Recebido em: 30/09/2025

Aprovado em: 04/11/2025

Publicado em: 23/12/2025

 

O MUNDO TÓXICO E A PSIQUE ADOECIDA: uma articulação crítica ao capitalismo a partir de Elizabeth Povinelli e Mark Fisher

 

THE TOXIC WORLD AND THE SICKENED PSYCHE: a critical articulation of capitalism through Elizabeth Povinelli and Mark Fisher

 

Andrey Gonçalves Correia[38]

 

Hugo Renan Pizzato[39]

 

Resumo

Nosso trabalho propõe uma reflexão sobre o estatuto de realidade do capitalismo contemporâneo e suas consequências sociais, ambientais e mentais, tendo como objetivo tanto o diagnóstico quanto uma prática, que opere enquanto linha de fuga da realidade caótica e pessimista proporcionada pelo capitalismo tardio. Dessa forma, procuramos aproximar a leitura de dois pensadores críticos do liberalismo tardio, Elizabeth Povinelli e Mark Fisher, primeiramente apontando para a construção de uma realidade tóxica a partir de uma destruição criativa herdada dos modos de produção colonial, e posteriormente o diagnóstico patológico das sociedades capitalistas e suas epidemias depressivas. Por fim, partimos das análises dos autores para buscar modos de resistência ao domínio capitalista, buscando pensar a relação do novo regime climático e os modos de produção, compreendendo que a saúde do meio ambiente depende também de uma modo de vida que não esteja obrigado a produção, de outro modo, para que superemos os problemas contemporâneos devemos pensar a partir da terra e de modo coletivo.

Palavras-chaves: Povinelli. Mark Fisher. Catástrofe ancestral. Antropoceno. Precarização.

 

Abstract

Our work proposes a reflection on the reality status of contemporary capitalism and its social, environmental, and mental consequences, aiming both for a diagnosis and a practice that operates as a line of flight from the chaotic and pessimistic reality provided by late capitalism. Thus, we seek to bring together the readings of two critical thinkers of late liberalism, Elizabeth Povinelli and Mark Fisher, first pointing to the construction of a toxic reality stemming from a creative destruction inherited from colonial modes of production, and subsequently, the pathological diagnosis of capitalist societies and their depressive epidemics. Finally, we depart from the authors' analyses to search for modes of resistance to capitalist domination, seeking to think about the relationship between the new climate regime and modes of production, understanding that the health of the environment also depends on a way of life that is not bound to production; in other words, to overcome contemporary problems we must think from the earth and collectively.

Keywords: Povinelli. Mark Fisher. Ancestral catástrofe. Anthropocene. Precarization.

 

INTRODUÇÃO

O capitalismo dominante no mundo contemporâneo tem suscitado diversas reflexões acerca de sua imanência ontológica, principalmente sobre aquilo que tange às crises sociais, mentais e ecológicas. Nosso tempo parece estar descompassado e o planeta em desequilíbrio tem se mostrado cada dia mais reativo às ações humanas. Precisamente, a partir da segunda guerra mundial, observamos o desenvolvimento de diversas teorias que dizem respeito aos direitos humanos e ambientais, bem como, a guerra fria e a eterna “ameaça comunista”, fizeram proliferar as discussões acerca das proteções dos direitos sociais, coletivos e das futuras gerações. A partir do advento da bomba atômica e do medo que ela causou, percebemos o nosso potencial destrutivo, mas foi também o medo imaginário do suposto “império burocrático” comunista que fez surgir o Welfare State[40]. Passados alguns anos, a ameaça nuclear persiste, somado aos movimentos da natureza, que se direcionam ao front da catástrofe, bem como com a queda da União Soviética e a ausência de obstáculos ao capitalismo, o Welfare State tem se demonstrado cada dia mais mitigável, insuficiente.  Assim os direitos sociais se tornam cada dia mais negociados, na medida em que o grande capital precisa estender os seus domínios. Nesse contexto, o mundo parece ter sido tomado pelo capital, onde tudo é produto, marketing e trabalho; ao que parece, todos estão vivendo em função do mercado financeiro e seus interesses, mesmo que na prática isso signifique a destruição do planeta e uma precarização da vida. Por mais que termos iniciativas como governança, compliance, responsabilidade socioambiental e sustentabilidade tenham se tornado centrais nas formas de governar ao modo capitalista, a estrutura de exploração da vida e do mundo permanece a mesma, ou seja, absorvendo o máximo que puder. A imanência do capitalismo se resume a se expandir ao infinito em um planeta com recursos limitados, e como consequência desse modo de viver a sociedade sofre com uma guerra contra a terra que pode ser percebida com as inúmeras catástrofes que vemos diante de nós, bem como, no plano da subjetividade uma grande massa de pessoas depressivas, significando que o capitalismo está tornando tudo tóxico.

Nessa querela contemporânea, a ciência teve um papel fundamental, não só na medicação da população transtornada, mas na sua tentativa de controlar e dominar a Natureza, buscando os ganhos financeiros que defensivos agrícolas, transgênicos e aparelhos tecnológicos, pudessem oferecer, dessa forma, postula-se uma nova engenharia da terra que a mantivesse funcionando de maneira lucrativa. Procurou-se levar a cabo o velho ideal moderno, conhecer para exercer poder sobre a realidade. O que tem como consequência uma reação do planeta em forma de "revolução" natural, que vêm forçando aqueles que se reconhecem como humanos[41] a repensar suas relações com o planeta. Dentro disso, surgem teorias e práxis que buscam questionar e superar esse modo de viver capitalista, que é ainda inspirado em um antigo colonialismo. Agora o que se coloca em questão são as epistemologias e ontologias e como elas, capturadas pelo capital, transformaram nossa relação com o planeta. Em nosso artigo, propomos observar a relação entre a precarização da vida e a catástrofe ambiental (o mundo tóxico) e sua relação com o capitalismo, uma análise a partir das três ecologias (social, ambiental e psicológica), segundo os problemas que se apresentam à contemporaneidade. Para tal, seguimos o mapeamento da operação de destruição que percorre todas as histórias coloniais, relacionando a duas leituras: Elizabeth Povinelli (1962) que formula a ideia de uma catástrofe ancestral associada ao colonialismo que tem como consequência a destruição ambiental; e Mark Fisher (1968-2017) e sua análise sobre a captura da realidade pelo capitalismo e a insuficiência da responsabilidade individual. buscando, com isso, modos de resistência à imanência do capitalismo e a financeirização do mundo.

