2025 – Ano XI – Volume XI – Número XXX ISSN – 2358-7482
-Sophia
Revista
eletrônica de investigação
filosófica,
científica e tecnológica.
Recebido em: 07/11/2025
Aprovado em: 15/12/2025
Publicado em: 23/12/2025
DISTOPIAS DO ANTROPOCENO:
de Krenak à sala de aula, imagens de um mundo devorado
ANTHROPOCENE DYSTOPIAS:
from Krenak to the classroom, images of a devoured world
Katyuscia Sosnowski73
Daniel Salésio Vandresen74
Resumo
Esse trabalho descreve o pensamento de Ailton Krenak sobre o Antropoceno e a condição distópica contemporânea, destacando como o consumo ilimitado, a lógica civilizatória excludente e a ruptura da reciprocidade com a Terra configuram um cenário de esvaziamento de sentidos e afetos. Em diálogo com esse referencial, a pesquisa desenvolveu uma experiência pedagógica com estudantes do ensino médio, articulando arte, leitura de imagens e cosmologias indígenas como conteúdos transversais. As imagens produzidas pelos estudantes expressam inquietações, ironias e percepções sobre a crise ambiental, evidenciando como o pensamento de Krenak favorece diagnósticos críticos sobre o agir humano no planeta e amplia a compreensão ética e afetiva da relação com a Terra. O estudo evidencia que a sala de aula pode contribuir como espaço de imaginação e formação de consciência coletiva, fortalecendo práticas educativas que cultivam a reciprocidade, afetos e a capacidade de “juntar mundos”.
Palavras-chave: Distopia. Antropoceno. Reciprocidade. Sala de aula. Leitura de imagens.
Abstract
This
paper examines Ailton Krenak’s reflections on the Anthropocene and
the contemporary dystopian condition, emphasizing how unlimited
consumption, an exclusionary civilizational mindset, and the rupture
of reciprocity with the Earth create a scenario marked by the erosion
of meaning and affect. Drawing on this framework, the study developed
a pedagogical experience with high school students, integrating art,
visual literacy, and Indigenous cosmologies as cross-cutting
elements. The images produced by the students reveal concerns,
ironies, and perceptions regarding the environmental crisis, showing
how Krenak’s thought enables critical diagnoses of human actions on
the planet and deepens ethical and affective understandings of our
relationship with the Earth. The findings indicate that the classroom
can function as a space for imagination and the formation of
collective consciousness, strengthening educational practices that
foster reciprocity, affect, and the capacity to weave worlds
together.
Keywords: Dystopia. Anthropocene. Reciprocity. Classroom. Visual literacy.
INTRODUÇÃO
Nos últimos séculos, a humanidade tem presenciando profundas transformações em sua casa comum, a Terra. Essas alterações geológicas e climáticas têm conduzido à reflexão sobre os limites de um modo de vida sustentado pelo consumo ilimitado, pela exploração da natureza e pela centralidade do humano como medida de todas as coisas. Nesse contexto, a noção de distopia do Antropoceno emerge como um diagnóstico crítico de uma crise civilizatória, expresso no agir social e ambiental caracterizado pelo esvaziamento de sentidos e pela ruptura de vínculos de reciprocidade com nossa casa.
É nesse registro que o presente artigo dialoga com o pensamento de Ailton Krenak, (escritor e primeiro indígena a ocupar a cadeira da Academia Brasileira de Letras) especialmente suas críticas ao Antropoceno, que se sustenta em uma lógica civilizatória excludente e sob uma perspectiva de progresso infinito. Em articulação com esse referencial, o texto apresenta uma experiência pedagógica desenvolvida com estudantes do ensino médio, na qual a leitura de textos de Krenak foi associada à produção e à análise de imagens como estratégia para mobilizar reflexões críticas sobre a crise ambiental e os modos de vida contemporâneos. Assim, os objetivos deste artigo são: analisar o pensamento de Krenak acerca da distopia contemporânea e da ruptura da reciprocidade com a Terra; refletir sobre o potencial pedagógico da arte e da leitura de imagens no contexto escolar, enquanto expressão crítica sobre o agir humano no planeta.
DISTOPIAS DO ANTROPOCENO
“É uma distopia: em vez de imaginar mundos, a gente os consome” (Krenak, 2020).
