EDITORIAL

 

AS TRÊS ECOLOGIAS E OS DEVIRES ECOSÓFICOS CONTEMPORÂNEOS[1]

 

Dr. Alan Rodrigo Padilha[2]

 

As Três Ecologias propostas por Félix Guattari não constituem simplesmente uma ampliação do conceito ambiental, mas se refere a uma ruptura radical com o paradigma epistemológico que, há séculos, organiza o conhecimento e a própria realidade através de fragmentações estanques, hierarquias rígidas e especializações excludentes. Este paradigma tradicional que separa natureza e cultura, indivíduo e sociedade, razão e emoção, ciência e arte, revela-se hoje não apenas insuficiente, mas profundamente responsável pelas crises múltiplas que atravessamos. É preciso, portanto, conceber uma imagem rizomática do pensamento, que se compõem como uma cartografia dinâmica que conectam conceitos e áreas de conhecimento de forma transversal da química e da biologia à antropologia, ecologia, economia e política. Sua operacionalização não se limita à justaposição de disciplinas, mas consiste em um agenciamento ativo no qual esses saberes se contaminam, se hibridizam e se reconfiguram mutuamente, rompendo com os compartimentos estanques do conhecimento tradicional.

Essa abordagem integradora vai além da síntese de elementos técnicos, dados quantitativos ou marcos legais. Ela se volta, sobretudo, para a composição das relações sociais e das produções subjetivas, linhas de força que coexistem, se cruzam e se transformam continuamente. São essas linhas que, em seu entrelaçamento, modelam concretamente os modos de vida, as formas de habitar o mundo e as dinâmicas de poder. Ao mapear essas conexões vivas e complexas, a perspectiva rizomática amplia radicalmente a compreensão das interações indissociáveis entre sociedade, natureza e cultura, revelando-as como dimensões de uma mesma tessitura ecológica e política.

Para Guattari ([1989] 1990, p. 8), a ecosofia coloca em questão "a relação da subjetividade com sua exterioridade, seja ela social, animal, vegetal ou cósmica". Desse modo, a ecosofia vai além das abordagens ecológicas tradicionais ao integrar sobre as três ecologias simultaneamente as dimensões ética, estética e política, transcendendo a mera análise de fenômenos geoclimáticos para incluir as dimensões humanas, como linguagem, cultura e os modos de viver e sentir. Assim, a reconstrução de um mundo habitável exige, necessariamente, a regeneração das subjetividades e o cultivo de novas formas de convivência, inseparáveis da cura do próprio território, físico e existencial, que compartilhamos. Embora a ecosofia não se configure como um tratado convencional sobre questões ambientais, isso não significa que ignore tais preocupações. Ao contrário, ela amplia a discussão ecológica para além do ambiente natural, englobando também dimensões sociais e políticas, como a exploração capitalista, a pauperização de populações, a fome e os conflitos geopolíticos.

Além disso, a ecosofia aborda os processos capitalísticos de modelização subjetiva, os regimes de semiotização, os universos de valores e os territórios existenciais, sem desconsiderar questões urgentes como o aquecimento global, o desmatamento e a preservação dos ecossistemas. O pensamento ecosófico, no entanto, se distancia de uma ecologia política pautada pelo liberalismo da Sociedade Mont Pèlerin[3] e ampliada pelo Clube de Roma[4], que tratam a natureza como "recursos naturais", transformando-a em algo passível de exploração e comercialização. Essa perspectiva, amplamente difundida e apoiada por instituições como as Nações Unidas, consolidou uma visão utilitarista do meio ambiente, enquadrada em noções como sustentabilidade e economia verde.

Enquanto essas correntes promovem soluções tecnocráticas que perpetuam a dominação e a mercantilização da vida, a ecosofia propõe uma transformação radical nos valores e práticas sociais, valorizando o conhecimento tradicional, a diversidade cultural e a justiça socioambiental. Dessa forma, o pensamento ecosófico não apenas questiona as estruturas de poder que perpetuam a exploração da natureza e das comunidades, mas também propõe caminhos alternativos para uma coexistência mais justa e equilibrada. Buscando superar a lógica de dominação e promover uma integração entre meio ambiente, as relações sociais e os processos de subjetivação. 

Segundo Félix Guattari (1989 [1990], p. 31), a produção de subjetividade no capitalismo não ocorre apenas pelas instituições tradicionais de poder como escola, família ou exército. Ela se efetiva igualmente por meio dos sistemas técnico-maquínicos, como a televisão, a internet e os softwares, que formam uma rede de dispositivos semióticos. Esses dispositivos não só organizam a produção material, mas também modelam diretamente os desejos, os afetos e as identidades, abrangendo todas as posições sociais do capitalista ao proletário, de jovens a idosos. Diante desse cenário de sujeição semiótica generalizada é necessário forjar novos modos de produção de subjetividade. Essa subjetividade não deve se basear em modelos fixos ou leis universais, mas operar por meio de agenciamentos coletivos de desejo, capaz de romper com os microfascismos, falocráticos e racistas que continuam a modelar a subjetividade sob a lógica dominante.