 

A relação tóxica entre colonialismo e o meio ambiente

Em seu livro Catástrofe ancestral (2024), Elizabeth Povinelli aponta para a atualidade caótica da realidade em que nos encontramos, isto é, o capitalismo capturou o planeta transformando tudo em mercadoria, uma operação de “destruição criativa”, que nos leva a ultrapassar os limites planetários[42], bem como, a exaustão dos recursos e a precariedade da vida, mas essa relação conturbada se deve à uma forma de Ser no mundo, um modo ontológico de pensar e reproduzir o que é a vida[43]. Povinelli (2024) aponta que os filósofos e pensadores caribenhos já haviam discorrido sobre o problema[44], na medida em que àquilo que chamamos de catástrofe têm sua origem com a colonização dos diversos mundos e a tentativa de homogeneizar o pensamento e a cultura partindo de um local privilegiado e transcendente, transformando tudo em produto e lucro que deve percorrer o caminho das periferias, a matéria prima, aos centros de industrialização, tecnologia e ciência, que retornam com os restos, lixo tóxico e o mercúrio. Portanto, foi a modernidade com sua política colonizadora, mercantilista, que postulou o problema da falta de mundo, não só do domínio territorial, mas a razão Ocidental, o iluminismo, a liberdade, significou o desastre para as várias nações que habitavam as Américas, o Caribe, a África, Ásia e Oceania, consolidando seu poder na ausência dos mundos que existiam nesses locais, que agora podem ser territorializados pelo capital[45]. Dessa forma, a ciência justificou a colonização da mente e o desastre do mundo, onde tudo se tornou objeto consumível e utilizável[46]. Isso não foi possível sem o uso de uma variada gama de violências. Por exemplo, em Frantz Fanon (1925 - 1961), Povinelli encontra uma descrição das violências políticas nas colônias, que não remetem apenas aos aspectos físicos e econômicos dos colonizados, mas também na linguagem e nos endereçamentos sociais que são suportados até explodirem. A descolonização, assim como a colonização, não ocorre sem violência, também só se mantém através da violência (2024). A autora busca traçar linhas entre os existentes e seus fluxos políticos, encontrando modos de existências entrelaçados que permitam colocar em questão a ideia de que o desenvolvimento e a governança do europeu são o ápice da evolução civilizacional. Essa civilidade, é imposta ao mundo, através do humanismo, progresso e desenvolvimento tecnológico[47], porém não ocorrem sem os diversos massacres[48], que ainda são constantes nos centros e nas periferias do capitalismo, também a exploração da natureza e dos seus seres, onde as engrenagem da máquina colonial esmagam tudo o que podem, além de transformarem tudo em produto, que logo em seguida, se tornará lixo. O colonialismo, desse modo, não só colaborou com o colapso climático, mas ele é a fonte principal do desastre, ou seja, do descompasso entre os humanos e os astros[49], dentro disso, não é só o meio ambiente que reage à governança capitalista, mas a psique dos humanos também se desajusta. As raízes daquilo que Povinelli chamou de Geontopoder estão na construção de um mundo que desconsidera a existência de outras possibilidades mundanas[50] que objetiva homogeneizar o mundo.

O que pode ser observado no texto Do Rocks Listen? The cultural politics of apprehending Australian Aboriginal labor (1995), uma etnografia que em grande parte reflete sobre a montanha, The Old Rock Man, na qual a autora descreve a disputa sobre a exploração dos seus recursos minerais e como isso afetava os nativos que habitam aquela região da Austrália, porque a montanha é fundamental para a sua cultura e existência. Para protegê-la, os indígenas deveriam provar que sua subsistência dependia do trabalho sobre a formação rochosa, no entanto a ideia de trabalho daquele povo originário era distinta da dos brancos australianos, isso porque em certa medida habitam um outro mundo, ontologicamente distinto, onde consequentemente a própria razão do trabalho se distingue do conceito próprio da legislação daquela “Commonwealth”. Portanto, o que se mantinha naquele território não era propriamente uma relação de exploração do valor da terra, mas uma relação de respeito ao espírito que vive no território. Isso pode parecer um tanto quanto estranho para aqueles que estão imersos nas cidades poluídas, mas essa outra relação com o ambiente possui efeitos ontológicos e jurídicos dos quais não nos demos conta ainda[51]. As sociedades coloniais pretenderam ocultar a relação terra-trabalho, fundamentando os modos de produção em uma posse transcendental do ambiente e na exploração da mão de obra, de forma diferente funcionam algumas sociedades não ocidentais, que produzem outros modos de subjetivação, que não estão relacionados ao binômio posse-exploração. Desse modo a pensadora coloca a seguinte questão:

 

Então eles retornam para questões de valor e avaliação: qual é o peso político e econômico que devemos dar às crenças, e quais fatores sociais deveriam ser avaliados? Os aborígenes estão trabalhando, no sentido comum da palavra, quando falam com os Dreamings ou quando se sentam para relaxar, jogar cartas, ou dormir na praia? E de que maneira esse trabalho deve ser comparado com o trabalho que produz o produto interno bruto australiano? (tradução nossa) (Povinelli, 1995, p. 505).[52][53]

 

O trabalho pode assumir diferentes formas dentro dos arranjos de cada sociedade, por exemplo no território Belyuen, por mais que o povo não retirasse valor das atividades diárias relacionadas ao Dreaming da montanha, sentando-se sob sua sombra, brincando e andando por ela, para aquele povo, isso é uma espécie de trabalho que justificaria a manutenção da rocha, sem intervenções empresariais. Isso porque, caso a ligação da montanha com os Belyuen fosse rompida, poderiam recair em uma série de desgraças sobre os moradores da região. Nesse ínterim, as epistemologias Ocidentais, que servem de base para as crenças fundamentais da economia capitalista, não são consideradas como “crenças”, mas são parte fundamental da realidade (Povinelli, 1995, p. 514), ou seja, aqui existe um confronto entre ontologias que em seu âmago distinguem o trabalho para a exploração (que adoece ao sorver o trabalho morto) contra o trabalho para a comunidade (terra) – para o outro –, em relação a tudo o que é externo e interno. Na medida em que a epistemologia Ocidental entende que a montanha é apenas um amontoado de sedimentos, rochas e terra ela pode ser explorada, tal como os trabalhadores que dela irão tirar as matérias primas, dessa forma, o trabalho em relação a montanha e ao Dreaming devem ficar em segundo plano sendo opostos às atividades que irão trazer ganhos econômicos e sociais decorrentes da exploração de uma terra e dos seus trabalhadores. Da mesma forma, a exploração da montanha significa o fim da posse dela sobre o povo e um novo local para produção e não mais para a cultura, e a partir de então tudo no mundo dos Belyuen pode se tornar lucro, o processo de acumulação de capital não transforma apenas o mundo, mas o pensamento. Se olharmos para o texto de Povinelli podemos compreender um pouco sobre os modos pelos quais operaram o capitalismo, principalmente como ideia que busca a generalização, subsumindo o mundo aos seus domínios financeiros, mas não sem resistência dos nativos.

Diferente dos Belyuen, nós atravessamos a montanha e passamos uma autoestrada por dentro dela, expulsamos os espíritos e o Estado transfere a posse à alguém e aos poucos vamos percebendo o quão reativo estamos ficando em relação a nós e o quão hostil está ficando o mundo com a nossa presença. Como afirma Ailton Krenak:

O pensamento vazio dos brancos não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo, acham que o trabalho é a razão da existência. Eles escravizaram tanto os outros que agora precisam escravizar a si mesmos. Não podem parar e experimentar a vida como um dom e o mundo como um lugar maravilhoso. O mundo possível que a gente pode compartilhar não tem que ser um inferno, pode ser bom (2020, p. 62).