Vivemos hoje em uma sociedade distópica? Para Ailton Krenak a resposta é afirmativa: “É uma distopia: em vez de imaginar mundos, a gente os consome” (Krenak, 2020, p. 36). Krenak critica a concepção de era do Antropoceno como uma representação do ser humano enquanto espécie superior, uma visão predominante atualmente em que o homem construiu a imagem de si mesmo como centro e senhor do planeta. Nessa visão, a humanidade é conduzida por um desejo devastador, como expõe: “[...] o nosso desejo é infinito e, se o nosso desejo não tem limite, então vamos comer este planeta todo” (Krenak, 2020, p. 53).
Por meio da metáfora de “comer o planeta”, Krenak (2020) denuncia o vício humano pela novidade e pelo consumo incessante, em que o desejo por permanência e pela produção contínua sustenta a ilusão de um progresso sem fim. Como afirma:
Existe um desejo de que essa condição de consumo da vida se estenda por tempo indeterminado, sem que a máquina de fazer coisas precise ser desligada. [...] Estamos, todos nós, viciados no novo: um carro novo, uma máquina nova, uma roupa nova, alguma coisa nova (Krenak, 2020, p. 33).
Esse vício pelo novo que sustenta o desejo consumista, alicerçado na ilusão de crescimento infinito do sistema capitalista, constitui uma ameaça à vida. Isso se evidencia na produção de objetos descartáveis, fabricados para ter uma curta existência, alimentado por uma lógica capitalista de produção e consumo que não avalia o impacto devastador de suas ações sobre a Terra e as formas de vida.
Krenak recorrentemente tensiona o conceito de Antropoceno, o qual surge como uma proposta para nomear a era geológica marcada pelo impacto humano no planeta, especialmente devido às mudanças climáticas, exploração de recursos e destruição de ecossistemas. Dentro desta perspectiva, o Antropoceno seria uma época geológica posterior ao Holoceno e teria sido iniciada com a Revolução Industrial se intensificando após a Segunda Guerra Mundial. (Arantes, 2025, p. 06)
Para os povos originários, tais como os quilombolas e indígenas latino-americanos a crise climática os afeta de forma desigual pois segundo suas cosmovisões, a terra e as florestas possuem um estatuto moral de existência. Para esses povos, a terra não é um substrato inerte, as florestas e as águas não são recursos a serem explorados. Krenak associa a concepção de Antropoceno com a distopia, quando afirma que:
Assim como nós estamos hoje vivendo o desastre do nosso tempo, ao qual algumas seletas pessoas chamam Antropoceno. A grande maioria está chamando de caos social, desgoverno geral, perda de qualidade no cotidiano, nas relações, e estamos todos jogados nesse abismo (Krenak, 2019, p. 72).
Desse modo, Krenak desenvolve a ideia de distopia ao criticar o antropocentrismo e o modo de vida ocidental, fundamentado em uma concepção utilitária da existência que conduz à devastação ambiental. Para o autor, a lógica do consumo desenfreado resulta na destruição do planeta e na supressão de outras formas de vida e de imaginação, aprisionando a humanidade em um ciclo de autodevoramento. “Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos” (Krenak, 2020, p. 44).
Para Krenak (2020), a abstração civilizatória representa o deslocamento do ser humano de sua integração com a natureza; trata-se de uma abstração existencial em que o indivíduo passa a viver dentro de sistemas simbólicos, como o consumo, o lucro e a produtividade, perdendo a capacidade de perceber-se como parte de um organismo vivo. Assim, Krenak aponta que a distopia contemporânea não se manifesta apenas na destruição ambiental, mas também na perda da diversidade de vidas, culturas, modos de ser e de imaginar o mundo.
Nesse mesmo registro, Krenak (2021) no texto “Sobre a reciprocidade e a capacidade de juntar mundo”, descreve como a lógica Ocidental do Antropoceno se transformou em um “conserto civilizatório excludente”, o qual tem produzido a sensação de distopia e elidido a criação de sentidos. Como afirma:
Nós sabemos que esse mundo está mesmo com poucas ofertas de sentido para a gente. Poucas ofertas de sentido para que ele continue se dilatando como experiência humana e cultural no tempo e no espaço. [...] entramos, na verdade, em um período distópico em que as florestas, os rios, os oceanos, tudo o que é manancial de vida, está sendo disputado como se estivéssemos, de verdade, num fim de mundo. Em algum fim de mundo (Krenak, 2021, p. 66-67, grifos nossos).
