Recebido
em: 06/10/2025
Aprovado
em: 01/12/2025
Publicado
em: 23/12/2025
A crise
ecológica como expressão da sociedade fechada: Uma Leitura de As Duas Fontes da
Moral e da Religião de Henri Bergson[9]
THE
ECOLOGICAL CRISIS AS AN EXPRESSION OF THE CLOSED SOCIETY: A Reading of The
Two Sources of Morality and Religion by Henri Bergson
Tailine Hijaz[10]
Resumo
A pesquisa investigou os conceitos de sociedade aberta e sociedade
fechada em As duas fontes da moral e da religião, de Henri Bergson, buscando compreender suas implicações para as
dinâmicas sociais e morais contemporâneas. O problema consistiu em verificar se
a lógica da sociedade fechada, marcada pela repetição, exclusão do diferente e
tendência à guerra, ainda persiste nas formas sociais atuais e se pode ser
identificada como uma das raízes da crise ecológica. O objetivo central foi
examinar como a filosofia bergsoniana oferece
elementos para interpretar a crise ecológica como problema moral e espiritual,
ultrapassando os limites das abordagens técnico-científicas e socioeconômicas.
Entre os objetivos específicos estiveram: reconstruir os conceitos de obrigação
moral, moral fechada, moral aberta e emoção criadora; analisar sua relação com
democracia, técnica e guerra; e avaliar sua atualidade para pensar a relação
entre humanidade e natureza. A metodologia baseou-se na análise estrutural e
conceitual da obra de Bergson, complementada por
leitura crítica de comentadores. Os resultados mostraram que a moral fechada
opera por coesão grupal e obediência a regras fixas, enquanto a moral aberta se
funda na criação, na emoção e no impulso místico que orienta a abertura ao
outro. Evidenciou-se ainda que o desenvolvimento técnico, quando desvinculado
da moral criadora, reforça a lógica da sociedade fechada e intensifica
exclusões e destruições, sobretudo no contexto da crise ambiental. O resgate de
uma moral aberta, orientada pela criação e pelo misticismo, surge como via
possível para repensar a relação entre humanidade e natureza.
Palavras-chave: Sociedade
aberta. Sociedade
fechada. As
Duas Fontes da Moral e da Religião. Henri
Bergson. Crise ecológica.
Abstract
The
study examined the concepts of open society and closed society in The Two
Sources of Morality and Religion by Henri Bergson, seeking to understand
their implications for contemporary social and moral dynamics. The research
question was whether the logic of the closed society, marked by repetition,
exclusion of difference, and a tendency toward war, still persists in present
social forms and can be identified as one of the roots of the ecological
crisis. The main aim was to investigate how Bergson’s philosophy offers
elements to interpret the ecological crisis as a moral and spiritual issue,
going beyond the limits of technical-scientific and socioeconomic approaches.
The specific aims included reconstructing the concepts of moral obligation,
closed morality, open morality, and creative emotion; analyzing their relation
to democracy, technique, and war; and assessing their relevance for rethinking
the relationship between humanity and nature. The methodology was based on the
structural and conceptual analysis of Bergson’s work, complemented by a
critical reading of commentators. The results showed that closed morality
operates through group cohesion and obedience to fixed rules, while open
morality is grounded in creation, emotion, and the mystical impulse that leads
to openness to others. It was also demonstrated that technical development,
when disconnected from creative morality, reinforces the logic of the closed
society and intensifies processes of exclusion and destruction, particularly in
the context of the environmental crisis. The revival of an open morality,
guided by creation and mysticism, emerges as a possible path to rethink the
relationship between humanity and nature.
Keywords:
Open
society. Closed society. The Two Sources of Morality and Religion. Henri
Bergson. Ecological crisis.
INTRODUÇÃO
A crise ecológica ocupa
hoje um lugar incontornável no debate global, mobilizando diagnósticos
técnico-científicos e socioeconômicos que tratam de seus impactos ambientais,
políticos e distributivos. Embora fundamentais, essas abordagens não esgotam o
problema, que também pode ser discutido em sua dimensão filosófica. É nesse
ponto que se situa o presente artigo, que toma como hipótese a interpretação da
crise como manifestação da lógica da sociedade fechada, conceito desenvolvido
por Henri Bergson em As Duas Fontes da Moral e da
Religião.
Ao
longo da pesquisa, examino como Bergson caracteriza a
sociedade fechada pela coesão grupal, pela exclusão do diferente e por uma
disposição natural à guerra, elementos que não se restringem a formações
históricas passadas. Identifico, ainda, que esses impulsos permanecem operantes
sob camadas de civilização e podem se manifestar hoje, por exemplo, na relação
predatória com o meio natural. Nesse contexto, constato que o desenvolvimento
técnico contemporâneo, quando desvinculado de uma moral criadora ou de um
impulso místico, de acordo com definições específicas apresentadas por Bergson, funciona como catalisador de processos de exclusão
e destruição, ampliando a crise em vez de mitigá-la.
