduções de trechos de Friedrich Nietzsche e alguns dos primeiros artigos e poemas a seu respeito publicados na imprensa brasileira” (Dias, 2024, p.11).

O trabalho de Dias, notoriamente, divide-se em dois momentos. No primeiro, o autor apresenta as diversas traduções de textos importantes da obra de Nietzsche no Brasil; no segundo, apresenta uma diversidade de textos publicados em jornais cujo tema é o filósofo alemão. Neste sentido, Dias demonstra não só o ensejo da intelectualidade brasileira em buscar uma distração de si mesma, mas também revela as ambições de renovações progressistas que não abandonam, ainda assim, a reação conservadora (Dias, 2024, p.11). Mais do que esse retrato, observamos como a figura de Nietzsche fascinou seus leitores em terras brasileiras e como seus temas eram discutidos, tanto em relação aos acontecimentos nacionais quanto internacionais.

Ainda neste sentido, é salutar observarmos o período dos textos. A atmosfera da recepção de Nietzsche no Brasil é marcada por numerosas publicações em jornais do período. A imprensa brasileira vinculava com fervor as ideias do filósofo alemão. Percebemos, com isso, que mesmo nos últimos anos da vida de Nietzsche até o fim da Segunda Guerra Mundial, as ideias do filósofo de Sils Maria afetaram os leitores brasileiros, deixando-os por vezes interessados e até, por vezes, encantados. Cumpre notar, igualmente, que o agitado cenário político no Brasil e no mundo fez com que as ideias de Nietzsche circulassem nesse campo da política, ora atribuindo culpa às ideias do filósofo pela Primeira Guerra Mundial — como o caso de Lima Barreto, em sua crítica à obra de Albertina Bertha intitulada Estudos (Dias, 2024, p.143-146) —, ora negando esta influência de Nietzsche na Primeira Grande Guerra — caso de Sud Mennucci (Dias, 2024, p.139-141) —. 

Não só isso, mas o livro organizado por Dias aponta para textos, no período da Segunda Guerra Mundial, nos quais a relação de Nietzsche com o Partido Nazista foi amplamente explorado[112]. Os artigos de José Lins do Rego (O Nietzsche de Hitler), Dalcídio Jurandir (Nietzsche e a caricatura nazista do Super-homem), Renalto Almeida (Frederico Nietzsche), Evaristo de Moraes Filho (O centenário de Nietzsche e o nazismo) discutem como os membros do partido nazista utilizaram Nietzsche como uma espécie de antecessor intelectual. Destacamos, neste cenário, que a recepção realizada por Renato Almeida destoa em relação aos outros justamente por este autor apontar para o estado nazista enquanto uma linha reta do misticismo de Nietzsche, o qual estaria mergulhado em um inconsciente racial germânico. Evaristo de Moraes Filho, seguindo uma linha contrária em relação a Renato Almeida, ainda neste debate, analisa os termos filosóficos de Nietzsche, fornecendo uma (breve) leitura de conjunto do filósofo alemão, como forma de constatar que Nietzsche não é a inspiração imediata do nazismo. O partido nazista, ao contrário — defende Evaristo de Moraes Filho — dispõe de uma ideologia e de uma práxis que divergem interinamente das propostas do filósofo do martelo. Dalcídio Jurandir, neste debate, opera uma análise da noção do Ubermensch [super-homem][113], evidenciando o contraste entre a ideia nietzschiana e o empenho de rebanho do partido nazista. José Lins do Rego, ainda neste tema, partindo da questão se Nietzsche seria o mentor de Hitler, constata que quando o ditador observa o filósofo alemão, vê refletindo sua própria ânsia de domínio. O escritor de Menino de Engenho concebe que, enquanto Nietzsche buscava uma reforma no ser humano, Hitler buscava uma dominação mundial.

Os textos revelam como Nietzsche, mesmo sendo adotado pelo nazismo como seu antecessor cultural, não foi esquecido pela intelectualidade brasileira. Mais do que isso, os textos revelam que as deturpações do nazismo em relação a Nietzsche não foram tomadas como corretas, mas passaram por um crivo crítico de análise — com destaque a Evaristo Moraes Filho — à obra do filósofo alemão. Sem se remeter às adoções conceituais nazistas, os autores disputam as noções de Ubermensch, de guerra e de senhores e escravos adotadas e deturpadas pelo partido alemão. Uma estratégia para tal foi o afastamento das considerações nietzschianas das questões políticas (Dalcídio Jurandir) e sociais (Evaristo Moraes Filho).