Nesta obra, Krenak menciona que a distopia emerge como resultado direto da violência antropocêntrica que, historicamente, tem provocado a destruição dos territórios e modos de vida. Para os povos indígenas, o “fim de mundo” não é uma metáfora distante, mas experiências recorrentes, que, ao longo de séculos, viram seus universos destruídos pela expansão colonial, guiada pela lógica da acumulação ilimitada.
Para Félix Guattari (1990) essa degradação da vida não se manifesta apenas no desaparecimento de espécies e ecossistemas, mas também no esvaziamento simbólico da existência, expresso na perda das palavras, dos gestos e da solidariedade humana, o que revela uma crise civilizacional de múltiplas dimensões. Por isso, para o autor a história que atravessamos “[...] é mais aterradora do que nunca. Não somente as espécies desaparecem, mas também as palavras, as frases, os gestos de solidariedade humana” (Guattari, 1990, p. 27).
METODOLOGIA E IMAGENS
Discutir a crise climática por meio da Arte, possibilitou adicionar camadas a uma reflexão mais aprofundada com os adolescentes do segundo ano do Curso Técnico em Cooperativismo integrado ao Ensino Médio. Ao apresentar a obra de Ailton Krenak “Ideias para adiar do fim do mundo, (2019)” e a obra “Anima Mundi a través del ojo humano, (2021)” do artista visual mexicano Israel Urmeer, essa última trata-se de 15 pinturas que apresentam “planetas Terras” com feições de desenhos animados que escondem narrativas catastróficas e distópicas sob detalhes e acessórios “pops” coloridos. Há uma necessidade latente de aprendermos a ler as imagens, elas não são ingênuas. As imagens constroem memórias, legitimam narrativas e podem contribuir para naturalizar e/ou perpetuar violências.
Por isso, os objetivos desse texto são, primeiramente, descrever a análise crítica do pensamento de Ailton Krenak sobre o Antropoceno, especialmente sua leitura da distopia contemporânea, do consumo ilimitado e da ruptura da relação de reciprocidade com a Terra e, em seguida, mobilizar práticas educativas por meio da produção de imagens, para estimular reflexões críticas que expressem as percepções dos estudantes sobre a crise ambiental e os modos de vida atuais.
Os estudantes foram organizados em 3 grupos para aprofundamento e discussão, sendo o primeiro com o tema “Ideias para adiar o fim do mundo”; outro com o tópico “Do sonho e da Terra"; e o último “A humanidade que pensamos ser”. Dentro da proposta estava a produção de uma imagem e um texto reflexivo que dialogasse com os tópicos da obra de Krenak, entre as oito imagens produzidas destacamos seis para discussão neste ensaio visual.
A) Iniciemos com o primeiro tema, em que a imagem produzida a partir do trecho “ideias para adiar o fim do mundo” foi: “Sorriso que adoece” na qual os estudantes produzem um planeta animado, relacionando-o com os desenhos das crianças pequenas, que incluem olhos e sorrisos quando desenham objetos inanimados. Incluíram também, nessa escultura feita em isopor representações de vários vírus atacando o planeta, A ideia era representar vermes com cabeças humanas, mas tiveram dificuldades em produzir materialmente essa ideia.
Imagem 1: Sorriso que adoece (2025).
Fonte: acervo dos autores
B) As imagens produzidas a partir do texto “A humanidade que pensamos ser” (2025) in: Ideias para adiar o fim do mundo, são: “Que tal vender a terra e comprar Marte? (2025)” acreditar em que é possível comprar um outro planeta para habitar, acreditar que é possível vender o planeta terra. Sentimento de posse. Outra imagem que foi produzida a partir desse texto foi a “Não é de hoje (2025) uma imagem que apresenta os avanços tecnológicos eximindo o homem de toda degradação do planeta. Outra imagem foi denominada de “Ruína”, trabalho realizado em tela com pedaços de papelão pendurados representados pedaços de um planeta sufocado por uma figura humana com um cérebro oco, vazio. Pódium da importância (2025) trata-se de uma classificação de importância entre os valores apresentados, colocando o homem em 1º lugar, o capital em 2º lugar e por último o planeta.