 

De fato, o mundo capitalista em suas diversas formas tem sido um inferno físico e psicológico, desde as primeiras caravelas, a máquina colonial não para de nos massacrar, nos adoecer, deixando todos exauridos pela recorrência que o sistema mercantil nos furta o mundo e a vida[54]. Pensar em uma outra ontologia que produza efeitos não somente na filosofia, mas no trabalho, na relação com o meio ambiente e a psique, deve superar a vida de subsistência pelo lucro, dessa forma, pode dar sentido à vida e a rotina, porque permite o trabalho não como existência, mas como forma de se olhar no espelho e ver as nossas potencialidades ou ainda permitir o acesso a outros mundos que podem ser diferentes do nosso[55]. Desse modo, buscamos uma ontologia que permita uma saída desse inferno, e não uma que possa negociar com o diabo para suavizá-lo.

Para pensar essa relação de produção, reprodução e adoecimento é imprescindível voltar a análise do colonialismo como modo único de formular a realidade, é a partir de uma forma de razão que se estende sobre maneiras de governança que passam a avaliar o que é a vida. A forma de pensar do Ocidente centraliza a gênese das ciências e da filosofia dentro dos quadros teóricos europeus. De outra perspectiva, o Norte da África já produzia um mundo, uma matemática, um pensamento antes dos brancos; o conhecimento têm origens múltiplas que foram colonizadas e apagadas pelo poder colonial. Povinelli, compreende que a ontologia deve indagar sobre a história política do poder, questionando a existência colonial para podermos passar dos enunciados para as suas consequências políticas, confrontando a construção de um mundo global colonizado (2024). Isto é, expor o relativismo moral que nos trouxe até aqui, dos grandes campos da monocultura até as cidades cinzas, tudo que foi violentado em nome do progresso e do lucro. Dessa forma percebe Povinelli:

Em vez de finalmente assumir que liberalismo e capitalismo são uma catástrofe ancestral que inunda cada fresta e cada fissura, alguns ainda apontam para o mesmo horizonte de progresso, propondo mais capitalismo e tecnologia capitalista como solução (2024, p. 86-87).

 

O progresso é sempre aquele que retorna à Europa como único caminho possível, e dentro disso condena a todos, fazendo com que perdessemos o contato com a terra, fonte de dignidade, que agora é colonizada não apenas pelo capital, mas também pelo cientista que procura fugir para outro planeta ou quem sabe, reconstruir a terra a partir da geoengenharia. Ao invertemos nossa relação, do pertencimento à posse, passamos a compreender a ideia de Fanon[56] de que é o Colono que faz a história, bem como o apontamento de Deleuze[57] sobre o capitalismo colocar todos os sistemas que lhe são anteriores e os que lhe fazem frente como “sistemas malditos”. O passado ancestral do colonizado é a oposição à iluminação do futuro transcendente do colonizador – espaço e geoengenharia – enquanto os periféricos têm que lidar com a catástrofe iminente.

Portanto, é imprescindível uma geohistória. É por ela que conseguimos passar dos problemas sociais do colonialismo e seu modelo de exploração, para os problemas físicos, biológicos e geográficos do Antropoceno. Não é atoa que o colonialismo opera em diversos níveis (físicos e mentais) transformando a terra em mercadoria e a subjetividade em um individualidade desconexa da terra; devemos partir de questões ontológicas para superar um certo modo de vida que está destruindo o planeta, dessa forma, a questão da vida e não-vida no Antropoceno passa tanto sobre o escrutínio do que são as coisas e sobre o modo como a ética tem lidado com isso, da mesma forma deve-se superar a questão colonial, pois seu caminho é o da catástrofe. Sob o capitalismo tardio todos sofrem de modo coletivo, as periferias se estendem conforme a acumulação de riquezas aumenta, sobre os trabalhadores e estudantes recaí um profundo sentimento de desconexão com a terra e com o Eu, isso pode ser representado pelos diversos transtornos mentais cada vez mais recorrentes em nossa sociedade. Desse modo, quanto mais o planeta se mostra reativo às ações dos humanos e seus sistemas financeiros, mais esses humanos pobres de mundo ou sem mundo, que estão condenados a sua terra, adoecem. A marca de nosso tempo é um profundo sentimento de que o capitalismo em sua forma colonial/global é a única alternativa de gestão política, ou como aponta Povinelli:

A vida não está, afinal, meramente no trabalho ou, a esse propósito, na própria vida. A chave da expansão massiva do capital foi a descoberta de uma força de vida na matéria morta, ou da vida nos resíduos da vida: sobretudo no carvão e no petróleo. O combustível vivo (trabalho humano) foi exponencialmente suplementado e substituído, em muitas situações, por combustível morto (os resíduos de carbono de entidades previamente vivas) ao mesmo tempo que os problemas de extrair vida da vida foram sendo mitigados. O capitalismo é uma enorme fundição, abastecendo a sua fornalha com os vivos e com os mortos.” (2024, p. 223).

 

Isso significa que o capitalismo está operando uma “destruição criativa” (Povinelli, 2024) que se espalha sobre os diversos mundos que habitam está terra, com o único objetivo de sorver mais valor e produzir mais mercadoria, tudo se movimenta no sentido de aumentar a potência do capital sobre as vidas e também sobre a não-vida. Aos poucos, o mundo tem se tornado cada vez mais tóxico, Povinelli dá vários exemplos a partir da Austrália, dos pântanos tóxicos, as florestas cheias de radiação, no Brasil poderíamos apontar as catástrofe de Brumadinho, Mariana, os bairros que afundaram Maceió, o mercúrio nos corpos indígenas. O tempo do liberalismo tardio é o mesmo que considera que o lucros, a bolsa de valores e o dólar estão acima da vida, portanto tudo caminha para um precarização das condições sociais e técnicas sobre a qual vivemos, a sociedade atual baseada em consumo e marketing na verdade compreende “que fazer viver é um véu ideológico para deixar morrer; que a experiência da vitalidade e da potência é mais parecida com o que sente um viciado em metanfetamina” (Povinelli, 2024, p. 83). Portanto, tudo que envolve a destruição da natureza[58], segue um fluxo que vai da qualidade pestilente dos produtos consumidos à precarização do trabalho, porque não se tem mais tempo para querer ser sustentável, restando somente obter o máximo de lucro possível, levantando a máxima de que  enquanto o mundo “não acaba”, ele vai se deteriorando, porque o extrativismo dos metais que são utilizados para para fazer smartphones vão liberar poluição em regiões que não irão se beneficiar desse aparelho, da mesma forma, a produção do petróleo ou o plástico. A Natureza não reconhece os limites territoriais, bem como a destruição transpassa as fronteiras humanas, a “destruição criativa” tende a atingir a todos[59]. Nesse pólo, da exploração e do marketing, encontramos ferramentas para pensar as catástrofes psicológicas que atingem os que estão sobre o domínio capitalista a partir da leitura de Mark Fisher, percebendo que na ânsia da produção que transforma o mundo em pura toxidade, todos estamos ficando adoecidos, mas ao mesmo tempo, parece, que podemos oferecer pouca resistência à fumaça que tomou conta de nossa realidade.