Ainda destacamos um tema de grande relevância na receptividade de Nietzsche pela intelectualidade brasileira no período: a relação do autor com as mulheres. O número de traduções de textos do filósofo que tangenciam o assunto é digno de destaque. Trechos de Além de bem e mal e Humano, demasiado humano foram traduzidos em períodos diversos. Não apenas com traduções, mas ainda em artigos de jornais, a relação entre Nietzsche e as mulheres era evidenciada. Júlio Erasmo, João Ribeiro, Albertina Bertha e Mário de Lima dedicaram, ora mais ora menos, alguns momentos de seus artigos para refletir sobre este tema. Mário Lima, de forma mais detalhada, transforma esta questão no principal tema de seu escrito intitulado A Mulher na Vida e na Obra de Nietzsche, publicado no A.B.C: Política, Atualidades, Questões Sociais, Letras e Artes no ano de 1922. Inspirado pela Conferência de Albertina Bertha — encontrada na íntegra no livro de Dias —, o autor assevera que as ideias desenvolvidas por Nietzsche acerca das mulheres são reflexos diretos da influência de Schopenhauer. Ainda neste tópico, o autor realiza uma análise sobre as mulheres que fizeram parte da vida de Nietzsche, com ênfase em Elisabeth Förster-Nietzsche, Franziska Oehler, Cosima Wagner, Malwida von Meysenbug e Lou Andréas-Salomé. A passagem que inspirou Mário Lima, do texto de Albertina Bertha, afirma que o tratamento de Nietzsche em relação às mulheres é de um pensador que não possuiu uma opinião cabal e nem tampouco exata, ficando apenas à beira da estrutura moral feminina (Dias, 2024, p.135).  

Como a passagem que nos remonta a Albertina Bertha, gostaríamos de destacar um aspecto desta recepção brasileira evidenciada nos textos selecionados por Dias, a de que o filósofo foi fonte de estudos aprofundados e extremamente influentes no começo do século XX. A conferência de Albertina Bertha, intitulada Nietzsche, proferida em 1914 no Salão do Jornal do Comércio (e publicada pelo veículo no mesmo ano), teve como objetivo divulgar o pensamento de Nietzsche entre o meio intelectual brasileiro (Dias, 2024, p.123) e buscou garantir uma interpretação de conjunto para a obra do filósofo alemão. Foram examinadas pela autora, de forma cautelosa, algumas teses levantadas pelo filósofo do martelo, como a ideia de Wille zur Macht [vontade de “Poder”], sua negação do livre-arbítrio, a noção de niilismo, a ideia de Ubermensch [Super-Homem] e as consequências destas no campo da moral. Ainda nessa conferência, Bertha alertava pela deturpação realizada das ideias de Nietzsche pelos alemães, sobretudo às noções da Herren-Moral [moral dos senhores] e Sklaven-Moral [moral dos escravos].

A ressonância desta Conferência de Bertha gerou debate não só diretamente, como é o caso com Mário Lima, mas também de forma indireta, com os apontamentos de Nietzsche em sua obra, como é o caso de Lima Barreto. O autor de Clara dos Anjos afirma uma profunda desavença à obra de Nietzsche, acusando-o de ser um dos responsáveis pela Primeira Guerra Mundial (como foi destacado acima). Nietzsche seria, para o autor, aquele que inspirou a Guerra de 1914 e o Esporte (com ênfase ao futebol) — o outro alvo de Lima Barreto neste debate —, a executou. Portanto, o escritor afirma que Albertina Bertha não estaria atenta à influência do filósofo nos acontecimentos do começo do Século XX.

Outro influente estudo de destaque, neste cenário, foi realizado por Araripe Júnior. Dias ressalta, em seu livro, dois escritos referentes a Nietzsche, ambos com discussões sobre arte. O primeiro, intitulado Ulisses e Dionysos, publicado em 1904 no Almanaque do Garnier, retrata o eco da obra Die Geburt die Tragödie [A Origem da Tragédia]. Neste breve escrito de 1904, o autor reflete como Nietzsche explica a decadência tanto da Grécia quanto do Ocidente a partir daquilo que denomina “a morte do espírito dyonisiaco” (Dias, 2024, p.98). Seu segundo escrito influente, intitulado O Sentimento Trágico do Século XIX, cuja terceira seção é referente a Nietzsche, mas com ênfase em como o filósofo busca definir o sentimento trágico no livro Die Geburt die Tragödie [A Origem da Tragédia]. Afirmando que o projeto de Nietzsche é uma continuidade em relação ao Fausto de Goethe, Araripe Júnior destaca como a ideia da tragédia é visada no século XIX, sustentando, neste âmbito, que a ansiedade trágica reflete a ansiedade do mundo moderno. Araripe Júnior, então, atenta para o âmbito de uma filosofia política, traduzida por Nietzsche em sua plasticidade.