Imagem 2: Que tal vender a terra e comprar Marte? (2025)
Fonte: acervo dos autores
Imagem 3: Não é de hoje (2025).
Fonte: acervo dos autores
Imagem 4: Ruína (2025).
Fonte: acervo dos autores
Imagem 5: Pódium da importância (2025)
Fonte: acervo dos autores
C) As imagens produzidas a partir do trecho “Do sonho e da Terra” in: ideias para adiar o fim do mundo foram: “Eles não têm mais interesse na Terra (2025) na imagem é apresentado o sistema solar com seus oito planetas, o Sol, uma nave espacial e uma carta com uma imagem de uma cabeça verde de um extra-terrestre estilizado. O planeta terra nessa imagem é apresentado na forma de uma maçã podre. E a imagem “Ventre da criação” (2025) em que os estudantes apresentam uma imagem de um planeta rosa, com bordas permeáveis, no centro, um útero que gera vidas, um planeta feminino, vivo.
Imagem 6: “Eles não têm mais interesse na Terra” (2025).
Fonte: acervo dos autores
Imagem 7: Ventre da criação (2025).
Fonte: acervo dos autores
DISCUSSÃO
As imagens produzidas pelos estudantes evidenciam suas percepções sobre o tempo presente, sobre a distopia em que vivemos, suas reflexões foram traduzidas visualmente em metáforas que revelam inquietações, preocupações e afetos diante das perspectivas do mundo contemporâneo. Nossa proposta foi mobilizar o imaginário dos estudantes em diálogo com a crítica de Krenak à hegemonia do Antropoceno e a perda das “ofertas de sentido”.
Krenak (2021) destaca a necessidade de cultivarmos a atitude da reciprocidade e a capacidade de “juntar mundos” como condição para continuidade da vida. O autor observa que esse princípio, embora presente como parte no lema da fraternidade da Revolução Francesa, não possibilitou a existência de uma sociedade orientada pelo sentimento de proximidade. Para Krenak, a reciprocidade corresponde à capacidade de “se afetar uns com os outros” e, acrescenta, “o outro, para além de uma alteridade oposta, é também a possibilidade de a gente se constituir como pessoa” (Krenak, 2021, p. 67-68).
A partir desse horizonte, a sala de aula, enquanto espaço de construção de sentidos coletivos sobre o mundo e sobre si mesmos, configura-se em um processo educativo para “imaginar mundos”. Ao trabalhar com a produção de imagens em grupo, a sala de aula deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conteúdos e passa a funcionar como um laboratório de imaginação coletiva, onde diferentes leituras de mundo emergem a partir desse princípio da produção dos afetos.
A imagem denominada de “Sorriso que adoece”, se articula com a ideia de Krenak de que o tema da Terra é um organismo vivo, mas está doente. Como afirma:
É uma mentalidade doente que está dominando o mundo. E temos agora esse vírus, um organismo do planeta, respondendo a esse pensamento doentio dos humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos por livre escolha, essa fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas ninguém se pergunta qual o seu preço (Krenak, 2020, p. 43).
Desse modo, Krenak (2020) critica a consumismo por produzir uma febre nesse organismo. Por outro lado, afirma que a “cura para a febre do planeta” é possível por meio de atitudes de pessoas que têm uma percepção diferente da vida e que não são “dopados por essa realidade nefasta de consumo”.
Já a imagem intitulada “Que tal vender a terra e comprar Marte?” revela a ironia de trocar a Terra por outro planeta, o que evidencia a crítica à lógica consumista do sistema capitalista de “comer o planeta” e, depois, descartar mundos. Assim como Krenak fala dos “viciados no novo”, a imagem revela essa leitura distópica, baseada na crença de que a solução da crise está fora da Terra, em um “novo” lugar para habitar. Contudo, isso apenas evidencia o desejo consumista indeterminado de uma máquina que não quer ser desligada.