 

Neoliberalismo e o fim do mundo

Existe alternativa à nossa sociedade ou devemos assumir que o neoliberalismo é o único modelo a seguir? Ao indagarmos sobre essa questão é preciso consultar o texto Realismo Capitalista (2009) de Mark Fisher (1968 - 2017), filósofo britânico, importante pensador, contribui para o aprofundamento desse debate ao escancarar as mazelas do capitalismo tardio e seu potencial ontológico e dominador. Fisher nos auxilia à pensar sobre como tal sistema passa a ser considerado a única alternativa de se compreender a realidade ao cooptar todas as possibilidades do viver no mundo contemporâneo. O pensador parte da seguinte reflexão atribuída a Fredric Jameson e Slavoj Zizek: de se é “mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo?” (2009, p. 10). Tal reflexão demonstra sua articulação crítica e estreita ao sistema capitalista, destacando sua potencial força de dominação e, consequentemente, de destruição. O autor, ao debater sobre a ausência de possibilidades no mundo pós-capitalista, também cita o conceito de “fim da história” esboçado pelo pensador Francis Fukuyama[60], onde após a queda do muro de Berlim em 1989, o mundo estaria vendo o “fim” da possibilidade ideológica socialista, evidenciando a hegemonia do pensamento ocidental à época, onde passou a ser reforçada a ideia da inexistência de alternativas de construir uma nova realidade, senão sob à ótica da globalização[61] e da nova colonização imperialista neoliberal. Portanto, seguindo essa lógica, é comum a incorporação de uma atitude pessimista em relação aos nossos tempos, sendo necessário o enaltecer justamente de uma atitude contrária, que exponha as raízes podres que fundamentam o pessimismo contemporâneo.

Ao instituírem uma lógica que projeta o adoecimento em escala planetária, justamente por incentivarem à alta performance dos indivíduos com o único fim de agregarem valor financeiro ao capital, os donos do poder os distanciam cada vez mais de uma transformação significativa nos padrões de vida e de ascensão social,  restando dentro dessa lógica, o produzir e o consumir. Tal predominância do ideal liberal em nossas vidas, passa significar que as crenças no mercado assumem na contemporaneidade uma posição transcendente/imanente na existência, ocupando o lugar que antes era reservado às crenças tradicionais, culturais e mágicas, passando operar como uma anestesia aos sujeitos que vivem agora como Zumbis[62], sob as ordens de um Deus monetário onipresente.

Assim, Fisher influenciado pela leitura de Deleuze e Guattari, pode imaginar o capitalismo como um monstro sem limites, onde podemos compreender e traçar as suas fronteiras, mas por todos os lados ele escapa ou suas demandas já são outras. O que permanece diante desse devir de constante fruição metamórfica, que sofre mutações, se adaptando e se misturando, é o sentimento de exaurimento físico e psíquico, porque na realidade o monstro continua aqui, talvez com outra roupagem e uma diferente faceta. Desse modo, como afirma o filósofo, o capitalismo se parece como “A Coisa: o enigma de outro mundo (1982)” no filme de John Carpenter: uma entidade monstruosa e infinitamente plástica, capaz de metabolizar e absorver qualquer coisa com a qual entre em contato” (2020, p. 15). Portanto, para o autor de Realismo Capitalista, vivemos nesse período em que o modelo econômico assume o papel de entidade sacramental que domina a própria realidade, onde os sujeitos que sobrevivem nesse sistema tornam-se fonte para sua energia vital. Neste sentido, os trabalhadores, sejam eles do campo, da cidade ou dos meios acadêmicos, por exemplo, vêm sendo sistematicamente adoecidos e tendo os limites de seu próprio corpo atravessados, e quando já foram completamente sugados, podem se subjugar e receber uma ajuda mínima do Estado ou do Terceiro Setor[63] ou, nos casos brasileiros, do INSS. As pessoas só são úteis enquanto produzem, o lazer prometido é sempre deixado para a velhice, momento o qual é permitido o ócio enquanto se aguarda o beijo da morte. De acordo com o filósofo, o capital possui uma faceta “fúnebre”, podendo ter uma “descrição gótica”. Nas palavras do autor, e assim:

A descrição mais gótica do capital é também a mais precisa. O capital é um parasita, um vampiro insaciável, uma epidemia zumbi; mas a carne viva que ele transforma em trabalho morto é a nossa, os zumbis que ele produz somos nós. Existe um certo senso de que membros da elite política são nossos servos; e o miserável serviço que nos prestam é o de lavagem de libido, de obsequiosamente representar a nós mesmos nossos próprios desejos denegados, como se não tivessem nada a ver conosco. (2020, p.28-29).

 

No ambiente laboral, estamos sempre entre o medo do desemprego e a esperança em uma empresa boa (flexível), daquelas que exploram o trabalho, mas em troca colocam no local de prestação de serviços alguns puff’s para deitar, deixam levar os pets em um determinado dia da semana, instituem o trabalho remoto, ou em última instância, jornadas reduzidas, além de incentivarem as campanhas de “Setembro Amarelo” e o cuidado da saúde mental, mas mesmo nessa perspectiva, continuam pressionando os trabalhadores a melhorarem seu desempenho e os seus resultados. O “realismo capitalista” suaviza na superfície os efeitos do mercado que marcam e disciplinam o corpo do trabalhador a partir das próprias noções financeiras, desse modo, “trata-se de uma atmosfera penetrante, que condiciona não apenas a produção da cultura, mas também a regulação do trabalho e da educação” (2020, p. 33.). Essa espécie de ação, torna-se um filtro para a crítica ao sistema, onde se vende a ideia de que “aqui podemos ter conforto e se divertir” enquanto somos explorados até a exaustão, assim, entramos no seu realismo. Sendo assim, devemos acreditar nas palavras de Margaret Thatcher, ao debater a economia inglesa e afirmar que “não há alternativa”, ideia essa, que se proliferou de modo massivo de que o neoliberalismo e a democracia burguesa são as únicas possibilidades.

Segundo Fisher, a ontologia empresarial deixou nosso solo estéril, impossibilitando o surgimento de uma forma disruptiva de linguagem, além de tragar os modos de pensar, imobilizando nossos passos, desertificando o solo no qual pisamos e deixando os sujeitos apáticos, adoecidos, vivendo sob ruínas. Segundo o autor, a economia neoliberal, aliada ao capitalismo, possui ferramentas que forçam os indivíduos a entrarem nesse jogo sem plena consciência de sua submissão. Isso ocorre porque se trata de um sistema com facilidade em se acomodar, de modo volátil, onde de forma quase parasitária, acaba se apropriando do discurso do inimigo e se mistura à ele. Tal fenômeno acontece, por exemplo, quando tudo é transformado em mercadoria, até mesmo símbolos anticapitalistas[64]. Outra forma de tornar tal sociedade homogênea é a autonomização dos indivíduos, fazendo-os acreditarem que suas ações individuais possuem um caráter preciso e eficaz na ordem social. Portanto, dentro dessa lógica de expansão do “realismo capitalista”, percebemos que o sistema está incutido de modo visceral em cada indivíduo, fazendo com que a colonização possa estar dentro de seus sonhos mais utópicos. O autor cita filmes, bandas e eventos que mostram como os indivíduos estão transitando cansados e distraídos, além de surfarem inconscientemente na onda neoliberal, na qual as responsabilidades das ações são sempre reforçadas como individuais e não coletivas.