A
investigação buscou, assim, compreender a crise ecológica em sua radicalidade,
explorando a intersecção entre natureza, sociedade, moral e espiritualidade que
Bergson coloca no centro de sua filosofia. O percurso
desenvolvido incluiu, primeiro, a análise das distinções fundamentais entre
sociedade fechada e sociedade aberta, obrigação moral e moral criadora,
articuladas com a relação entre natureza e sociedade. Em seguida, estudou-se
como essa lógica se traduziu historicamente em guerra, patriotismo e técnica,
destacando o duplo movimento descrito por Bergson: a
expansão material acompanhada de esvaziamento espiritual. Por fim, a pesquisa
discutiu, ainda que de forma introdutória, em que medida esses elementos
permitem delinear possibilidades para uma ética ecológica inspirada na
filosofia bergsoniana, em que a mística, a justiça e
a abertura moral oferecem fundamentos para repensar a relação entre humanidade
e natureza de forma mais comprometida e inventiva.
Qual é a
dupla origem da moralidade em As Duas Fontes da Moral e da Religião?
No primeiro capítulo de
As Duas Fontes da Moral e da Religião, Bergson
inicia com uma descrição da obrigação moral que poderia, à primeira vista, ser
lida como estritamente sociológica: fruto da pressão social, dos hábitos
coletivos que garantem coesão e estabilidade. Em princípio, essa leitura o
aproximaria de Durkheim, por exemplo, para quem a moralidade é essencialmente
social e integra o indivíduo ao grupo. No entanto, o filósofo não permanece
nesse quadro. Conforme ele apresentará no decorrer do capítulo, sua análise
mostra que essa é apenas uma forma de moralidade, a moralidade da sociedade
fechada. A grande novidade de sua proposta é distinguir essa moralidade
fechada, baseada na pressão social, de uma moral aberta, fundada não em
pressões externas, mas em apelos criadores.
Para tanto, o percurso
do capítulo é gradual: Bergson parte da obediência a
figuras de autoridade, como pais e professores, observando que raramente
refletimos sobre sua origem porque a percebemos como hábito enraizado. A
autoridade dos pais, por exemplo, parece derivar menos de sua pessoa do que de
sua posição social: “Assim, aos nossos olhos, sua autoridade lhes vinha menos
deles próprios do que de sua posição em relação a nós” (Bergson,
2013 [1932], p. 1).[11] [12]
Esse dado empírico mostra que, de modo geral, a obrigação se apresenta muito
mais como pressão coletiva do que como escolha racional.
Vale destacar que essa
pressão é distinta de um hábito isolado. Na verdade, se trata de um hábito de
outra natureza, que se impõe ao indivíduo de modo quase automático e com força
biológica. Bergson recorre à analogia orgânica: “[…]
a partir do momento em que essas vontades estão organizadas, elas imitam um
organismo; […] Desse primeiro ponto de vista, a vida social nos aparece como um
sistema de hábitos mais ou menos fortemente enraizados que respondem às
necessidades da comunidade” (Bergson, 2013 [1932], p.
2).[13]
Seguindo a analogia, assim como a célula se sacrifica pelo corpo, o indivíduo tende
a se subordinar ao grupo, de forma tal que a infração adquire caráter
“antinatural”: “Uma infração à ordem social reveste, assim, um caráter
antinatural: mesmo que seja frequentemente repetida, ela nos dá a impressão de
uma exceção que seria para a sociedade o que um monstro é para a natureza” (Bergson, 2013 [1932], p. 5).[14]
Essa primeira
descrição, ainda sem o termo “fechado”, já contém seus elementos centrais: coesão
pela conformidade aos hábitos, preservação da ordem interna, exclusão do que
ameaça a integridade do grupo. A razão, embora
importante para organizar condutas, não é sua origem. Como Bergson
argumenta: “Se muitos filósofos, em particular aqueles que se vinculam a Kant,
a conceberam assim, é porque confundiram o sentimento da obrigação [...] com o
impulso que às vezes nos infligimos para romper o que se oporia a ela” (Bergson, 2013 [1932], p. 14).[15] Em outras palavras, para Bergson, a obrigação moral nasce da pressão social, não da razão pura.
Nesse ponto, o autor
retoma distinções de A Evolução Criadora para esclarecer que, enquanto o
instinto animal opera de modo fixo e previsível, a inteligência humana introduz
flexibilidade, embora tenda a se fechar sobre o interesse do grupo. Mais ainda,
a obrigação moral imita a regularidade do instinto, mas é moldada pela
inteligência, de modo a manter a coesão e limitar a abertura. É quando nomeia
esse modelo que Bergson fala de “sociedade fechada”:
“o instinto social [...] sempre visa [...] uma sociedade fechada, por mais
vasta que seja” (Bergson, 2013 [1932], p. 27).[16]
Outro elemento
fundamental da argumentação do autor é que, diferentemente do que se afirmava
na sociologia tradicional da época, ampliar geograficamente o círculo social ou
incluir novos membros não altera sua natureza. A sociedade fechada continua
orientada pela autopreservação. A passagem para a sociedade aberta, portanto,
não é quantitativa, mas qualitativa. É como, se, resume Worms,
“para superar o fechamento que separa os homens entre si, e que conduz à
guerra, fosse preciso um salto vertical e não um alargamento horizontal: para
chegar a toda humanidade, fosse preciso superar a humanidade, ou ainda [...] o
princípio da vida” (Worms, 2010, pp. 319-320).