E com o título “Não é de hoje”, a imagem aponta que a crise não é recente, mas um processo histórico acumulativo e prolongado da destruição ambiental produzido pelo agir do Antropoceno. Com isso, essa crítica alinhando-se à leitura de Krenak sobre a continuidade do “conserto civilizatório excludente” que se estende por séculos.
A imagem denominada “Ruína”, evidencia um cenário de colapso ambiental, dialogando com a metáfora de Krenak de que “estamos comendo o planeta”, pois apresenta o Antropoceno sufocando e sugando o planeta pelo consumo ilimitado. Esse esmagamento do planeta se expressa na violência exploratória do agir humano sobre a terra, que já produziu muitos “fins de mundo”, vividos principalmente pelos povos indígenas. Por isso, a ruína se torna símbolo da distopia já presente, isto é, não como futuro imaginado, mas como condição já vivida.
Sobre essa imagem, os estudantes também produziram um texto, do qual citamos dois parágrafos:
“Homem ergueu cidades de ferro e fumaça,
rasgou as montanhas, secou os rios,
plantou concreto onde havia florestas,
fez da Terra espelho das suas mentes vazias.”
[...]
“E quando o último canto de pássaro silenciar,
quando o verde ceder ao concreto,
haverá só cinza, e a Terra calada,
chegaremos todos juntos à RUÍNA.”
(Fonte: acervo dos autores, 2025).
Com o título “Eles não têm mais interesse na Terra”, os estudantes salientam que a humanidade cultiva um distanciamento afetivo que a leva à perda de vínculo com a Terra. A imagem apresenta uma carta enviada pela humanidade a seres extraterrestres, que respondem prontamente com sua visita ao sistema solar. Como menciona Krenak, a humanidade se conduz por “poucas ofertas de sentidos”, o que tem alimentado um desejo de deslocamento e fuga por meio de alternativas externas.
A imagem “Pódium da importância” critica a hierarquia antropocêntrica que sustenta o modo de vida occidental, dialogando com a denúncia de Krenak sobre o “conserto civilizatório excludente”. O pódio, enquanto símbolo de competição e mérito, é ressignificado pelos estudantes como metáfora de uma civilização que coloca o humano no topo e rebaixa a Terra a recurso secundário. Ao hierarquizar a vida, a imagem evidencia que a distopia se tornou uma realidade já naturalizada.
Enfim, a imagem nomeada como “Ventre da criação” busca cultivar o sentimento de reciprocidade com a mãe-terra, entendida por Krenak como capacidade de “se afetar uns com os outros” e reconhecer-se parte de um mundo que existe em relação. Quando os povos indígenas dizem “a Terra é nossa mãe” (Krenak, 2020, p. 60) não estão falando por metáfora, mas uma realidade vivida e experienciada no cotidiano como um organismo vivo, consciente e feminino, o qual se manifesta nos ciclos da água, das florestas, das montanhas e dos rios. Por isso, o princípio de reciprocidade que Krenak propõe como caminho para “juntar mundos” é condição para a continuidade da vida, do cuidado e afetação mútua entre humanos e a Terra.
A imagem Ventre da Criação foi produzida pelo grupo que trabalhou o tópico “Do sonho e da Terra”, o que tem vínculo com o pensamento de Krenak, o qual desenvolve o sonho não apenas um fenômeno individual, mas sim uma consciência coletiva de conexão com a comunidade e a natureza. Como afirma:
Existem muitos tipos de sonhos. Se alguém me chama para fazer uma viagem, eu espero sonhar com aquilo. Se eu não sonhar com a viagem ou com um convite para sair de onde estou, significa que eu não vou. Nunca sei o que vou fazer antecipadamente. É uma orientação que pode ser pensada como mágica, mas, na verdade, é o nosso modo de vida. Enquanto perseverarmos nele, vamos continuar sendo quem somos. Essa experiência de uma consciência coletiva é o que orienta as minhas escolhas (Krenak, 2020, p. 21).