Dentro desses contornos proposto por Fisher, o modo de pensar associado à alienação e à apropriação do modo de Ser de cada sujeito, reforça o sofrimento e as consequências da colonização, como explica Gabriel Peters, “no discurso estigmatizante sobre populações tidas como marginais, o uso de drogas serviria à alienação ou fuga de uma realidade vivida como insuportável, fuga que atrapalham o indivíduo no enfrentamento de seus problemas reais” (p. 182, 2023). A necessidade de uma crítica, desse modelo, precisa superar uma certa forma de magia ou enfeitiçamento da mercadoria, para que assim,  a mudança seja realmente transformadora ao legitimar modos de vida coletivos que permitam uma terapia da sociedade, dissociando da performance colonial e que permitam uma emancipação do capital. Para levar a cabo esse processo, é preciso estar atento, pois, como diz Fischer, 'está cheio de anticapitalistas dentro do capitalismo’, isto significa que o capitalismo se apropria de uma certa medida do anticapitalismo, pervertendo as lutas contra esse sistema, nisso consiste o seu feitiço. Os exemplos citados pelo autor para contribuir com essa tese, passam por filmes de ficção científica (Wall-E), grandes eventos filantrópicos (Live 8), ou produtos “mais conscientes” como o “product (red)”, uma propaganda do “mais correto”, para o qual se destina parte do dinheiro arrecadado para causas socioambientais ou até mesmo obras cinematográficas que ilustram de modo imagético um mundo destruído no futuro, que já é vivenciado enquanto catástrofe iminente. Essas soluções capitalistas possíveis possuem uma roupagem que as fazem parecer eficazes ou, ao menos, causam uma sensação de agonia no indivíduo ao ver as ruínas na tela (no caso dos filmes de ficção científica), ou de satisfação altruísta do consumidor ao contribuir com uma causa justa, contudo, essas atitudes não possibilitam uma mudança de fato estrutural; elas apenas contribuem para que a lógica continue e seja incentivada como se fosse a única alternativa, levando os indivíduos a apostarem e a se sentirem satisfeitos com essa narrativa. A questão, é que a responsabilidade dentro da economia neoliberal, é sempre focada no indivíduo, como se tudo partisse da vontade de cada um; pensamento esse, que enaltece o surgimento das epidemias de transtornos mentais na sociedade contemporânea, pois os corpos e as mentes estão sendo levados à exaustão para atingir os objetivos econômicos, em aliança com a exploração, o acúmulo e a degradação ambiental (Fisher, 2020).

Desse modo, o “realismo capitalista” proposto por Fisher representa um modo de Ser contemporâneo, onde o capitalismo conseguiu possuir as formas de pensar dos indivíduos ao incentivar a construção de uma “ontologia empresarial" (tudo é empresa/mercadoria), levando-os a acreditar que a vida se resume ao mercado. O capitalismo, portanto, segundo o autor, é um “parasita, um vampiro insaciável”, que suga nosso sangue e nos transforma em um deles, desertificando o mundo e nos colocando para inalar seu ar tóxico. É preciso, diante da proposta, desenvolver mecanismos que causam uma ruptura dentro do cerne do problema, onde se efetive a partir dos escombros, uma reorganização sistêmica que leve em consideração a coletividade, solidariedade entre vida e não-vida, mas para isso, precisamos superar o colonialismo latente até mesmo em nosso inconsciente. Mark Fisher, entende que para acabar com o estatuto de realidade do capitalismo é necessário expor os seus limites internos adotando uma postura ácida em relação ao capital, retirar do seu escrutínio o domínio do possível e universal, e sobretudo, colocá-lo no plano da imanência, tomando o caminho de uma crítica ativa que busque expor o problema de sua estrutura, inclusive no campo do direito, tomando essa atitude radical não como algo impossível, mas como um caminho que podemos perseguir. Fischer expõe um exemplo:

Vale a pena recordar que o que é atualmente “impossível”: a onda de privatizações dos anos 1980 seria impensável apenas uma década antes, e o atual panorama político (com sindicatos dormentes, ferrovias desnacionalizadas e serviços públicos terceirizados) mal podia ser imaginado em 1975. Por outro lado, o que um dia já esteve eminentemente próximo, agora é considerado irrealista (2020, p. 34).

 

Portanto, devemos enfrentar a maleabilidade e adaptabilidade do capitalismo expondo suas limitações internas, evidenciando pelo menos duas coisas essenciais de sua manutenção que ironicamente, são extremamente desprezadas por ele, sendo: a mão de obra (trabalhadores) e o meio ambiente[65]. Esses dois limites internos começam a demonstrar seu descontentamento, o primeiro se faz através dos transtornos, que são formas de nossa psique reagir às demandas do capital, o segundo faz a partir da catástrofe climática, ambos não podem mais ser ignorados. Nesse sentido podemos compreender que as demandas do labor e do meio ambiente andam de mãos dadas, a natureza está tomando a cultura e os seres humanos passam a agir como força natural[66], a exploração da natureza é também um reflexo da exploração do trabalho, já que esta é também um objeto de lucro. Mark Fisher, aponta que a questão ambiental foi politizada a muito tempo, diferente das questões mentais, assim como Deleuze, Guattari e Foucault, o filósofo britânico entende que as doenças mentais são classificadas politicamente, e não somente dados biológicos. Por exemplo, transtornos mentais como a esquizofrenia foram politizados nas décadas de 60 e 70, agora chegou a hora de fazer esse movimento em relação às outras questões mentais, que estão mais presentes em nosso dia a dia. E assim encontramos na obra de Fisher:

Em vez de atribuir aos indivíduos a responsabilidade de lidar com seus problemas psicológicos, aceitando a ampla privatização do estresse que aconteceu nos últimos trinta anos, precisamos perguntar: quando se tornou aceitável que uma quantidade tão grande de pessoas e uma quantidade especialmente grande de jovens estejam doentes? A epidemia mental nas sociedades capitalistas deveria sugerir que, ao invés de ser o único sistema que funciona, o capitalismo é inerentemente disfuncional, e o custo para que ele pareça funcionar é demasiado alto. (2020, p. 37)

 