Na sociedade aberta, a
coesão decorre de um apelo criador que reconhece a humanidade como um todo. O
amor à pátria é distinto do amor à humanidade, pois o primeiro continua
condicionado à clausura, fechamento, enquanto o segundo implica um salto espiritual
que rompe o fechamento tribal. Esse contraste também se reflete na justiça, que
funciona como critério: ela é relativa na sociedade fechada, voltada à ordem
interna; mas é absoluta na sociedade aberta, ato criador que universaliza
efetivamente a consideração pelo outro (Bergson, 2013
[1932], pp. 68-84).
A diferença se traduz
também em dois tipos de moralidade. De um lado, a moral estática é impessoal,
repetitiva, sustentada por hábitos sociais e pela pressão exterior. De outro, a
moral dinâmica, própria do aberto, nasce de uma emoção criadora supra-intelectual, que se transmite por inspiração direta e
reorienta a disposição moral. Nesse ponto, Bergson
menciona os initiateurs en morale, isto é, indivíduos capazes de suscitar
entusiasmo e de transformar obrigações herdadas em aspirações criadoras,
fazendo com que o impulso vital se projete no plano da ação: “As duas forças,
exercendo-se em regiões diferentes da alma, projetam-se no plano intermediário,
que é o da inteligência” (Bergson, 2013 [1932], pp.
85-86). Essa dinâmica se prolonga em uma orientação prática voltada para além
do grupo, na medida em que o esforço moral se dirige ao bem da humanidade e
tende a se expressar como ampliação efetiva da comunidade moral (o que Bergson, depois, descreverá como o prolongamento do esforço
ético em uma fraternidade humana).[17]
Entre os dois extremos,
há ainda um importante estado de transição, a alma que se abre. Nesse estado
intermediário, a inteligência desperta para a diferença entre obedecer
passivamente e agir movida por apelo criador: “Entre a alma fechada e a alma
aberta há a alma que se abre” (Bergson, 2013 [1932],
p. 62).[18]
Essa abertura dá conta de que a moralidade tem uma origem dupla: compulsão
social e emoção criadora. Ambas derivam da própria vida, que ora se fecha para
preservar, ora se abre para inovar. De fato, a moral aberta talvez nunca se
realize plenamente, mas sua possibilidade aponta para uma fonte dinâmica de
renovação ética que se projeta sobre a história.
Em todo caso, considero
que a distinção entre moral fechada e moral aberta não deve ser entendida como
exclusão mútua. As duas tendências coexistem na vida social e mesmo na vida
individual: o fechamento assegura a coesão mínima sem a qual não haveria
comunidade, enquanto a abertura introduz o movimento criador que impede a
estagnação. A pressão social e a emoção criadora, longe de se anularem, parecem
compor diferentes modos pelos quais a vida se conserva e se renova. Nesse
sentido, a proposta bergsoniana não parece descrever
apenas uma alternativa normativa entre fechamento e abertura, mas um campo de
tensões estruturais no qual a sociedade se move, ora reforçando hábitos de
autopreservação, ora abrindo-se a impulsos capazes de expandir o horizonte
coletivo.
A distinção entre
sociedades fechadas e abertas, portanto, não é apenas uma tipologia
sociológica, mas uma chave para compreender como a moralidade pode tanto se
fixar em hábitos que preservam o grupo quanto se abrir a uma aspiração criadora
capaz de renovar a vida coletiva. Como veremos na sequência, esse duplo
movimento, que articula compulsão social e emoção criadora, será decisivo para
avaliar como as formas históricas de sociabilidade, da guerra à técnica, podem
reproduzir a lógica do fechamento ou, ao contrário, preparar a emergência de
novos horizontes de abertura.
É nesse ponto que se
coloca a questão central do presente artigo: se, segundo nossa hipótese, a
crise ecológica atual não decorre apenas de desequilíbrios técnicos ou
econômicos, mas também da persistência da lógica do fechamento aplicada à
relação com a natureza, então interpretar essa crise justifica retomar a
análise bergsoniana para investigar como os impulsos
herdados e os avanços técnicos se combinam em nossa civilização.
Como a
lógica da sociedade fechada se manifesta historicamente em guerra, patriotismo
e técnica?
A distinção entre
sociedades fechadas e abertas, examinada na primeira parte, permite agora
compreender como os impulsos herdados da sociabilidade natural se traduzem em
fenômenos históricos concretos. Com efeito, Bergson
mesmo nos mostra que o fechamento não permanece apenas como disposição
abstrata, mas se manifesta em práticas e instituições que estruturaram a vida
coletiva. Como o autor discute no último capítulo da obra em estudo, chamado
“Remarques Finales”, a guerra, o patriotismo e a
técnica não parecem desvios ocasionais, mas prolongamentos diretos da lógica da
sociedade fechada. Por isso, considero que analisar essas manifestações é
relevante para compreender por que a modernidade, ao expandir indefinidamente
seus recursos materiais, acabou produzindo também novas formas de crise (entre
elas, a ecológica, que exige hoje um esforço interpretativo comparável ao que Bergson dedicou às guerras e à industrialização).