Neste sentido, o texto desenvolvido por Elísio de Carvalho, intitulado Trágica História de um Criador de Valores, escrito com dedicatória a Araripe Júnior, também ocupa um local de destaque nos textos selecionados, uma vez que tenta da uma interpretação de temas centrais do pensamento nietzschiano. Neste, o autor considera o filósofo do martelo como o “maior filósofo dos tempos modernos, o homem que teve a mais livre inteligência e a mais fina sensibilidade do seu século” (Idem, p.107). Ao desenvolver os principais temas, Elísio de Carvalho assevera que a vida de Nietzsche, em todos os seus estados, fez com que o filósofo se deparasse com um “país desconhecido, cujas fronteiras ainda não tinham sido vistas por ninguém” e ainda com que conquistasse “um mundo tão rico de coisas belas, estranhas, duvidosas e divinas, que a sua curiosidade e sua sede de possuir, saindo dos gonzos, transbordam ruindo através da região das inatualidades” (Idem, p.113). Cumpre notar, neste cenário, que Elísio de Carvalho, foi homenageado, um ano após a publicação da primeira versão do seu texto — então com o nome de O Louco de Röcken —, por Fábio Luz com um artigo publicado no Almanaque do Garnier no ano de 1907. Neste escrito, Fábio Luz afirma que poucos no Brasil conheciam Nietzsche como Elísio de Carvalho (Idem, p.115), sendo, este, aquele que se atirou no trabalho investigativo a fim de “vulgarizar e popularizar as obras dos dois alemães [Nietzsche e Stirner], que a pedanteria nacional dos novos agora compreende e aprecia, deliciando-se com os textos os mais complicados em que as palavras parecem terem sido colocadas a esmo” (Idem, p.115, grifo no original).

O livro de Dias, percebemos, reúne textos relevantes para compreendermos como as ideias de Nietzsche foram tratadas por intelectuais do fim do século XIX até o começo do século XX. É uma fonte, então, para analisar como o fascínio pelas ideias do filósofo, pelos seus estilos de escrita, suas discussões explosivas, foram alvo das mais diversas interpretações no cenário brasileiro. Ainda é digno de notarmos os usos e abusos da linguagem que as interpretações de Nietzsche fazem de suas terminologias. Ubermensch, Wille zur Macht, entre outros termos, são tratados de formas diversas no decorrer das recepções. Revelam, assim, a trajetória de tradução de termos do pensamento nietzschiano em terras brasileiras. No mais, a vida de Nietzsche, seu colapso intelectual, suas relações pessoais, também são amplamente exploradas pelos escritores brasileiros, em prol de um conhecimento mais detalhado da figura enigmática que foi Nietzsche. A obra de Dias, assim, reflete a amplitude dos estudos Nietzsche realizados e ainda porvir. Estudos estes situados no âmbito de recepção, quanto de comentário, e de apropriação das teses do filósofo. Estudos linguísticos, filosóficos, históricos são beneficiados com as escolhas de textos realizadas por Dias. Nesse âmbito, ressoando uma resposta à questão de Silva Júnior, percebemos, a partir do texto de Dias, que estudar o filósofo alemão em nossas terras nos ajuda a compreender como o escritor de Assim Falou Zaratustra esteve presente no desenvolvimento intelectual do país. A partir do texto de Dias, em fim, compreendemos que o estudo do filósofo alemão é um convite não só a pensar Nietzsche no Brasil, mas, sobretudo, pensar o Brasil com Nietzsche.

 

REFERÊNCIAS

 

DIAS, Geraldo. Nietzsche no Brasil (1892-1945): Traduções de textos do filósofo alemão, artigos e poemas a seu respeito publicados na imprensa. Curitiba: Editora CRV, 2024.

SILVA JUNIOR, Ivo da. Em busca de um lugar ao Sol: Nietzsche e a cultura alemã. São Paulo: Discurso Editorial e Editora Unijuí, 2007.



[111] Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN-UFRPE) e bolsista pela CNPq. E-mail: leovan.rodrigues@ufpe.br

[112] Sobre a recepção realizada pelo nazismo da obra de Nietzsche, cf. Montinari, 1999.

[113] Uma vez que a tradução dos termos é essencial para a discussão do livro, utilizamos, em nossa discussão, os termos no original e adicionando a tradução do escritor do artigo referido em colchetes. Neste caso, “super-homem” é a tradução utilizada por Dalcídio Jurandir. A regra aplica-se para obras apenas quando estivermos expondo a ideia de algum(a) autor(a) em específico. Esta regra não se aplica, no entanto, às citações diretas.