Nesse ponto, entendemos que as demandas do sistema econômico e das emoções centradas em valores de mercado, como oferta e demanda, produção e lucro acabam por ser a fonte de uma psique autodestrutiva. Ansiedade, depressão, burnout são sintomas não das doenças psíquicas, mas de inadequação dos sujeitos ao sistema em que estão inseridos, porque esse sistema trabalha dentro de uma lógica linear que desemboca na exaustão, seja dos mundos, seja das mentes. De acordo com o pesquisador Emiliano Exposto (2024), ao debater o filósofo britânico, justamente por conta dessa inadequação à lógica do capital, é que saúde mental deve ser debatida e associada diretamente à política e as relações socioemocionais, pois ao enraizar seu modus operandi, o capitalismo penetra forçosamente diferentes solos e estruturas mais elementares do mundo e da subjetividade. Além dessa violação imperativa e hostil, tal sistema deixa suas vítimas despidas e se sentindo culpadas. Segundo o autor, ao transferir a responsabilidade aos indivíduos, a comunicação da economia neoliberal introjeta pensamentos como “nada pode mudar” ou “se você se esforçar, tudo é possível” que assumem um papel determinante para a manutenção dessa lógica, sendo vista até mesmo, de acordo com Exposto, como uma:

 

fórmula política, subjetiva e econômica na qual se condensa o segredo histórico da depressão estrutural das multidões perturbadas. Estamos doentes de futuro: a lenta obstrução de uma alternativa à sociedade capitalista gera “inúmeras patologias”, que vão desde o bruxismo, a insónia, as contraturas e o apagão libidinal até as sensações de não ter tempo, de não estar à altura, de não se sentir capaz de sair da cama, de nunca ser o suficiente e sempre querer mais (2024, p.117).

 

Partindo dessas indagações, o capitalismo neoliberal, traçando um paralelo entre os autores aqui representados, explora o petróleo que vira combustível e poluição, plástico que se integra a paisagem de um povoado distante das capitais financeiras, fumaças tóxicas, águas poluídas, epidemias e degradação. Nós estamos todos exaustos, dificultando vislumbrar possíveis melhorias em um horizonte cinzento. Nossa Constituição Federal (1988) quando determina nossos direitos sociais, buscou suavizar os sintomas do Realismo Capitalista, porém, através da mediação de interesses extremamente antagônicos e ataques contínuos ao estado social de direito, vamos agonizando lentamente ao perdermos conquistas assíduas e ao nos distraírmos, caímos no conto do vigário de que  There is no alternative” frase atribuída a Thatcher, como representação do liberalismo tardio. Desse modo, ocorre um sequestro do imaginário coletivo, justamente pelo fato de que toda a responsabilidade do mundo ser o que se é, é colocada nos indivíduos que estão atomizados, adoecidos e sem esperança, pois dentro dessa lógica, é assim que tem que ser. Não para Fisher.

Apoiados no pensamento do filósofo, podemos perceber que a forma que a sociedade caminhou apoiada em sistemas ideológicos e políticos ancoradas no neoliberalismo e no capitalismo, fez com que os indivíduos caminhassem perdidos e se fizessem acreditar que a busca por possíveis soluções partissem do próprio desejo. Como se tudo dependesse da força de vontade e da intenção individual, porém, com Fisher percebemos que a saída deve ser solidária e coletiva, pois o indivíduo se relacionando com o todo e sendo fruto de uma história que se fez até o seu coexistir, deve ser considerado a partir do lugar que se reconhece e toma consciência, e isso parte pela sensação de pertencimento à ordem social[67]. Portanto, ao enaltecer a liberdade individual e a construção da identidade baseada no consumo, o neoliberalismo atomiza os sujeitos, os colocam em uma caixa e os paralisam, incapacitando-os de encontrar possibilidades disruptivas diante do próprio mal estar. Tal atitude não é por acaso, pois ao deixar o sujeito paralisado e se sentindo culpado, dificilmente perceberá que a fuga desse emaranhado deverá ser através do apoio coletivo e pela organização política, pois “a despolitização da saúde mental bloqueia a capacidade de redefinir os problemas pessoais como efeitos de estruturas sociais de opressão, sendo este o primeiro passo na formação de uma consciência coletiva radical (Exposto, 2024, p.124). Portanto, de acordo com o pesquisador em consonância com Fisher, é preciso que o marxismo seja um tanto “louco”:

Com base nisso, o marxismo louco poderia se basear em uma teoria da especificidade histórica da normatividade psíquica, neural e afetiva na modernidade capitalista, contribuindo para o projeto coletivo de uma crítica à dominação sensitista e capacitista inerente à montagem patriarcal, colonial e racial do capital (2024, p.126).

 

Desse modo, qual é a saída desse labirinto? Segundo o autor, sintetizando as abordagens e problemáticas enaltecidas até aqui, o primeiro passo da organização da fuga é que devemos reverter a privatização do estresse e reconhecer que a saúde mental é um problema político. A atual despolitização do sofrimento, promovida pela mercantilização do mal-estar, pelas campanhas liberais de “sensibilização” e pelo “psicopoder farmacêutico e terapêutico”, bloqueia sistematicamente a “capacidade de redefinir os problemas pessoais como efeitos de estruturas sociais de opressão”, que é justamente “o primeiro passo na formação de uma consciência coletiva radical” (Exposto, 2024, p. 124-125). O que está em jogo, como conclui Exposto (2024, p. 123), é a construção de uma base que reconheça que o que temos em comum, além de qualquer outra coisa, é justamente as cicatrizes causadas pela lâmina afiada do capital, e é contra isso que se deve se defender, lutar e reivindicar. Por fim, o horizonte último desse projeto coletivo é a geração de “uma nova humanidade capaz de gerar novas formas de amar, de pensar, de cuidarmo-nos a nós mesmos e de agirmos juntos” (Fisher, 2021, p. 164 apud Exposto, 2024, p. 127). Assim, a tarefa que Fisher nos lega, não é a de curar indivíduos para adaptá-los ao mundo, mas a de transformar o mundo para que a cura não seja mais necessária. A saúde mental, destituída de seu cárcere privado e reposicionada como questão política central, revela-se, então, como o campo fundamental de luta por um futuro que não mais nos adoeça.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A articulação proposta, conduz obrigatoriamente a uma crítica ao colonialismo e às suas ferramentas de poder e dominação do modo de pensar ocidental. Essas perspectivas de conceber a realidade perpassam profundamente a sociedade contemporânea. Este trabalho buscou apresentar como os autores compõem suas críticas ao capitalismo neoliberal diante de seu potencial catastrófico conforme observamos com o Antropoceno. Além disso, analisamos as propostas e alternativas que visam romper com o individualismo e aproximar os sujeitos da natureza, a qual se encontra sob constante ameaça e degradação. Dentro do escopo discutido, conseguimos perceber como o capitalismo atua nas suas fronteiras para maximizar suas ações, que tem como consequências a produção de cenários ambientais e mentais desastrosos, fruto do poder das sociedades capitalistas, que continuam atuando com sua destruição criativa. Diversos povos já haviam sentido o potencial tóxico do capital ao primeiro contato.