Assim, nesse último
capítulo da obra, Bergson sustenta que o ser humano
foi originariamente moldado para viver em pequenos grupos, nos quais a
sociabilidade instintiva garantiria a coesão interna. Consequentemente, a
lógica do grupo pequeno tem como contrapartida constituinte a oposição a outros
grupos, que são vistos como inimigos. Essa disposição para viver em pequenos
grupos, movida por uma sociabilidade instintiva, não desaparece com o progresso
cultural, mas persiste sob camadas de civilização: “se eliminássemos do homem
atual o que nele depositou uma educação de todos os instantes, o encontraríamos
idêntico, ou quase, a seus ancestrais mais distantes” (Bergson,
2013 [1932], p. 290).[19]
A analogia com insetos
"sociais", como formigas e abelhas, ilustra que o homem “tinha sido
feito para sociedades muito pequenas” (Bergson, 2013
[1932], pp. 292-293),[20]
disposição que, embora disfarçada por hábitos culturais, “permanece, no
entanto, nas profundezas da consciência” (Bergson,
2013 [1932], p. 293).[21]
Assim, mesmo em sociedades complexas, o instinto de fechamento pode ser
reativado sempre que há ameaça ou ruptura institucional. Em outras palavras, o
instinto ao fechamento seria constitutivo desse tipo de sociedade fechada e,
nesse sentido, sempre presente e atuando, vindo à tona, ou se explicitando, em
momentos de crise.
Nesse sentido, a guerra
aparece quase que como consequência estrutural: “a natureza, que quis pequenas
sociedades, abriu contudo a porta para sua ampliação. Pois ela quis também a
guerra, ou ao menos colocou o homem em condições de vida que tornavam a guerra
inevitável” (Bergson, 2013 [1932], p. 293).[22]
Bergson segue afirmando que a hostilidade ao
estrangeiro e a defesa comum atuaram como forças de unificação, ainda que
frágeis e temporárias. De fato, impérios antigos surgiram da conquista, mas
“[t]odos caíram em decomposição [...] porque eram grandes demais para viver” (Bergson, 2013 [1932], p. 294).[23]
O padrão, segundo Bergson, se repete, isto é, quando
a força central enfraquece, a “construção política desmorona” (Bergson, 2013 [1932], p. 294),[24]
dando lugar a unidades menores, como na feudalização
medieval. Mais ainda, essa recorrência mostra que o fechamento nunca é
completamente superado, mas permanece como tendência latente.
Na mesma linha, as
nações modernas reorganizam esse padrão por meio do patriotismo, descrito como
“uma virtude de paz tanto quanto de guerra” (Bergson,
2013 [1932], p. 294).[25]
Mais do que apenas ideologia, o patriotismo combina símbolos, memórias e
esperanças, conferindo coesão interna e legitimidade política. No entanto, nele
há uma ambiguidade, pois o patriotismo reforça a solidariedade entre
compatriotas, ao mesmo tempo em que mantém a hostilidade em relação ao
estrangeiro. O estrangeiro, mesmo em tempos de paz, é percebido como “um
inimigo virtual”,[26]
protegido por um “véu habilmente tecido de ignorâncias, prevenções e
preconceitos” (Bergson, 2013 [1932], p. 304).[27]
Nesse diagnóstico, a
democracia representaria a forma política mais antinatural — o que, dentro da
proposta bergsoniana, pode ser compreendido como algo
“positivo”, considerando que o “natural” é a sociedade fechada e tudo que ela
acarreta.[28] Isso porque a democracia, pelo
menos em tese, busca justamente romper o fechamento ao conceber o cidadão como
“ao mesmo tempo ‘legislador e súdito’” (Bergson, 2013
[1932], p. 300),[29]
conciliando direito e dever, liberdade e igualdade.
A fraternidade, posta
no centro da vida política, é de “essência evangélica” (Bergson,
2013 [1932], p. 300),[30]
expressão de um amor que, em princípio, transcende a lógica da sociedade
fechada. Como observa Cappello (2017), a democracia
em Bergson não se reduz a um regime institucional,
mas aparece como movimento espiritual de resistência às determinações da
sociedade fechada e de aspiração à criação de uma nova forma de vida coletiva.[31] Essa abertura, contudo, permanece
frágil e provisória: como Bergson explica, a
fraternidade democrática surge muitas vezes como protesto contra injustiças,
carregando ainda a energia negativa do antagonismo. Além disso, suas fórmulas
institucionais tendem a conservar o tom combativo de sua origem. Por isso,
afirma Bergson, a democracia só pode se sustentar se
encontrar um apelo criador capaz de neutralizar o retorno do fechamento.
É nesse quadro que Bergson introduz a noção de double
frénésie. Em suma, essa definição diz respeito à
oscilação entre duas tendências divergentes que derivam da mesma fonte vital:
de um lado, o impulso ascético de contenção e renúncia, levado à frenesia na
Idade Média; de outro, a corrida moderna pelo luxo, conforto e multiplicação
ilimitada de desejos. Dissociadas, cada uma exige ser levada ao extremo, até
que o excesso de uma provoque o retorno da outra. Não se trata de mera
alternância histórica, mas de um padrão estrutural. Sobre o ponto, Worms enfatiza que o duplo frenesi também reflete a tensão
entre mecânica e mística. A técnica, quando desligada de qualquer inspiração
espiritual, converte-se em hipertrofia material (Worms,
2013, pp. 14-15).