Desse modo, para Krenak sonhar é um modo de viver, que nos conecta com a coletividade da existência. Também é um modo de produzir afetos e resistências, como afirma: “Vamos ter que produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por esse mundo e nele podermos habitar” (Krenak, 2020, p. 21). Por isso, narrar o sonho, prática cotidiana entre os povos indígenas para manter viva a conexão ancestral, é um modo de nos conectar coletivamente em lutas de criação de mundos e modos de vida que mantêm viva a esperança de “adiar o fim do mundo”. Por isso, a imagem “Ventre da criação” simboliza a necessidade de cultivarmos em sala de aula espaços de imaginação e criação de uma consciência coletiva de reciprocidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A leitura das obras de Krenak em sala de aula, articulada à criação artística, permitiu que os estudantes elaborassem visualmente suas inquietações diante do mundo contemporâneo, revelando como a distopia, a perda de sentido e o esgotamento da Terra já atravessam seu imaginário. Suas produções revelam angústias, ironias e esperanças, reafirmando que a escola pode ser um espaço de pensamento crítico sobre os desafios atuais da sociedade e, principalmente, a construção da reciprocidade como forma de afetar-se uns aos outros. As imagens tornam visíveis tanto a percepção dos estudantes sobre a crise planetária quanto a potência pedagógica de “juntar mundos” no espaço escolar.
Ao articular o pensamento de Krenak com práticas pedagógicas baseadas na produção e leitura crítica de imagens, esse estudo ofereceu uma abordagem singular para compreender a distopia contemporânea a partir da escola. A abordagem do pensamento dos povos indígenas descritos, por Krenak, enquanto conteúdo transversal em sala de aula, foi fundamental para um diagnóstico crítico do modo como a humanidade tem conduzido seu agir sobre a Terra. Enfim, a sala de aula é um espaço fundamental para criar afetos e reciprocidade, construindo atitudes de resistência e sonhos coletivos para “adiar o fim do mundo”.
REFERÊNCIAS
ARANTES, P. Art, Nature and Coloniality: Critiques of the Anthropocene. DAT Journal, [S. l.], v. 10, n. 2, p. 4–21, 2025. DOI: 10.29147/dat journal. v.10 nº 2. 2025. Disponível em: https://datjournal.emnuvens.com.br/dat/article/view/995. Acesso em: 16 nov. 2025.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras. 2020.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras. 2019.
KRENAK, Ailton. Sobre a reciprocidade e a capacidade de juntar mundo. In: Ailton Krenak, Helena Silvestre, Boaventura de Sousa Santos. O sistema e o antisistema: três ensaios, três mundos no mesmo mundo. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
Ruína. Texto que acompanha a imagem homônima produzido por estudantes do ensino médio integrado. Não publicado. IFPR: Coronel Vivida: 2025.
URMEER, Israel. Anima Mundi a través del ojo humano. 14ª Bienal do Mercosul Porto Alegre, 2021. Disponível em: https://www.bienalmercosul.art.br/bienal-14-artistas/urmeer acesso em 10 dez 2025.
73 Doutora em Informática na Educação - PPGIE - UFRGS/ UNT Universidade do Norte do Texas (2015), Mestre em Artes Visuais pelo PPGAV - UDESC (2011); Especialista em Arte - Educação e Tecnologias Contemporâneas pela UNB (2007), Especialista em Mídias na Educação pela FURG (2012), Licenciada em Educação Artística - habilitação em Artes Plásticas pela FAP (1998). Docente de Artes Visuais no Instituto Federal do Paraná- IFPR Campus Coronel Vivida; Representante do NAC - Núcleo de Arte e Cultura no Campus Coronel Vivida. E-mail: katyuscia.sosnowski@ifpr.edu.br
74 Doutor em Educação pela UNESP, campus de Marília/SP (2019). Mestre em Filosofia pela UNIOESTE, campus de Toledo/PR (2008). Graduado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque/SC (2002). Docente de filosofia no Instituto Federal do Paraná (IFPR), Campus Coronel Vivida. Vice-coordenador do Grupo de Pesquisa Filosofia, Ciência e Tecnologias (IFPR). Chefe-adjunto da revista IF Sophia (ISSN 2358-7482). Também é membro dos Grupos de Pesquisas: ENFILO - Grupo de estudos e pesquisa sobre o ensino de filosofia (UNESP/Marília) e NEDIH - Núcleo de Educação em Direitos Humanos (IFPR/Coronel Vivida). E-mail: daniel.vandresen@ifpr.edu.br