É preciso considerar, no entanto, que o devir ecosófico não se limita ao pensamento de Guattari e Deleuze, mas se constitui como um movimento contínuo de ecologia do pensamento, cuja potência está justamente em transcender fronteiras conceituais para integrar múltiplos saberes. Nesse sentido, ele pode ser compreendido em diálogo com um amplo espectro de contribuições. Esse diálogo abrange desde os precursores do pensamento ecológico crítico, como René Dumont, Rachel Carson, André Gorz, Arne Næss, Michel Maffesoli até autores contemporâneos fundamentais, como Donna Haraway, Eduardo Viveiros de Castro, Isabelle Stengers e Ailton Krenak[5]. A essa constelação soma-se, de modo essencial, o aporte da ecologia decolonial, inspirada em pensadores como Frantz Fanon[6] e Malcom Ferdinand[7] que desvelam as conexões profundas entre a degradação ambiental e as estruturas de poder, as formas do saber e dos modos de ser herdadas do colonialismo. O resultado é uma abordagem integrada e plural do conhecimento, que configura um pensamento ecológico diverso e transformador. Seu objetivo é repensar radicalmente as relações entre humanos, não humanos e o meio ambiente, promovendo um perspectivismo e uma epistemologia cosmopolítica.

O devir ecosófico contemporâneo recusa a noção generalizante de Antropoceno e adota, em seu lugar, o conceito de Capitaloceno, cunhado por Jason W. Moore[8]. Essa mudança de marco não é meramente terminológica, mas política e analítica. Ela desloca o foco da crise: deixa de atribuí-la a uma "humanidade" abstrata e passa a localizá-la na lógica operativa específica do sistema capitalista. Este sistema, que converte a natureza em mero recurso, é o motor duplo que simultaneamente explora os ecossistemas e aprofunda as desigualdades sociais.

A ecosofia não oferece respostas prontas ou soluções definitivas, mas nos convocam a não encerrar o debate, a “permanecer engajados com o problema”, sustentando um compromisso com a reinvenção contínua. Trata-se de um processo aberto e insurgente, que nos chama a agir, a transformar e a sonhar. Esse horizonte nos lembra que, mesmo diante das incertezas e dos desafios do mundo contemporâneo é preciso, pois, acreditar num devir-ecosófico, reconhecendo nele a ligação profunda e inevitável entre o humano e o mundo. Esse compromisso com o impossível e o impensável surge como a única forma de resistir ao sufocamento existencial imposto pela lógica capitalista e pelas crises que marcam nosso tempo. A ecosofia, portanto, não é apenas um conceito, mas uma prática viva que nos desafia a repensar nossa relação com o mundo e a assumir um compromisso ético e político com a vida que valorizem a diversidade, a criatividade e o dissenso criador, rompendo com as estruturas de dominação e exploração que perpetuam desigualdades e destruição.



[1] Esse editorial foi elaborado a partir do seguinte referencial teórico: PADILHA, Alan Rodrigo. Por um devir ecosófico: uma investigação a partir de Guattari e Deleuze. 2025. 250 p. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

[2] Doutor em filosofia e professor da carreira EBTT no departamento de ensino, pesquisa e extensão do IFPR - Umuarama  - PR.  E-mail: alan.padilha@ifpr.edu.br

[3] A Sociedade Mont Pèlerin, fundada em 1947 é uma influente rede intelectual que promove os ideais do liberalismo clássico e do livre mercado, servindo como um dos principais pilares do pensamento neoliberal no século XX.

[4] Fundado em Roma, em 1968 por Aurélio Peccei e Alexander King, o Clube de Roma é uma organização global com o objetivo de tratar de questões econômicas, políticas, ambientais e sociais.

[5] René Dumont foi um pioneiro da crítica ecológica à agricultura produtivista e um dos fundadores da agroecologia política; Rachel Carson, biológica e defensora da integridade dos ecossistemas e da saúde pública contra os impactos destrutivos de tecnologias humanas; André Gorz, filósofo e crítico da ecologia política; Arne Næss, filósofo, fundador da Ecologia Profunda; Michel Maffesoli, sociólogo da pós-modernidade e das tribos urbanas; Donna Haraway, filósofa da ciência e teórica do pós-humano; Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo do perspectivismo ameríndio; Isabelle Stengers, filósofa da ciência e da ecologia das práticas; Ailton Krenak, líder e pensador indígena brasileiro, que insere as cosmologias ameríndias no centro do debate socioambiental.

[6] Psiquiatra e teórico revolucionário nascido na Martinica. Suas principais obras, como Pele Negra, Máscaras Brancas (1952) e Os Condenados da Terra (1961), analisam os impactos psicológicos do racismo e da violência colonial, tornando‑se fundamentais para o pensamento pós‑colonial e para os movimentos de libertação do século XX.

[7] Filósofo e engenheiro ambiental franco-caribenho, desenvolve a noção de "ecologia decolonial" como crítica a “dupla fratura” colonial e ambiental.

[8] Historiador e geógrafo estadunidense, propõe o conceito de “Capitaloceno” e analisa as crises ecológicas como intrínsecas ao capitalismo mundial.