Bergson compara esse movimento a “um balão
que se enche furiosamente de ar” (Bergson, 2013
[1932], p. 323):[32] o
corpo da humanidade cresce desmesuradamente, mas sua vida interior permanece
anêmica. Nesse contexto, a ciência, longe de impor essa corrida, apenas
respondeu ao que lhe foi demandado, sendo instrumentalizada para criar novas necessidades
artificiais em vez de satisfazer o necessário. O resultado, em suma, é um ciclo
de desejos cada vez mais numerosos e imperiosos, que alimentam a produção
contínua sem alterar sua lógica fundamental.
Vale notar que Bergson não propõe a supressão de uma das tendências, mas
sua integração em um movimento criador. Como esclarece Worms,
na introdução da obra em estudo, “não se trata mais de idealizar a ética do que
de diabolizar a técnica, mas sim de submeter sua
relação à polaridade, mais urgente do que nunca, do fechado e do aberto” (2013,
p. 15).[33]
Para tanto, seria necessária uma força espiritual comparável à religião
dinâmica, capaz de reorientar a técnica em direção a finalidades compatíveis
com a dignidade humana. Um “génie mystique” poderia “arrastar consigo uma humanidade de
corpo já imensamente aumentado, de alma por ele transfigurada” (Bergson, 2013 [1932], p. 332).[34]
Essa proposta mostra que, para Bergson, as crises da
civilização não se resolvem apenas por reformas institucionais ou econômicas.
Em outras palavras, o problema não parece ser apenas político ou técnico, mas
está na própria relação entre corpo e espírito, mecânica e mística. Dito de
outro modo, somente sua reintegração poderia abrir um horizonte diferente para
o futuro.
Em suma, a análise da
guerra, do patriotismo e da técnica mostra que a lógica da sociedade fechada se
prolonga em formas históricas que, embora variem em conteúdo, mantêm a
estrutura de coesão interna e hostilidade externa. Além disso, o duplo frenesi
dá conta de que a modernidade não escapou a esse padrão, mas apenas deslocou o
antagonismo para uma hipertrofia técnica e material desprovida de contrapeso
espiritual. Se essa lógica foi capaz de produzir guerras e impérios, considero
que ela também se manifesta hoje na relação predatória com o meio natural, em
que o planeta é tratado como obstáculo a ser vencido e não como condição de
vida a ser preservada. É nesse ponto que a leitura bergsoniana
abre espaço para repensar a crise ecológica contemporânea. Como introduzo na
sequência, a mecânica, sem mística, converte-se em expansão ilimitada, mas uma
abertura moral e criadora pode oferecer recursos relevantes para compreender os
impasses contemporâneos, como no caso da crise ecológica.
É possível
pensar uma ética ecológica a partir da moral criadora de Bergson?
A humanidade geme,
semi-esmagada sob o peso dos progressos que realizou.
Ela não sabe o suficiente que seu futuro depende dela. Cabe-lhe, primeiro, ver
se quer continuar a viver. Cabe-lhe, depois, perguntar-se se quer apenas viver,
ou fornecer ainda o esforço necessário para que se cumpra, até mesmo em nosso
planeta refratário, a função essencial do universo, que é uma máquina de fazer
deuses (Bergson, 2013 [1932], p. 338).[35]
Essa epígrafe
corresponde exatamente ao final do livro que aqui discutimos. Bergson termina a obra, então, com essa advertência,
formulada diante das guerras e tensões do início do século XX. Considero que
ela ressoa de maneira ainda mais intensa frente à crise ecológica
contemporânea. Com efeito, a análise bergsoniana
sugere que essa crise não deve ser vista apenas como desequilíbrio técnico ou
falha de gestão econômica, mas pode ser lida como manifestação da lógica de
fechamento aplicada à relação com a natureza. O instinto de coesão interna e
hostilidade externa, que outrora se voltava contra outros povos, continua se
dirigindo contra o diferente, o estrangeiro, mas também contra o meio natural,
convertido em obstáculo a ser vencido em vez de condição de vida a ser
preservada. Além disso, como abordo brevemente na sequência, a partir da
leitura de A Evolução Criadora, podemos pensar o problema a partir de
outra dicotomia, isto é, conceber a natureza como mera fonte de recursos a ser
explorada ou, por outro lado, como totalidade viva da qual fazemos parte
internamente.
Não é preciso muita
pesquisa empírica para se constatar que a exploração predatória dos recursos
prolonga a estrutura da sociedade fechada, se recorrermos ao vocabulário bergsoniano. Se a guerra garantia coesão interna ao
mobilizar a exclusão do estrangeiro, a industrialização moderna consolidou sua
força na apropriação ilimitada da natureza, convertida em instrumento de
fortalecimento de Estados e corporações. A diferença é que, no caso ambiental,
o “inimigo” são os próprios limites físicos do planeta, tratados como barreiras
técnicas a serem superadas. Essa postura também reforça o duplo frenesi
descrito por Bergson, pois a busca incessante de
expansão material, sustentada por técnica sem mística, resulta em hipertrofia
que ameaça colapsar a própria base da vida.
Mais ainda, essa
leitura também ajuda a compreender por que as respostas políticas ao
aquecimento global, por exemplo, permanecem frequentemente tímidas e
ineficazes. Dito de outro modo, enquanto predominar a moral estática, guiada
por obrigações exteriores e cálculos imediatos, a cooperação internacional
ficará presa a interesses nacionais e estratégicos. Mesmo políticas
supostamente inovadoras, como a busca por “crescimento verde”, acabam
absorvidas pela lógica de expansão do consumo, convertendo-se em novos nichos
de mercado mais do que em instrumentos de reorganização da vida coletiva.