O trabalho de Povinelli é fundamental para ativar um modo de resistência a esse poder é porque direciona sua crítica para as ontologias que predominam no capitalismo tardio, de modo que possam ser encontradas linhas de fuga, mesmo que isso ocorra através do mundo tóxico. No entanto, são necessárias diversas frentes de atuação, sejam elas em relação ao capital em seus socius colonial, a sua hiperprodução destrutiva do meio ambiente, quanto a sua máquina de produzir seres descompassados e doentes. Nosso artigo, buscou compor um quadro problematizante do capitalismo tardio, desse diagnóstico, compreendemos que não se pode separar a catástrofe ambiental dos modos de produção, assim como as doenças mentais que decorrem desse modo de vida. Para resistir, portanto, é preciso olhar o conjunto e não a dicotomia, é necessário voltar para a imanência do capitalismo e reagir de forma ácida, da mesma forma, buscar outros modos de Ser e viver, procurando outros valores que não sejam apenas econômicos.

Quando debatemos sobre saúde mental, observamos como esse tema tão pulsante em nossos tempos, não pode ser compreendido somente em seus termos estritamente individuais ou clínicos. A obra de Mark Fisher funciona, como vimos, como uma chave que “abriu os estranhos portais da saúde mental”, desbloqueando um “conhecimento sensível que emerge das próprias cicatrizes psíquicas”. É a partir desse conhecimento sensível que podemos decifrar os caminhos que correm em paralelo e se cruzam às formulações políticas, subjetivas e econômicas, decifrando o segredo histórico da depressão estrutural que nos inibe e nos deixa doentes de futuro.

A depressão e a ansiedade, por exemplo, longe de serem falhas morais individuais, são diagnósticos da realidade social. Elas emergem da ocupação sistêmica do tempo que nos torna confusos para entender o que se passa entre vida e trabalho, trazendo a sensação de estarmos sob o feitiço da mercantilização da ontologia empresarial, um prelúdio que nos leva a introjetar a inferioridade de sermos “bons pra nada” e responsáveis por tudo de ruim que acontece no mundo. Esse feitiço ideológico, entretanto, encontra-se com um “vazio traumático”, evidenciando o colapso social, psíquico e ecológico e, dificultando o pensar e o sonhar sobre o que há para além das armadilhas do capital.

É preciso voltar para formas que compreendam uma existência entrelaçada e coletiva, que privilegie a diversidade de coabitação com o planeta, deixando de lado tudo aquilo que coloque como mote central os lucros, os commodities das empresas e dos Estados. Precisamente, insurgir-se e retomar aquilo que o capitalismo tomou, retornar à terra, pois estamos condenados a ela. Ao que se sabe, não existe outra vida, outro mundo, que esteja disposto a receber os humanos, a terra é a nossa morada compartilhada, desse modo, devemos compor uma rede de solidariedade que passa por nosso iguais, atingindo as plantas, animais e até mesmo os fantasmas e espíritos. Se desejamos compreender o capitalismo como ápice da evolução e da História Universal, será apenas para que essa realidade tenha seu fim e dê lugar à outra, em que possamos buscar outros modos de pensar e agir, de contar e pesquisar, multiplicar os mundos dentro de nosso planeta, reencontrar novos saberes apagados, técnicas que se ajustam ao ambiente, e um outro Estado que não sirva ao capital. Por fim, os textos que aqui trabalhamos estão cheios de alternativas, tanto em relação aos discursos insurgentes quanto a práxis, são caminhos para retomarmos a boa saúde social, ambiental e subjetiva.

 

REFERÊNCIAS

 

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[38] Licenciado em Filosofia (PUCPR/2014) e possui especialização em Antropologia  (PUC/2019). Atualmente é mestrando do PPGF pela mesma instituição. E-mail:  andreygcorreia@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-3721-4623 

[39] Licenciado em Filosofia (PUCPR) e possui especialização em Antropologia (PUC/2019). Bacharel  em Direito (PUCPR/. Atualmente é mestrando do PPGF pela mesma instituição. E-mail: hugopizzato93@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-6382-1876 

[40] Conhecido como “Estado de Bem-estar social”, o Walfare State é uma política estatal que visa garantir o mínimo existencial através de direitos básicos direcionados aos cidadãos, como saúde, educação, moradia e assistência social.

[41] Aqui a ideia de Humano é entendida a partir das diversas críticas que esse conceito tem recebido dos estudos anticoloniais, pós-coloniais, decoloniais e “contracoloniais”, ou seja, a pergunta sobre o fenômeno Humano como uma invenção da europa, seus objetivos e história universal, que a partir dos contornos traçados pela filosofia, antropologia e das ciência pode excluir uma grande parcela da população do conceito. Dentro disso, esse é um tema questionado nas leituras sobre o antropoceno, na medida em que busca-se uma nova forma de pensar e produzir a realidade que possa abraçar a todo o planeta.

[42] Limite planetário no sentido da pesquisa de um grupo de cientistas, atualizada em um artigo da revista Planetary Health Check (2025), que se refere aos limites em que o ser humano pode trabalhar com a natureza, ou seja, um espaço seguro de operação. Dentro desses nove limites, que não deveriam ser ultrapassados, pois fariam o planeta entrar em um “zona de incerteza”, já ultrapassamos 7, incluindo a mudança no uso do solo, a integridade da biosfera, novas entidades e outros.

[43] Sobre a ontologia de Povinelli, explica Alyne Costa: “ela postula que o que tradicionalmente vem sendo chamado de “ontologia” no Ocidente é, de fato, uma “biontologia”. Nesse sentido, a autora, expandindo o conceito cunhado por Michel Foucault, afirma que a biopolítica não é apenas aquilo que busca governar sobre a vida, mas sim o que cria e mantém a divisão entre vida e não-vida, a qual é essencial tanto para a governança das diferenças por parte dos Estados liberais – entenda-se, o controle e a regulação da relação com determinados grupos marginalizados socialmente, incluindo os povos de cosmovisões não-ocidentais – quanto para a contínua geração de riquezas econômicas baseadas na extração, manipulação e transformação de elementos minerais em produtos industrializados.”(2016).

[44] Sobre a possibilidade da composição de conceitos para além dos centros do conhecimento, a professora Halina Leal, em seu texto sobre Lélia Gonzalez, explica que: “A filosofia é crítica, formulação de questionamentos e desestabilização de posturas enraizadas. O fazer filosófico nos exige reflexões e revisões constantes a respeito da filosofia, de suas narrativas e de seus protagonismos” (2024), sendo assim, se esse é o papel da filosofia questionar as raízes do pensamento colonial e suas cicatrizes é também uma atividade filosófica que encontramos nos texto de Fanon, Césaire, DuBois e, para falar de Brasil, Lélia Gonzalez.

[45] Diriam Deleuze e Guattari (2010) em seu Anti-édipo, que o Capital opera por desterritorialização e reterritorialização dos código e fluxos, também faz da terra uma propriedade transcendental. Eduardo Viveiros de Castro compreende isso como uma inversão ontológica do pertencimento, isto é, o nativo que pertencia a terra, desapropriado dela, passa a ser alguém sem posses um pobre, que se torna um trabalhador, sujeito ao sistema capitalista (2017).