Em suma, sem a
inspiração de uma moral dinâmica, os compromissos permanecem frágeis e sujeitos
à lógica do fechamento. Como vimos, a moral dinâmica é uma disposição que nasce
de impulsos criadores e se expressa em amor desinteressado, capaz de romper a
clausura e expandir a comunidade moral. Se o imperialismo foi, para Bergson, uma imitação degradada da religião dinâmica,
voltada à dominação de outros homens, o extrativismo ecológico pode ser visto
como uma forma de imperialismo contra a natureza. Afinal, ambos compartilham o
mesmo problema: mobilizar o progresso técnico sem orientação espiritual,
perpetuando a lógica da conquista em vez da criação.
Uma ética ecológica
inspirada em Bergson exigiria, para começar, inverter
essa relação, mobilizando a técnica não para explorar, mas para preservar e
regenerar. Considero que isso não implica renunciar ao progresso científico,
mas submetê-lo a finalidades que transcendam o interesse imediato. Com efeito,
poderíamos afirmar que, sob essa ótica, energias renováveis, restauração de
ecossistemas ou práticas agrícolas regenerativas só teriam impacto
transformador se integradas a um ethos que
reconheça limites e aceite a contenção voluntária como parte do bem viver. O
paralelo histórico com o ascetismo medieval, ainda que situado em outro
contexto, também mostra a relevância de freios voluntários diante de uma
frenesia expansiva que ameaça destruir o seu próprio suporte.
Esse ponto ainda pode
ser compreendido em termos de justiça. Como vimos, Bergson
propõe a justiça como um bom critério para distinguir o fechado do aberto:
relativa na sociedade fechada, voltada à ordem interna; absoluta na sociedade
aberta, fundada em ato criador que universaliza a consideração pelo outro. Essa
distinção encontra ressonância em debates contemporâneos sobre justiça
climática. De um ponto de vista moral, Moellendorf
(2022), por exemplo, argumenta que o enfrentamento da mudança climática exige
compromissos que incluam não apenas os contemporâneos próximos, mas também os
mais vulneráveis e as gerações futuras. Assim, a passagem da justiça relativa
para a absoluta, nos termos bergsonianos, pode ser
lida como a exigência de dar o salto moral, o salto vertical, para que se
abarque a biosfera e os que ainda não nasceram.
Com efeito, como vimos
em parte de pesquisa anterior,[36]
a filosofia da vida desenvolvida pelo filósofo em A evolução criadora,
principalmente, reforça essa leitura. Em síntese, Bergson
descreve a vida como um impulso criador, o élan vital, que atravessa todas as
formas e as conecta em uma continuidade indivisível. Essa concepção impede
pensar a biosfera como simples soma de organismos isolados e sugere antes uma
solidariedade fundamental entre todos os seres vivos, em virtude de
compartilharem o mesmo movimento criador. Sob essa perspectiva, também a
justiça não pode se limitar às fronteiras humanas ou nacionais, pois a vida se
revela como processo aberto que ultrapassa qualquer fechamento. O salto moral
que Bergson descreve em termos da passagem do
relativo ao absoluto encontra, assim, um correlato no plano vital: em suma, só
quando reconhecemos a pertença comum a esse fluxo criador é que se torna
possível estender a consideração ética aos mais vulneráveis, às gerações
futuras e ao próprio conjunto da biosfera.
Retomando a obra em
estudo, o elo entre mecânica e mística é, portanto, decisivo para pensar a
transição ecológica. Nesse caso, a técnica, que nas últimas décadas
intensificou a pressão humana sobre a biosfera, pode ser reorientada por uma
inspiração moral criadora que privilegie preservação e regeneração. Lembremos
que Bergson afirmava que “a função essencial do
universo é uma máquina de fazer deuses” (Bergson, 2013
[1932], p. 338),[37] isto
é, a de impulsionar a humanidade para além da repetição do interesse imediato.
A urgência ecológica pode ser lida como momento de bifurcação moral: podemos
permanecer no fechamento, repetindo a hipertrofia material sem elevação espiritual,
ou podemos então reencontrar a abertura criadora que funda justiça ampliada e
comunidade verdadeiramente planetária.
Em resumo, o percurso
realizado mostrou que a distinção bergsoniana entre
sociedades fechadas e abertas oferece instrumentos conceituais úteis para
pensar fenômenos que vão da guerra à industrialização moderna. A análise da
persistência do fechamento na forma da hostilidade, do patriotismo e do duplo
frenesi técnico dá conta de como impulsos herdados continuam ativos sob
camadas de civilização. Ao trazer essa lógica para o presente, é possível
compreender a crise ecológica não apenas como problema técnico, mas como efeito
de um padrão civilizacional que combina expansão material e déficit moral.