[46]A colonização não ocupa só os espaços físicos, mas toma conta do socius, da psique e do ambiente.

[47] O professor e pesquisador Dr. Jelson Oliveira, influente pesquisador do filósofo alemão Hans Jonas, em seu livro “Moeda sem Efígie” de 2023, reflete nos limites tecnológicos associados à ideia de “progresso”, que ao escancarar seu potencial dominador, buscar evoluir à qualquer custo, desconsiderando as formas de vida extra-humanas. Nas palavras do autor: “os governantes de agora, devem elevar o conceito de política às raias que lhe são próprias nos dias de hoje, diante da emergência climática: para além do âmbito humano, para incluir animais e plantas que são afetadas pela ação humana. Em outras palavras, se o desafio ambiental se tornou um desafio para os direitos humanos e extra-humanos, ele também deve se tornar um desafio ético e, sobretudo, político - e cabe aos agentes e instituições de mudança social, pressionar as autoridades para que algo seja feito e com urgência (2023, p. 63).”

[48] Como expõem Fanon em Os Condenados da Terra.

[49] Importante notar a etimologia da palavra desastre, que designa uma má relação com o astro, ou sua influência danosa. Essa palavra adquire uma força em nossos tempos, na medida em que podemos observar o aquecimento do planeta e suas consequências como uma relação desarmônica entre humanos e seus astros.

[50] O Antropoceno pode ser considerado como o fim da possibilidade, nas palavras de Marco Antonio Valentim, isso significa: “A morte é um fator de evolução cósmica, tão indissociável da vida quanto a desordem da ordem. Mas não é dessa morte que se trata aqui. Trata-se da morte não enquanto fim da vida, mas como fim, ao mesmo tempo, da vida e da morte, da própria evolução irreversível da matéria, ou seja, do colapso da própria irreversibilidade” (2020).

[51] As sociedades Ocidentais, aos poucos, vão se relacionando com os outros, isso inclui as pedras e rochas, como consequência nossa construção de mundo e subjetividade tem se misturado, como ensina Eladio Constantino Craia Pablo, “um corpo composto também com silício, o elemento dos processadores, como símbolo maior de nossa contemporaneidade tecnológica. Silício que não necessariamente deve estar presente “em nosso corpo”, mas também em nossa forma fenomênica “composta” de aparecer, ou seja, em nosso “ser com”” (2021, p. 75-90).

[52]And they turn to issues of value and evaluation: what political or economic weight should these beliefs be given, and in what social realm should they be assessed? Are Aboriginal people working, in the commonsense meaning of that word, when they talk to local Dreamings# or when they sit and relax, talk, play cards, or sleep on a beach? And how should this work be stacked up against the kind of labor that produces the Australian gross national product?”.

[53] Dreamings  é a designação dos espíritos próximos a esses povos, eles podem estar nas montanhas, nos ossos ou nos achados arqueológicos, em Geontologia o termo foi traduzido como Sonhares.

[54] As mudanças climáticas vêm tornando cada vez mais real a metáfora do inferno que é viver no capitalismo, transformando literalmente o planeta em um lugar hostil no qual a duras penas devemos sobreviver e ou morrer.

[55] É preciso ser anti-narciso, como pretendia Eduardo Viveiros de Castro em suas Metafísicas Canibais (2018).

[56] Ver o capítulo sobre a violência em Os condenados da terra.

[57] Ver o terceiro capítulo de O Anti-édipo.

[58] Alyne Costa aponta que: “não consiste em uma tentativa de amenizar a catástrofe ecológica e seus efeitos; ela problematiza a própria elaboração social da catástrofe, sua “eventização”, sua fixação como um acontecimento extraordinário para onde nossos olhares devem se voltar – enquanto negligenciamos os pequenos acontecimentos de “morte lenta”, as experiências cotidianas de deterioração a que todos os seres estão submetidos sob a ordem do sistema político e econômico neoliberal” (2016).

[59] “A noção de globo e pensamento global contém o imenso perigo de unificar muito rapidamente o que primeiro deve ser composto. Esse problema é, antes de tudo, material – é preciso desenhar um círculo antes de poder gerar uma esfera. Ele é também empírico – foi apenas porque a nau de Fernão de Magalhães retornou que seus contemporâneos conseguiram fixar em suas mentes a imagem de uma Terra esférica que eles já conheciam. Mas é também moral – é somente quando sentimos que nossa ação recai sobre nós mesmos que entendemos como somos responsáveis por ela. Como Sloterdijk notou, é só quando os seres humanos veem a poluição voltando para eles que realmente sentem que a Terra é redonda. Ou melhor, a redondeza da Terra, conhecida – mas sempre superficialmente – da mais alta Antiguidade, tem verossimilhança crescente na medida em que aumenta o número de círculos pelos quais se pode circunscrevê-la lentamente” (Latour, Bruno. 2020).

[60] Sobre o tema “Fim da história”, ler o livro do autor  “O Fim da História e o último Homem” de 1992.

[61] Sobre o tema global ver Dipesh Chakrabarty, O Global e o Planetário (2025).

[62] No texto La sorcellerie capitaliste: pratiques de désenvoûtement (2007), de Philippe Pignarre e Isabelle Stengers, é traçado um paralelo entre a ascensão do capitalismo e a morte das Bruxas, a ideia, em resumo, é que o capitalismo possui um feitiço que nos faz ser sugado cada vez mais para os seus domínios e que nossa sociedade, em decorrência da própria forma do pensamento Ocidental e do funcionamento das ciências, está desprotegida em relação à esse feitiço do capital, isso porque não temos mais quem nos proteja, deixamos nossas bruxas sem poder. No mesmo sentido vai o Texto que vimos anteriormente de Povinelli, existem “Crenças” no capitalismo que substituem a ideia do sagrado pelos valores "científicos de mercado”.

[63] Ver o documentário “Carne e Osso” de 2011, no qual uma empresa de frigorífico utiliza seus trabalhadores até que ele não possa mais exercer a profissão, depois são descartados ao INSS.

[64] Nesse caso, ao trazermos para o debate cotidiano a fim de exemplificar, é comum encontrar camisetas de artistas e militantes revolucionários, como Frida Kahlo e Che Guevara, em lojas de roupas associadas à precarização do trabalhador, por exemplo.

[65] Esses são os pontos fundamentais para o nosso trabalho. Poderíamos abordar diversos limites internos do capitalismo, que a qualquer momento podem romper com essa estrutura, como: o racismo, a misoginia, a misantropia, a ideia de propriedade privada, as taxas de juros. No entanto, não temos tempo ou espaço para abordar esses problemas neste trabalho.

[66] Sobre essa inversão, ver Bruno Latour em Jamais fomos modernos (1994).

[67] Povinelli expressa isso de diversos modos práticos quando fala sobre os projetos que são desenvolvidos pelos Karrabing em sua Geontologia e Catástrofe ancestral.