De fato, Bergson não fornece soluções acabadas, mas um vocabulário
para repensar a relação entre técnica e inspiração, mecânica e mística,
obrigação e apelo criador. Confrontado com debates contemporâneos sobre justiça
climática, esse vocabulário sugere que enfrentar a crise ambiental exige mais
do que ajustes institucionais: requer uma abertura moral que amplie
qualitativamente o círculo de pertença e permita orientar a técnica para fins
que transcendam o interesse imediato. Longe de constituir uma resposta
definitiva, a leitura bergsoniana se apresenta,
assim, como uma contribuição crítica para situar a crise ecológica no nível
mais profundo de nossas disposições civilizacionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho permitiu identificar que
a moralidade, segundo Bergson, possui uma dupla
origem: de um lado, a compulsão
social, responsável pela coesão da sociedade fechada; de outro, a emoção
criadora, que funda a moral aberta e introduz possibilidades de renovação
ética. Essa distinção, desenvolvida no primeiro capítulo de As Duas Fontes
da Moral e da Religião, mostrou-se fundamental para compreender como os
hábitos sociais e a pressão coletiva moldam condutas, mas também como a
inspiração criadora abre espaço para ultrapassar a clausura grupal e orientar a
vida coletiva em direção a uma comunidade ampliada.
O estudo também indicou que a lógica da
sociedade fechada não é mero resíduo histórico, mas se prolonga em fenômenos
concretos como guerra, patriotismo e técnica. Nessas manifestações, impulsos
herdados de sociabilidade instintiva continuam operantes sob camadas de
civilização, reativando a hostilidade ao estrangeiro e a disposição à
conquista. O patriotismo, embora capaz de conferir coesão interna, mantém a
ambiguidade de reforçar o fechamento; e a técnica, quando desvinculada de uma
inspiração espiritual, intensifica a expansão material, reproduzindo o padrão
que Bergson descreveu como double
frénésie. Essa análise confirmou a hipótese de
que a modernidade, ao multiplicar indefinidamente seus recursos, também
produziu novas formas de crise.
A partir dessa base, foi possível discutir a pertinência de uma
ética ecológica inspirada na moral criadora. Constatou-se que a crise ambiental
contemporânea não se reduz a desequilíbrios técnicos ou econômicos, mas também
pode ser lida como manifestação da lógica do fechamento aplicada à relação com
a natureza. A exploração predatória dos recursos reproduz, no plano ecológico,
a mesma estrutura que no passado se manifestou na guerra: exclusão do outro,
hostilidade ao diferente e hipertrofia técnica sem contrapeso espiritual. Nesse
sentido, práticas como o extrativismo ilimitado podem ser compreendidas como
uma forma de imperialismo contra a natureza, sustentado pela repetição de
desejos artificiais e pela ausência de limites autoimpostos.
Os resultados indicaram ainda que a
moral estática,
fundada em pressões externas e cálculos imediatos, mostra-se insuficiente para
sustentar compromissos duradouros diante da crise ecológica. Somente uma moral
dinâmica, fundada em impulso criador e orientada pela justiça como critério
absoluto, no sentido específico atribuído pelo filósofo francês, poderia
oferecer recursos para ampliar o círculo moral e incluir tanto a biosfera
quanto as gerações futuras. Essa leitura encontra ressonância em debates
contemporâneos sobre justiça climática, que também apontam para a necessidade
de um salto qualitativo nas formas de cooperação internacional.
Em termos conclusivos, considero que
a filosofia bergsoniana oferece instrumentos
conceituais relevantes para interpretar a crise ecológica contemporânea em sua dimensão
moral e espiritual. Mais do que soluções técnicas, o que está em jogo é a
necessidade de reorientar a técnica a partir de uma inspiração criadora,
reintegrando mecânica e mística, corpo e espírito. Ao propor esse deslocamento,
não tenho a pretensão de fornecer respostas definitivas, mas indicar que a
atual emergência ambiental pode ser lida como ocasião para repensar nossas
disposições civilizacionais mais profundas. A contribuição desta investigação
reside, portanto, em mostrar que a crise ecológica não é apenas um problema de
gestão, mas a expressão de uma clausura que pode ser superada pela abertura
moral e criadora que Bergson descreveu como horizonte
da humanidade.
REFERÊNCIAS
BERGSON, Henri. Les Deux
Sources de la Morale et de la Religion. Édition critique dirigée par
Frédéric Worms. Paris: PUF, 2013.
BERGSON,
Henri. A Evolução Criadora. Trad. Bento Prado Neto. 2ª ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2019.
CAPPELLO,
Maria Adriana Camargo. Democracia em as duas fontes da moral e da religião:
Resistência e Aspiração. Trans/Form/Ação, vol. 40, n. 2, abril-junho, 2017, pp.
139-162. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/6922. Acesso
em: 19 nov. 2024.
LEFEBVRE, Alexandre. Human Rights as a Way of Life
– On Bergson’s political philosophy. Stanford University Press, 2013.
MOELLENDORF, Darrel. Mobilizing Hope. Climate
Change and Global Poverty. Oxford:
Oxford University Press, 2022.
WORMS,
Frédéric. Bergson ou os dois sentidos da
vida. São Paulo: Ed. Unifesp, 2010.
WORMS,
Frédéric. Présentation. In: BERGSON, Henri. Les Deux Sources de
la Morale et de la Religion. Édition critique dirigée par Frédéric Worms.
Paris: PUF, 2013.
[9] Este trabalho integra os
resultados do Programa de Iniciação Científica e em Desenvolvimento Tecnológico
e Inovação — Edital 2024, no qual a autora atuou como pesquisadora voluntária,
sob orientação da Prof.ª Dr.ª Maria Adriana Camargo Cappello.
[10] Doutoranda em Filosofia
pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em cotutela com a Universität Vechta (Alemanha).
Mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail:
tailinehijaz@hotmail.com
[11] Salvo indicação contrária, as
traduções de passagens citadas em língua estrangeira são de responsabilidade da
autora.
[12] “Donc, à nos
yeux, leur autorité leur venait moins d’eux-mêmes que de leur situation par
rapport à nous”.
[13] “[...] du
moment que ces volontés sont organisées, elles imitent un organisme; [...] De
ce premier point de vue, la vie sociale nous apparait comme un système
d’habitudes plus ou moins fortement enracinées qui répondent aux besoins de la
communauté”.
[14] “Une
infraction à l’ordre social revêt ainsi un caractère antinaturel: même si elle
est fréquemment répétée, elle nous fait l’effet d’une exception qui serait à la
société ce qu’un monstre est à la nature”.
[15] “Si bon
nombre de philosophes, en particulier ceux qui se rattachent à Kant, l’ont
envisagée ainsi, c’est qu’ils ont confondu le sentiment de l’obligation [...]
avec l’ébranlement que nous nous donnons parfois pour briser ce qui
s’opposerait à elle”.
[16] “l’instinct
social [...] vise toujours [...] une société close, si vaste soit-elle”.
[17] “Les deux
forces, s’exerçant dans des régions différentes de l’âme, se projettent sur le
plan intermédiaire, qui est celui de l’intelligence”.
[18] “Entre l’âme
close et l’âme ouverte il y a l’âme qui s’ouvre”.
[19] “si l’on
éliminait de l’homme actuel ce qu’a déposé en lui une éducation de tous les
instants, on le trouverait identique, ou à peu près, à ses ancêtres les plus
lointains”.
[20] “avait été
fait pour de très petites sociétés”.
[21] “demeure
pourtant dans les profondeurs de la conscience”.
[22] “la nature,
qui a voulu de petites sociétés, a pourtant ouvert la porte à leur
agrandissement. Car elle a voulu aussi la guerre, ou du moins elle a fait à
l’homme des conditions de vie qui rendaient la guerre inévitable”.
[23] “[t]ous
tombèrent en décomposition [...] parce qu’ils étaient trop grands pour vivre”.
[24] “construction
politique s’écroule”.
[25] “une vertu de
paix autant que de guerre”.
[26] “un ennemi
virtuel”.
[27] “voile
habilement tissé d’ignorances, de préventions et de préjugés”.
[28] Conforme esclarece Cappello, “[...] o esforço da alma humana para
desenvolver-se no sentido da democracia – esforço que, de resto, só pode
ocorrer na vida humana em sociedade – é inverso ao da natureza em um sentido
bastante preciso, pelo qual “natureza”, antes de poder ser caracterizada em sua
comum oposição à cultura, opõe-se a um outro sentido de “natureza” também
reconhecido por Bergson. Com efeito, no contexto de
sua teoria da vida, Bergson nos remete a dois
sentidos de natureza – e, somente a partir destes, dois sentidos de cultura –;
a saber, o sentido do movimento gerador de vida e o sentido da estabilidade das
formas de vida então geradas” (2017, pp. 139-140).
[29] “à la fois
‘législateur et sujet’”.
[30] “essence
évangélique”.
[31] Para compreender o
tema da democracia em As duas fontes da moral e da religião, conferir Cappello, para quem “será, portanto, nesse contexto de
inversão do sentido de uma natureza determinada para o sentido de uma natureza
que é fonte criadora de naturezas, que pensamos poder circunscrever a noção de
democracia, em Bergson, como a de um movimento do
homem em sociedade que tanto resiste às determinações naturais a essa sociedade
quanto aspira à criação de uma nova sociedade, um movimento, portanto, de
resistência e de aspiração” (2017, p. 140).
[32] “un ballon
qu’on remplit furieusement d’air”.
[33] “il ne s’agit
pas plus d’idéaliser l’éthique que de diaboliser la technique, mais au
contraire de soumettre leur relation à la polarité, plus urgente que jamais, du
clos et de l’ouvert”.
[34] “entraîner
derrière lui une humanité au corps déjà immensément accru, à l’âme par lui
transfigurée”.
[35] “L’humanité
gémit, à demi écrasée sous le poids des progrès qu’elle a faits. Elle ne sait
pas assez que son avenir dépend d’elle. À elle de voir d’abord si elle veut
continuer à vivre. À elle de se demander ensuite si elle veut vivre seulement,
ou fournir en outre l’effort nécessaire pour que s’accomplisse, jusque sur
notre planète réfractaire, la fonction essentielle de l’univers, qui est une
machine à faire des dieux”.
[36] Esta etapa da pesquisa, também desenvolvida
no âmbito de um projeto de Iniciação Científica na UFPR, foi dedicada à análise
da filosofia da vida de Bergson em A evolução
criadora, com foco nas noções de duração, criação e élan vital em seu
alcance cosmológico. Nessa fase, o trabalho se concentrou na reconstrução
conceitual do impulso criador e de sua compreensão da vida como continuidade
indivisível, sem abordar ainda suas consequências no âmbito da moralidade, da
justiça ou da relação ética com a biosfera.
[37] “la fonction
essentielle de l’univers est une machine à faire des dieux”.